Afastar o mar à mão Fazer as pedras entoarem uma canção Pôr o sol a sorrir à lua Fazer acontecer onde há muito nada acontece Fazer nascer um sim em plena rua Riscar para sempre a palavra não Eliminar o desequilibro entre o pobre e o rico Mudar o Mundo mesmo que custe muito e leve muito tempo É impossível? Eu, pelo menos, tento
O impossível é tão só e apenas aquilo que ainda não aconteceu
Fala a pedra com a pedra: Onde a erva?
Fala a terra com a terra: Onde o húmus?
Fala a porta com a janela: Onde a gente?
Fala a parede com o sobrado:
Tens saudade dos passos?,
Onde pára o espanta pardais,
esse espantalho de falsos braços
que afastavam os pássaros?
Onde param as searas? e as eiras?
e os cantos? e o pão?
Flor? Que é uma flor?
Flor era essa coisa de pétalas e cor
que tu trazes na memória
e que segundo o calendário do tempo
devia povoar esses campos?
Árvores? Que é uma árvore?
Árvore era essa coisa de raízes,
folhas, ramos, frutos
Árvore que juras te ter no passado
dado meiga e fresca sombra?
Água? Que é a água?
Água é essa coisa que te molhava o rosto,
a roupa, o corpo
e que as escuras nuvens
teimam levar
para outro lugar?
Ah, meu amor, este abandono
Ah, meu amor, este deserto
Se cada um de nós somos três
porque me falas
como se houvesse apenas Minha Alma?
Porque me falas
como se tudo dependesse da Primavera e nada dependesse de nós?
Da forma em como anda o mundo ocorreu-me que estas duas versões, embora radicalmente distintas,
têm exactamente o mesmo sentido..
Olhei a pedra Fria,Estúpida, Parada Calada De tanto a olhar, julguei-a bela Transformei-menela Frio, Estúpido, Parado Calado Sem destino sequer de pedrada no charco Sujeito à degradação do relento eà erosão do vento em breve serei pó
Não olhes para mim, assim Mexe-te, ao menos
A pouco e pouco se mexeram e num repente oMundo assistiu ao despertar das pedras
Acordai mulheres que dormis embaladas por almas desalmadas desenhadas nas passarelas da vaidade nas capas das revistas na ausência da cidade na omissão dos dias na mingua dos afectos no silêncio da fome que nos consome
Acordai almas de vestes finas de fino recorte de lânguida aparência na transparência dos gestos ausentes dos gestos dormentes dos gestos mansos e quietos das mulheres que dormem em teu regaço
Entre o sono e o despertar acontece-me ouvir canções e, quando saio da cama, vou-os cantarolando. A maior parte das vezes, são ideias. Umas boas, outras nem tanto. Mas hoje aconteceu coisa que nunca me tinha acontecido: uma frase (que me parecia um verso) apoderou-se-me da mente. Era assim: antes fosses ceguinha!
Cum raio, onde é que eu fui buscar isto? E depois descobri o que já sabia: o cérebro guarda coisas que nos ficaram gravadas na alma.
Bah! Hoje você é palhaço!
Vista sua fantasia,
passe pó vermelho no rosto.
Aqui as pessoas pagam e querem rir.
E se Arlequim (a morte)
lhe roubou sua Colombina, ria, palhaço, e todos vão aplaudir!
Mude para risos esses seus espasmos e o choro, vire o soluço e faça uma cara engraçada Ah! Corra com a dor
Ria! Ria Palhaço,
no seu amor em pedaços.
Ria da dor que lhe envenena seu coração
Nesta Antologia, o autor coloca-nos diante da sua visão do mundo, marcada por um forte sentido crítico relativamente às maiores questões que hoje se colocam ao homem, numa ótica da falta de consciencialização, ética e ação, face às mesmas. É um conjunto de textos que resulta da experiência vivencial, observação e interpretação pessoal do mundo com o qual, o poeta se sente em desalinho. É a expressão maturada do encontro consigo mesmo, provocado pelo exercício de liberdade poética que pretende reafirmar, perante familiares e amigos. Mas é também o desejo/intenção de homenagear a sua companheira de vida. É para ela, a quem carinhosamente trata por menina, o primeiro poema (que dá título ao livro). O texto em causa termina com o verso - Falar de mim é falar de nós, deixando pairar no ar a ideia de que o sujeito, por si só, não será capaz de realizar os sonhos e alcançar a felicidade. O pronome nós, não se limita ao eu e tu do casal, claramente, mas a um universo bem mais amplo e complexo. Esta é uma constatação patente, desde logo, na epígrafe/dedicatória que se vai tomando mais visível, à medida que se avança na leitura.
Há, no trabalho em presença, uma nítida tendência para a objetividade, com raízes no neorrealismo (reconhecida e assumida pelo autor) uma intenção declarada de eleger o coletivo em detrimento do individual, conforme se intui no poema “Auto-Retrato” onde se lê: Diz nada decidir / sem convocar o coletivo seu Eu,/ sua Alma e seu Contrário/ ao qual apelida de Juízo, porém não deixa de revelar, a individualidade (o Eu é a voz da maioria dos textos) e a impulsividade a que a Arte não se pode furtar.
À conceção da escrita comprometida, o autor parece querer associar a ideia de um humanismo outro, capaz de minorar ou até solucionar os muitos conflitos que, por todos os cantos do mundo, assolam os povos. Puramente utópico - dirão muitos de nós, leitores. A isso responderá Rogério Pereira com uma afirmação que costuma repetir frequentemente e surge inscrita no poema acima citado - Diz ser fácil mudar o mundo/só que leva é tempo.
Uma genuína preocupação relativamente aos problemas de carácter político-social transparece dos textos e julgo ser essa mesma preocupação a despertar no autor a pulsão da escrita, a necessidade de grafar o seu entendimento das coisas do mundo e da vida e a partilhá-lo com outros.
De registar, aqui e ali, um pendor acentuadamente irónico relativo àquilo que, na perspetiva do autor, é frivolidade, desinteresse e dispersão e como tal, merece ser criticado, parecendo querer tomar a seu cargo a função de orientador/mestre.
Vejamos, no poema “Crisálida” ... entregou ao silêncio/ as forças resignadas/ e sentou-se, ansiosa/ à espera/ da hora/ da telenovela.
Ou em “Pele” - A pele, escrita/ A pele, poema/ A pele, prosa/ A pele,/ a pele,/ a pele/ E ela? /Apenas uma mensagem: /"…porque noutros lados// também há flores e barcos … e uma vida/ que é muito mais a minha!"
Ou ainda em – “A primavera das mulheres pueris”. Na última estrofe pode ler-se:[ ...] Então um ser que não olha o céu, / que não tem assunto/ que não liga ao mundo/ que virada a cada momento/ só para dentro/ […]
Ah, mulheres/ temos que um dia falar/ olhos nos olhos...
Um reparo, apenas, no sentido de que a frivolidade não pode ser entendida como apanágio de género. Ela existe, sim, mas não diz respeito exclusivamente às mulheres. A frivolidade, por mais que possa parecer ridícula, a alguns, é transversal a toda a sociedade, podendo ser encontrada onde menos se espera. Contudo, não apenas de ironia e crítica social se faz este livro, faz-se também:
• de Sonho - O impossível é tão só e apenas aquilo que ainda não aconteceu;
• de Utopia - Quem antes via apenas a árvore / pode agora ver / através de mim / a floresta;
• de Esperança - Havemos de emendar o rumo errado.
E, então, a Poesia…
Lídia Borges (*)
(*) Lídia Borges é o pseudónimo literário de Olívia Maria Barbosa Guimarães Marques, natural de Braga. Professora do Ensino Básico, sempre teve a Literatura como suporte imprescindível à compreensão do Mundo e do Homem. Possui o grau de mestrado em Teoria da Literatura, na área de especialização de Estudos Lusófonos, pela Universidade do Minho.
Tem obra publicada nos géneros de conto, crónica e poesia. Assina vários títulos, alguns dos quais distinguidos em Prémios Literários.
É membro da Associação Portuguesa de Escritores.
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Uns dizem palavras de desalento
Outros que esperam ter esperança em Maio
A maior parte, não fala e quando saio
Oiço queixas veementes de tão mau tempo
Resguardo-me dos estados de alma
E do silêncio resignado e mudo
Avanço chuva adentro, que não se acalma
Sem esperar que lave os males deste mundo
Meu irmão falou-me de relâmpagos, na escarpa
A nuvem falou-me de trovões e do vento
Um raio que parta tudo isto, ouvi neste momento
Desabafo da impotência que daquela voz se escapa
Avancemos, chuva adentro
Chuva adentro
Até que o Sol nos apareça, e brilhe como se fosse Abril
Creio que será mesmo desta. A porta abriu-se há exactamente dois anos, mas não se terá fechado. Sobe-o num reencontro inesperado em contexto triste (o velório de um comum amigo). Pediu-me que me sentasse com ele e, estendendo-me a aparelhagem, pediu-me que o escutasse. Assim fiz... e gostei. Gostei da sua voz. Gostei do ritmo hip-hop. Gostei do que ouvi. E depois de lho ter dito, foi a vez de ele me dizer que iria para a frente com o projecto...
Recordo então o texto que anunciava a abertura da porta:
O primeiro passo foi dado, enviando-lhe trabalho meu, um tal livrinho "O melhor de mim somos nós - e outros poemas" que o terá atingindo, em cheio, na alma. De pronto marcámos encontro, que decorreu esta manhã na "minha esplanada". Trocámos ideias sobre os passos seguintes, depois do Júlio me dar conta da sua escolha. Disse-me ele "o poema que mexe comigo está na página 13!"
E o que antes era um poema, passou agora a ler letra. Esperemos a canção do Júlio.
PEDRA, DEPOIS PÓ
E FINALMENTE VIDA
Olhei a pedra Fria,Estúpida, Parada Calada De tanto a olhar, julguei-a bela Transformei-menela Frio, Estúpido, Parado Calado Sem destino sequer de pedrada no charco Sujeito à degradação do relento eà erosão do vento em breve serei pó
Não olhes para mim, assim Mexe-te, ao menos
A pouco e pouco se mexeram e num repente oMundo assistiu ao despertar das pedras
Trago do Ano Velho
tudo o que tenho,
e é pouco, como mostro.
Não me tirem mais!, eu troco...
Troco este rádio
pelos esqueletos que guardas no armário.
Troco o meu brinquedo
pelo teu medo,
e o o meu colar pelos fantasmas
que não largas.
Dou-te o meu boné
se me deres as teias
em que te enleias.
Dou-te todas as minha miseras roupas
se me vestires com teu sorriso.
Dispenso-te minhas pobres botas
se jurares
percorrer caminhos que não ousaste.
Julgas que tudo o que te move e a que te agarras
valem mais que estas minhas vestes e tralhas?
Vá, pensa!, tudo o que te proponho
não tem de acontecer agora.
Vamos trocando pelo ano fora.
Vamos trocando?
Vamos?
Ah, e esta rua
é também tua.
Usa-a para a minha luta, já.
Vá!
Hoje passei a manhã correndo de um para outro lado. Primeiro ao Hospital Egas Moniz e depois para o Centro de Saúde de Oeiras. O seu estado é preocupante e já o era quando, em sala repleta, se ouviu um poema dela, com ela ausente. Está em casa... por agora, estabilizada.
Este meu compromisso
é antigo
tenho-o desde menino
Quando tropeça
levanto-o
Quando chora
sorvo-lhe a lágrima
Quando quebra
dou-lhe garra
Quando afrouxa
dou-lhe gana
Quando hesita
dou-lhe guita
Quando se perde
dou-lhe bússola
dou-lhe leme
Quando recua
dou-lhe censura
Quando se cansa
dou-lhe colo
Quando entristece
dou-lhe consolo
Tudo isto
é o que reza ser
o compromisso com ele tido
desde ele menino
Amanhã, caso me afastar
sei que me vai chamar
e eu irei como sempre fui