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12 outubro, 2026

CONTINUO FAZENDO... O IMPOSSÍVEL

(reeditado)

Fazer o impossível

Afastar o mar à mão
Fazer as pedras entoarem uma canção
Pôr o sol a sorrir à lua
Fazer acontecer
onde há muito nada acontece
Fazer nascer um sim em plena rua
Riscar para sempre a palavra não
Eliminar o desequilibro
entre o pobre e o rico
Mudar o Mundo
mesmo que custe muito
e leve muito tempo

É impossível?
Eu, pelo menos, tento

O impossível é
tão só e apenas
aquilo que ainda não aconteceu 
digo eu 
Rogério Pereira

11 outubro, 2026

DESERTIFICANDO O QUE AINDA RESTA...

(reeditado)


DESERTIFICAÇÃO
Fala a pedra com a pedra: Onde a erva?
Fala a terra com a terra: Onde o húmus?
Fala a porta com a janela: Onde a gente?
Fala a parede com o sobrado:
Tens saudade dos passos?,
Onde pára o espanta pardais,
esse espantalho de falsos braços
que afastavam os pássaros?
Onde param as searas? e as eiras?
e os cantos? e o pão?

Flor? Que é uma flor?
Flor era essa coisa de pétalas e cor
que tu trazes na memória
e que segundo o calendário do tempo
devia povoar esses campos?

Árvores? Que é uma árvore?
Árvore era essa coisa de raízes,
folhas, ramos, frutos
Árvore que juras te ter no passado
dado meiga e fresca sombra?

Água? Que é a água?
Água é essa coisa que te molhava o rosto,
a roupa, o corpo
e que as escuras nuvens
teimam levar
para outro lugar?

Ah, meu amor, este abandono
Ah, meu amor, este deserto
Se cada um de nós somos três
porque me falas
como se houvesse apenas Minha Alma?
Porque me falas
como se tudo dependesse da Primavera
e nada dependesse de nós?

Rogério Pereira

09 outubro, 2026

"ACORDAI" OU "DESPERTAI..." O SENTIDO É O MESMO

Da forma em como anda o mundo ocorreu-me que estas duas versões, embora radicalmente distintas, 
têm exactamente o mesmo sentido.. 

 

Olhei a pedra
Fria, Estúpida, Parada

Calada

De tanto a olhar, julguei-a bela

Transformei-me nela

Frio, Estúpido, Parado

Calado

Sem destino sequer

de pedrada no charco

Sujeito à degradação do relento

e à erosão do vento

em breve serei pó

Não olhes para mim, assim
Mexe-te, ao menos
 

A pouco e pouco se mexeram
e num repente

o Mundo assistiu

ao despertar das pedras

Rogério Pereira

03 setembro, 2026

A PITY DEDICOU-ME UM POEMA. DEPOIS DE O LER, MINHA ALMA LEVANTOU VOO


 «Vou-me juntar ao bando.

Preciso dizer-lhes que há pelo menos um homem

que, como nós, sabe voar.»

Autor : Rogério G.V. Pereira

 

Talvez tenha sido uma gaivota

que um dia me disse isto ao ouvido,

quando o mar ainda guardava

o último azul da tarde.

 

Encontrei um homem.

Não tinha asas.

Mas quando abriu as mãos,

o mundo pareceu caber nelas.

 

Não o vi subir.

Vi-o permanecer de pé

quando o vento

mandava que baixasse a cabeça.

 

Vi-o caminhar

sem medo da distância,

sem mapa, sem perguntar

onde começava o céu.

 

Há perguntas

que nos prendem à terra

antes de encontrarmos

a resposta certa.

 

Foi então que compreendi:

voar não é fugir.

É permanecer

quando o vento nos empurra.

 

É confiar no caminho

mesmo quando o horizonte

ainda não se deixa alcançar.

É abrir as mãos

sem saber o que nelas pousará.

 

E guardar dentro de nós

aquilo que amamos

sem deixar de abrir espaço

para o mundo.

 

Por isso, se um dia

me virem caminhando junto ao mar,

não pensem que estou perdido.

 

Talvez esteja apenas à espera

de que alguma gaivota reconheça,

nas minhas mãos vazias,

o desenho de duas asas.

 

Talvez então eu compreenda

que o céu nunca esteve

tão longe como pensei.

 

E, quando o vento chamar,

sem medo de não saber para onde,

hei de me juntar ao bando.

 

©Piedade Araújo Sol 2026-08-27

18 julho, 2026

POEMA DATADO, MAS... UMA TROVA CADA VEZ MAIS ACTUAL


TROVA DO VENTO QUE PASSA

Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

Pergunto aos rios que levam
tanto sonho à flor das águas
e os rios não me sossegam
levam sonhos deixam mágoas.

Levam sonhos deixam mágoas
ai rios do meu país
minha pátria à flor das águas
para onde vais? Ninguém diz.

Se o verde trevo desfolhas
pede notícias e diz
ao trevo de quatro folhas
que morro por meu país.

Pergunto à gente que passa
por que vai de olhos no chão.
Silêncio -- é tudo o que tem
quem vive na servidão.

Vi florir os verdes ramos
direitos e ao céu voltados.
E a quem gosta de ter amos
vi sempre os ombros curvados.

E o vento não me diz nada
ninguém diz nada de novo.
Vi minha pátria pregada
nos braços em cruz do povo.

Vi minha pátria na margem
dos rios que vão pró mar
como quem ama a viagem
mas tem sempre de ficar.

Vi navios a partir
(minha pátria à flor das águas)
vi minha pátria florir
(verdes folhas verdes mágoas).

Há quem te queira ignorada
e fale pátria em teu nome.
Eu vi-te crucificada
nos braços negros da fome.

E o vento não me diz nada
só o silêncio persiste.
Vi minha pátria parada
à beira de um rio triste.

Ninguém diz nada de novo
se notícias vou pedindo
nas mãos vazias do povo
vi minha pátria florindo.

E a noite cresce por dentro
dos homens do meu país.
Peço notícias ao vento
e o vento nada me diz.

Quatro folhas tem o trevo
liberdade quatro sílabas.
Não sabem ler é verdade
aqueles pra quem eu escrevo.

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.

Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não

Manuel Alegre - Praça da Canção/1965

07 maio, 2026

POEMA, TENDO AINDA AS MULHERES COMO TEMA

 


Acordai
mulheres
que dormis
embaladas
por almas
desalmadas
desenhadas
nas passarelas da vaidade
nas capas das revistas
na ausência da cidade
na omissão dos dias
na mingua dos afectos
no silêncio da fome
que nos consome 

Acordai
almas de vestes finas
de fino recorte 
de lânguida aparência
na transparência
dos gestos ausentes
dos gestos dormentes
dos gestos mansos e quietos
das mulheres que dormem
em teu regaço

Acordai
Filhas, esposas,
mães
avós
  
Acordai
acordemos, todos nós

Rogério Pereira (Maio 2024)


24 março, 2026

ENTRE O SONO E O DESPERTAR... HÁ COISAS ASSIM...

Entre o sono e o despertar acontece-me ouvir canções e, quando saio da cama, vou-os cantarolando. A maior parte das vezes, são ideias. Umas boas, outras nem tanto. Mas hoje aconteceu coisa que nunca me tinha acontecido: uma frase (que me parecia um verso) apoderou-se-me da mente. Era assim: antes fosses ceguinha! 
Cum raio, onde é que eu fui buscar isto? E depois descobri o que já sabia: o cérebro guarda coisas que nos ficaram gravadas na alma.
E era isto:

 

Jesus! Jesus! Jesus! o que aí vai de aflição!

Ó meu Amor! é para ver tantos abrolhos,
Ó flor sem eles! que tu tens tão lindos olhos!
Ah! foi para isto que te deu leite a tua ama,
Foi para ver, coitada! essa bola de lama
Que pelo espaço vai, leve como a andorinha,
A Terra!

Ó meu Amor! antes fosses ceguinha...

21 março, 2026

HOJE, ASSUMO, MINHA ALMA É ÁRVORE QUE DÁ FRUTO...

 


A pereira no quintal escolheu o dia, hoje,
para se encher de flor.
Ou terão sido os meus olhos, hoje,
mais atentos aos passos da Poesia?
Ela não sabe, mas encheu-me de alegria,
uma alegria miudinha e boa
que veio falar-me de paz.
Sonhar a paz no aconchego
das coisas da terra, quantas vezes?
Deslocámos um grão de areia do deserto,
um caulezinho na montanha
para mover a montanha,
para mudar o deserto.
Eis a Poesia,
essa fé capaz de fertilizar desertos,
de mover montanhas
ou simplesmente
de tornar mais fácil a convivência
com o que nos atormenta.
Lídia Borges

16 fevereiro, 2026

TERÇA FEIRA DE CARNAVAL!... AH!, QUE SAUDADE...


 Você é um homem?

Bah! Hoje você é palhaço!
Vista sua fantasia,
passe pó vermelho no rosto.
Aqui as pessoas pagam e querem rir.
E se Arlequim (a morte)
lhe roubou sua Colombina,
ria, palhaço, e todos vão aplaudir!
Mude para risos
esses seus espasmos e o choro,
vire o soluço e faça uma cara engraçada
Ah! Corra com a dor
Ria! Ria Palhaço,
no seu amor em pedaços.
Ria da dor que lhe envenena seu coração

 Rogério Pereira - Fevereiro/2024

"I paglacci", letra adaptada

13 fevereiro, 2026

E O PREFÁCIO DA MINHA OBRA FOI ESCRITO POR QUEM SABE DA PODA! OBRIGADO QUERIDA MADRINHA DA MINHA ESCRITA

Prefácio

Nesta Antologia, o autor coloca-nos diante da sua visão do mundo, marcada por um forte sentido crítico relativamente às maiores questões que hoje se colocam ao homem, numa ótica da falta de consciencialização, ética e ação, face às mesmas. É um conjunto de textos que resulta da experiência vivencial, observação e interpretação pessoal do mundo com o qual, o poeta se sente em desalinho. É a expressão maturada do encontro consigo mesmo, provocado pelo exercício de liberdade poética que pretende reafirmar, perante familiares e amigos. Mas é também o desejo/intenção de homenagear a sua companheira de vida. É para ela, a quem carinhosamente trata por menina, o primeiro poema (que dá título ao livro). O texto em causa termina com o verso - Falar de mim é falar de nós, deixando pairar no ar a ideia de que o sujeito, por si só, não será capaz de realizar os sonhos e alcançar a felicidade. O pronome nós, não se limita ao eu e tu do casal, claramente, mas a um universo bem mais amplo e complexo. Esta é uma constatação patente, desde logo, na epígrafe/dedicatória que se vai tomando mais visível, à medida que se avança na leitura. 

 Há, no trabalho em presença, uma nítida tendência para a objetividade, com raízes no neorrealismo (reconhecida e assumida pelo autor) uma intenção declarada de eleger o coletivo em detrimento do individual, conforme se intui no poema “Auto-Retrato” onde se lê: Diz nada decidir / sem convocar o coletivo seu Eu,/ sua Alma e seu Contrário/ ao qual apelida de Juízo, porém não deixa de revelar, a individualidade (o Eu é a voz da maioria dos textos) e a impulsividade a que a Arte não se pode furtar. À conceção da escrita comprometida, o autor parece querer associar a ideia de um humanismo outro, capaz de minorar ou até solucionar os muitos conflitos que, por todos os cantos do mundo, assolam os povos. Puramente utópico - dirão muitos de nós, leitores. A isso responderá Rogério Pereira com uma afirmação que costuma repetir frequentemente e surge inscrita no poema acima citado - Diz ser fácil mudar o mundo/só que leva é tempo. 

Uma genuína preocupação relativamente aos problemas de carácter político-social transparece dos textos e julgo ser essa mesma preocupação a despertar no autor a pulsão da escrita, a necessidade de grafar o seu entendimento das coisas do mundo e da vida e a partilhá-lo com outros. De registar, aqui e ali, um pendor acentuadamente irónico relativo àquilo que, na perspetiva do autor, é frivolidade, desinteresse e dispersão e como tal, merece ser criticado, parecendo querer tomar a seu cargo a função de orientador/mestre. Vejamos, no poema “Crisálida” ... entregou ao silêncio/ as forças resignadas/ e sentou-se, ansiosa/ à espera/ da hora/ da telenovela. Ou em “Pele” - A pele, escrita/ A pele, poema/ A pele, prosa/ A pele,/ a pele,/ a pele/ E ela? /Apenas uma mensagem: /"…porque noutros lados// também há flores e barcos … e uma vida/ que é muito mais a minha!" 

Ou ainda em – “A primavera das mulheres pueris”. Na última estrofe pode ler-se:[ ...] Então um ser que não olha o céu, / que não tem assunto/ que não liga ao mundo/ que virada a cada momento/ só para dentro/ […] 
 Ah, mulheres/ temos que um dia falar/ olhos nos olhos... 

Um reparo, apenas, no sentido de que a frivolidade não pode ser entendida como apanágio de género. Ela existe, sim, mas não diz respeito exclusivamente às mulheres. A frivolidade, por mais que possa parecer ridícula, a alguns, é transversal a toda a sociedade, podendo ser encontrada onde menos se espera. Contudo, não apenas de ironia e crítica social se faz este livro, faz-se também:
 • de Sonho - O impossível é tão só e apenas aquilo que ainda não aconteceu;
 • de Utopia - Quem antes via apenas a árvore / pode agora ver / através de mim / a floresta; 
 • de Esperança - Havemos de emendar o rumo errado.

 E, então, a Poesia… 

Lídia Borges (*) 

 (*) Lídia Borges é o pseudónimo literário de Olívia Maria Barbosa Guimarães Marques, natural de Braga. Professora do Ensino Básico, sempre teve a Literatura como suporte imprescindível à compreensão do Mundo e do Homem. Possui o grau de mestrado em Teoria da Literatura, na área de especialização de Estudos Lusófonos, pela Universidade do Minho. Tem obra publicada nos géneros de conto, crónica e poesia. Assina vários títulos, alguns dos quais distinguidos em Prémios Literários. 
 É membro da Associação Portuguesa de Escritores. -->

E é dela esta linda "TELA", ora deliciem-se:


05 fevereiro, 2026

EM TEMPOS DE TORMENTA... AVANCEMOS ATÉ QUE O SOL NOS APAREÇA!

(reedição)


Avancemos, até que o Sol nos apareça

Uns dizem palavras de desalento
Outros que esperam ter esperança em Maio
A maior parte, não fala e quando saio
Oiço queixas veementes de tão mau tempo

Resguardo-me dos estados de alma
E do silêncio resignado e mudo
Avanço chuva adentro, que não se acalma
Sem esperar que lave os males deste mundo

Meu irmão falou-me de relâmpagos, na escarpa
A nuvem falou-me de trovões e do vento
Um raio que parta tudo isto, ouvi neste momento
Desabafo da impotência que daquela voz se escapa

Avancemos, chuva adentro
Chuva adentro
Até que o Sol nos apareça, e brilhe
como se fosse Abril


Rogério Pereira - Fevereiro/2016

22 janeiro, 2026

É DESTA? SERÁ MESMO DESTA QUE UM POEMA MEU PASSARÁ A CANÇÃO?

O Júlio e eu

Creio que será mesmo desta. A porta abriu-se há exactamente dois anos, mas não se terá fechado. Sobe-o num reencontro inesperado em contexto triste (o velório de um comum amigo). Pediu-me que me sentasse com ele e, estendendo-me a aparelhagem, pediu-me que o escutasse. Assim fiz... e gostei. Gostei da sua voz. Gostei do ritmo hip-hop. Gostei do que ouvi. E depois de lho ter dito, foi a vez de ele me dizer que iria para a frente com o projecto...

Recordo então o texto que anunciava a abertura da porta:

"Lembram-se que todos vós me "empurraram" para que aceitasse o desafio? E que teríamos que iniciar um caminho, de "trabalho, a quatro mãos"?

O primeiro passo foi dado, enviando-lhe trabalho meu, um tal livrinho "O melhor de mim somos nós - e outros poemas" que o terá atingindo, em cheio, na alma. De pronto marcámos encontro, que decorreu esta manhã na "minha esplanada".  Trocámos ideias sobre os passos seguintes, depois do Júlio me dar conta da sua escolha. Disse-me ele "o poema que mexe comigo está na página 13!"

E o que antes era um poema, passou agora a ler letra. Esperemos a canção do Júlio.

PEDRA, DEPOIS PÓ

E FINALMENTE VIDA

Olhei a pedra
Fria, Estúpida, Parada

Calada

De tanto a olhar, julguei-a bela

Transformei-me nela

Frio, Estúpido, Parado

Calado

Sem destino sequer

de pedrada no charco

Sujeito à degradação do relento

e à erosão do vento

em breve serei pó

Não olhes para mim, assim
Mexe-te, ao menos
 

A pouco e pouco se mexeram
e num repente

o Mundo assistiu

ao despertar das pedras

Rogério Pereira

 

01 janeiro, 2026

MENSAGEM DE ANO NOVO, ESPERANDO... (AINDA SEM DESESPERO)

Imagem StreetArt Child

 

 

 

Mensagem deste Ano Novo
Trago do Ano Velho
tudo o que tenho,
e é pouco, como mostro.
Não me tirem mais!, eu troco...
Troco este rádio
pelos esqueletos que guardas no armário.
Troco o meu brinquedo
pelo teu medo,
e o o meu colar pelos fantasmas
que não largas.
Dou-te o meu boné
se me deres as teias
em que te enleias.
Dou-te todas as minha miseras roupas
se me vestires com teu sorriso.
Dispenso-te minhas pobres botas
se jurares
percorrer caminhos que não ousaste.

Julgas que tudo o que te move e a que te agarras
valem mais que estas minhas vestes e tralhas?

Vá, pensa!, tudo o que te proponho
não tem de acontecer agora.
Vamos trocando pelo ano fora.
Vamos trocando?
Vamos?

Ah, e esta rua
é também tua.
Usa-a para a minha luta, já.
Vá!
Rogério Pereira (reeditado, com alterações)

20 novembro, 2025

NOTÍCIAS PREOCUPANTES SOBRE A MARIA JOÃO E ESTE SONETO SEU QUE ELA NÃO OUVIU


Hoje passei a manhã correndo de um para outro lado. Primeiro ao Hospital Egas Moniz e depois para o Centro de Saúde de Oeiras. O seu estado é preocupante e já o era quando, em sala repleta, se ouviu um poema dela, com ela ausente. Está em casa... por agora, estabilizada.
O soneto? Não o ouviu no vídeo? Então leia-o:
GUERRA E PAZ
Há guerra e paz na voz com que protestas
E umas notas frutadas que não sei
Se te vêm de um tempo todo em festas,
Se de outro, contra o qual me revoltei
*
Mas há-as, porque as vejo abrindo frestas
Na dor, quando a teu lado a partilhei
Num grito feito de ervas e giestas
Que ousei colher, quando jamais plantei
*
Que mais há nessa voz que é minha e tua,
Que mais nasce do som que vem da rua,
Se não a impotência e a tristeza
*
De não poder-te dar melhor, nem mais
Do que estes vôos rasos sem os quais
Talvez nem pão houvesse sobre a mesa?
*
Maria João Brito de Sousa
19.05.2018-17.04h
***

05 outubro, 2025

ESTE MEU COMPROMISSO


O MEU COMPROMISSO

Este meu compromisso
é antigo
tenho-o desde menino
Quando tropeça
levanto-o
Quando chora
sorvo-lhe a lágrima
Quando quebra
dou-lhe garra
Quando afrouxa
dou-lhe gana
Quando hesita
dou-lhe guita
Quando se perde
dou-lhe bússola
dou-lhe leme
Quando recua
dou-lhe censura
Quando se cansa
dou-lhe colo
Quando entristece
dou-lhe consolo
Tudo isto
é o que reza ser
o compromisso
com ele tido
desde ele menino
Amanhã, caso me afastar
sei que me vai chamar
e eu irei como sempre fui

                          Rogério Pereira (reeditado)

10 setembro, 2025

JANELA DE OPORTUNIDADE, COM GRADE...


A janela, e a grade que puseram nela
Entre o espaço dali
E o de lá 
Havia um pequena fresta
E a luz da manhã
Vinha todos os dias beijar-lhe o rosto
E os sons da manhã
Vinham todos os dias acordar-lhe o sono
E os odores da manhã
Vinham todos os dias dar-lhe conforto 
Hoje, a fresta é uma gradeada janela 
E nada lhe entra ou sai por ela 
 Como é que se sai disto?

 Rogério Pereira, Setembro de 2012

11 julho, 2025

A ETERNA CRISE COM OS DENTES AFIADOS...


“Soneto exposto”
(ou uma certa ideia de memória do país)
O desengonçado trânsito cavernícola.
A eterna crise com os dentes afiados.
Um país de paisagens marítimas e vinícolas,
em que uns são filhos e outros enteados.
O recorte da serra na distância.
Os pardais semoventes sobre as praças.
Alguns homens sombrios com a ânsia
de não serem roídos pelas traças.
O redil organizado como um caos.
Uns quantos menos bons e outros muito maus.
Uma planície, uma cidade, um chaparral.
E em volta disto o mar, sempre indiferente
do que queira ou não queira a sua gente.
E fica no soneto exposto Portugal.
Amadeu Baptista
_____________________
Poema "roubado" ao Cid Simões