A "tertúlia" foi no Centro de Apoio Social de Oeiras (CASO) - Instituto de Ação Social das Forças Armadas onde se juntaram oficiais na reserva e alguns familiares.
Na mesa estavam, o coronel Barão da Cunha, que abriu a sessão) e nos apresentou: Pedro Cunha (esteve em1965 na Guiné e, como foto-jornalista do «Público», em Guiné/1995 e Moçambique/2001); a mim, (que estive em Angola, como enfermeiro militar, em 1969/71 e voltei em 1992; e, também, na Guiné/1990 e Moçambique/1983 e 2000) e o editor Daniel Gouveia, que apoiou na projeção de imagens...
Foi comovente o dito e o apresentado por Pedro Cunha: fotos sobre as comunidades locais de Moçambique e da Guiné, com foco mais que justificado nas crianças e jovens...
A encerrar as apresentações iniciais, falei eu. A minha expressiva imagem (na foto) resumia tudo o que a memória me ia inspirando. E como posso aqui resumir o que foi uma longa exposição? Talvez assim dizendo:
"As economias dos países que visitei em trabalho, na qualidade de consultor industrial, de há muito perderam a sua sua independência"
E lá deixei o testemunho de tal conclusão, falando dos Caminhos de Ferro de Moçambique, da Companhia de Diamantes de Angola, da Fábrica de Cerveja da Guiné e, por fim, da Barragem de Cahora Bassa.
A foto, rodeada de amarelo-sujo, diz quase tudo... o meu livro e o discurso dizem o resto. Qual discurso?
Este:
“(…) o momento de reconhecer às populações dos nossos territórios ultramarinos o direito de tomarem em suas mãos os próprios destinos, concretizando-se desse modo, o desenvolvimento da política de autenticidade que sempre defendemos”. (General António de Spínola – 27 de julho de 1974)
Como é sabido, gosto de crianças. Como é sabido, tenho parte da minha alma (aquela que não se deu fardada) em África. Uma coisa e outra estão espelhadas em obra escrita. Assim, quando vi e ouvi, não resisti. Ora vejam e oiçam:
Ao certo, não sei a quem coube a iniciativa. Sei é que fiquei cercado e de carro não podia sair por qualquer lado. Não tendo outra alternativa passei o dia a olhar para muita muita gente e, de quando em quando, ficar pasmado olhando aquele céu...
O verdadeiro Historiador coleciona factos e, após fundamentar a sua real ocorrência, dá-lhes o devido enquadramento histórico. Só depois é livre de emitir opinião sobre os factos selecionados e descritos, com a perspectiva que tiver do processo histórico.
Vem este pensamento a propósito de uma tertúlia para que fui convidado, por um coronel das Forças Armadas, já reformado e em que foi convidado um General, figura com elevada responsabilidade na instituição Militar actual, para apresentação de uma colectânea de numerosos autores, todos militares. Presente também o militar de elevada patente que reuniu extratos das obras reunidas. O tema era a guerra colonial para uns, guerra do ultramar para outros ou, simplesmente, guerra em África...
O que pretensamente seria uma seleção de obras de historiadores não passava de avaliações opinativas sobre factos narrados de forma condicionada pela visão de cada um. E, quanto a enquadramento, nem uma palavra sobre a descolonização de toda a África por parte dos diferentes países europeus sempre em consequência de guerras de guerrilha desencadeadas pelos povos colonizados.
Porque consta este vídeo aqui? A resposta é dada da seguinte forma: além da biblioteca montada na que foi por mim chamada "Universidade Livre da Real República do Reino da Roça" também dinamizava uma rádio, "A Rádio Livre da Real República do Mesmo Reino".
– A cadência de cartas, as que recebia e as que quase diariamente escrevia, mantinha-se. Continuavam a ser cartas ridículas, umas e outras como dizia o poeta. Umas e outras com desenhos. As minhas, com desenhos de elefantes e pacaças e meninos a chorar reclamando cuidados meus. As da Teresa com desenhos das minhas filhas, com rabiscos de todas as cores, ou casinhas ou uma mãe com duas meninas, uma ao colo, outra pela mão. Desenhos que esbatiam a solidão da Minha Alma, fazendo esforço, Eu e o Meu Contrário, para manter elevada e concentrada a diária ocupação. Todas as cartas eu lia duas ou três vezes e os tais desenhos passaram a povoar o meu «altar», ao lado das fotografias delas.
Poucos eram os assuntos ou temas para além dos inspirados pelas palavras «futuro” e «saudade», umas vezes rimando com «felicidade» outras com «liberdade». Ocasionalmente falávamos de dinheiro questionando eu se ela já tinha levantado a parte disponibilizada no continente e ela respondendo a isso. Uma pergunta era insistente querendo confirmar se me tinha enviado os suplementos do Diário de Lisboa e ela me repetia que sim, semana a semana, sem que recebesse eu algumas daquelas folhas de opinião, de ensaio literário, texto cine-clubista ou uma ou outra entrevista.
Antes de partir tinha-lhe pedido para enviar o jornal inteiro mais as revistas Vida Mundial e Seara Nova, dentro. Por conselho de alguém avisado, ficou combinado que ela me enviaria apenas os suplementos do jornal, pois a PIDE ou a segurança militar poderiam não só confiscar todos os exemplares como até vir a colocar-me problemas. Mas nem isso me chegava às mãos. Até que umdia, de uma só vez, chegou no correio a expedição de mais de um mês: cinco números de A Mosca, outros tantos da Mesa Redonda, mas da Seara, nada. Abri e passei avidamente os olhos por tudo aquilo, recuperando notícias e ideias atrasadas. À medida que o fazia ficava mais transtornado, Meu Contrário furioso e Minha Alma desolada."
Queriam ler mais? Não esperam pela demora pois a reedição está na forja! Boa?
«Quanto melhor vá a Europa melhor irão Portugal e Espanha ... quanto melhor sigam Espanha e Portugal, melhor caminhará a Europa»
Filipe VI, hoje em São Bento
«...tentei demonstrar duas coisas; primeiro: a Península Ibérica tem pouco a
ver com a Europa no plano cultural. Dir-me-ão que a língua vem do
latim, que o Direito vem do Direito Romano, que as instituições são
europeias. Mas o certo é que, com este material comum, fez-se nesta
península uma cultura fortemente caracterizada e distinta. Segundo: há
na América um número muito grande de povos cujas línguas são a espanhola
e a portuguesa. Por outro lado, nascem em África novos países que são
as nossas antigas colónias. Então imagino, ou antes, vejo, uma enorme
área ibero-americana e ibero-africana, que terá certamente um papel a
desempenhar no futuro. Esta não é uma afirmação rácica, que a própria
diversidade das raças desmente. Não se trata de nenhum quinto nem sexto
nem sétimo império. Trata-se apenas de sonhar – acho que esta palavra
serve muito bem – com uma aproximação entre estes dois blocos, e com o
modo de o demonstrar. Ponho a Península Ibérica a vogar para o seu lugar
próprio, que seria no Atlântico, entre a América do Sul e a África
Central. Imagine, portanto que eu sonharia com uma bacia cultural
atlântica."
Entrevista concedida por Saramago a Inês Pedrosa, in Jornal de Letras 10-16/11/1986
Dez da noite e o moto-gerador foi desligado. Na messe aprontaram-se os dois petromax mas apenas um funcionou pois a “camisa” de um deles danificou-se irremediavelmente. Nada perturbados pela reduzida iluminação, a mesa da “lerpa” continuou a jogatana sem qualquer interrupção ou outros lamentos que não fossem as queixas pelo azar com o jogo distribuído pela “banca”. Noutro lado, mais iluminado, o grupo de leitura fazia o que sempre fizera naqueles serões na retaguarda da luta. Lia. Eu, por meu lado, entretinha-me com distracções menos frequentes como seja acompanhar borboletas e abelhões esvoaçando à volta da luz como se a pretendessem devorar oferendo-nos em troca a escuridão. Tinha como costume o copo de uísque na mão e dentro, mais uma vez a simular gelo, a bala de G 3. O tilintar do metal no vidro sugeria-me maior frescura na bebida e assim estava. O furriel Alma Atenta levantou-se de repelão como que sacudido por uma decisão. Pegou no velho rádio de pilhas a um canto e ligou-o no posto já sintonizado mas com muitos ruídos e interferências. Pacientemente procurou melhorar a sintonia o que conseguiu. Música congolesa. Mil tentativas tinham sido já ensaiadas, mil vezes sem sucesso de apanhar outros postos que não fossem emissoras do Congo ou da Tanzânia. “Desliga essa porcaria” reclamou o furriel Alma Redonda, enxofrado pelo mau jogo que lhe tinha calhado. “Desculpa pá, mas hoje tenho de ouvir os gajos”...
Ontem era a notícia. Se o aumento dos preços era pressão do FMI, foram necessárias vitimas do povo para o Governo moçambicano ter força para contrariar essa pressão. Os Governos dos países pobres tem cada vez menos força. Os povos... Os povos ainda podem ter (sobretudo se a usarem)
Curiosamente algumas das medidas tomadas seriam benvindas em Portugal. Julgo que sem a pressão do povo, o Governo PS (e quem se prepara para viabilizar o OE) essas medidas aprovadas ontem pelo Governo de Guebuza, não prevalecerão aqui. Quais? Veja aqui...
Resolvido o problema? Claro que não. O FMI apenas teve uma pequena contrariedade com este recuo. Voltará à pressão. O Governo? A Frelimo? Esses terão que relembrar e cumprir com as recomendações de alguém que, há 36 anos atrás, assim discursou:
"(…) O poder, as facilidades que rodeiam os governantes podem corromper o homem mais firme. Por isso queremos que vivam modestamente com o povo, não façam da tarefa recebida um privilégio e um meio de acumular bens ou distribuir favores. A corrupção material, moral e ideológica, o suborno, a busca do conforto, as cunhas, o nepotismo, isto é, os favores na base de amizade, e em particular dar preferência nos empregos aos seus familiares, amigos ou a gente da sua região fazem parte do sistema de vida que estamos a destruir. O tribalismo, o regionalismo, o racismo, as alianças sem princípios constituem atentados graves contra a nossa linha e dividem as massas. Porque o poder pertence ao povo, quem o exerce é servidor do povo. (…) Os desvios da linha suscitam as contradições, as brechas por onde penetra o inimigo, o imperialismo e as forças reaccionárias. Para que se mantenha a austeridade necessária a nossa vida de militante e assim se guarde no sentido do povo e dos seus sacrifícios, todos os militantes da Frelimo que receberam tarefas de governação do Estado tal como no passado deve renunciar às preocupações materiais, nomeadamente aos vencimentos. É evidente que por maioria de razão não se pode tolerar que um representante nosso possua meios de produção ou explore o trabalho de outrem. Combatemos durante dez anos sem qualquer preocupação de ordem financeira individual, empenhados apenas em consagrar toda a nossa energia ao serviço do povo. Está é a característica do militante, do quadro, dos dirigentes da Frelimo. Como o fizemos sempre, de acordo com as nossas possibilidades, procuramos assegurar ao militante que cumpra uma tarefa, o mínimo de condições materiais indispensáveis ao seu trabalho, ao seu sustento e da sua família. Mas também não nos devemos esquecer que muitas vezes combatemos e vencemos descalços, esfarrapados e com fome. Sublinhamos ainda que, assim como fizemos guerra sem horário de trabalho, sem dias de descanso, nos devemos empenhar com o mesmo espírito na batalha da reconstrução nacional”.
Parte do discurso de Samora Machel na tomada de posse do Governo de Transição/1974
A forma como foi silenciada a boca de quem proferiu tão sensatas palavras e o esquecimento que se seguiu a tais recomendações e avisos, são causas não muito longínquas dos efeitos de hoje. Relembrando isso termino esta série de 5 posts, consciente de apenas ter aflorado várias questões que mereciam melhor aprofundamento...
Se quiserem continuar a acompanhar a evolução dos acontecimentos, podem seguir o trabalho de Carlos Serra. (não concordo com tudo o que analisa e escreve, mas é uma boa fonte)
Não voltei a Moçambique depois de 2001. Mas nas minha viagens virtuais é possível "ver e ouvir" testemunhos e factos que podem ser considerados (eu considero) como causas que explicam os acontecimentos recentes em Moçambique. Vejamos algo que vem de longe. Na sequencia do Acordo de Nkomati, em 1983, Moçambique adere ao FMI facto que é aqui recordado nos seguintes termos:
"A nossa adesão ao FMI (1984) merece um rememorar de episódios curiosos. Quando aderimos ao FMI, defronte ao Hotel Shorham em Washington, onde decorria a Assembleia Geral Anual do FMI, nas imediações, assistimos a uma manifestação na qual os seus autores transportavam um caixão simulando o enterro do FMI. Ironicamente, nós estávamos a um passo da adesão ao FMI e, este, a ser “enterrado”... Foram emoções difíceis de gerir."
"Os condicionalismos impostos pelo Fundo Monetário Internacional na concessão de créditos para a educação impedem o governo moçambicano de contratar metade de professores necessários nas escolas públicas, uma vez que aquele banco limita as despesas de salários do Ministério da Educação e Cultura."
A legenda da foto é retirada do blogue "Diário de um sociólogo" e o texto que se segue também: De acordo com um estudo, o país precisa de 109 mil professores até 2005. Quando o Fundo Monetário Internacional diz que estamos no bom caminho, é evidente que o caminho é apenas um: o da alma privada. Quanto mais privada estiver a alma, mais o FMI nos premeia. E, então, por que deveria o FMI preocupar-se com os salários dos professores das escolas públicas em Moçambique?"
A fotografia (retirada daqui) não engana. Terá entre 10 ou 12 anos. Pertencerá a uma qualquer escola descontente e terá na família um heroi da guerra civil (saber lá de que lado) ou mesmo um luto mal resolvido pela memória. Sabendo que o aumento de preços é uma imposição do FMI acatada pelo Governo, ter-se-á sentido impelido para a acção com o convencimento de que ainda há lugar para ele na história do seu país.
Alertas preocupantes: ele não está mascarado de povo; ele soube que o funeral do FMI era falso; teve disso conhecimento a partir de um telemóvel que nunca usou nem irá usar nos anos mais próximos (outros o usarão por ele...)
Do avião, vistas de cima, as águas tomaram a cor da pele daqueles a quem lhes encharcava os haveres, impiedosamente, tomando como sua toda a terra boa. Os cultivos e os animais ter-se-ão perdido, deles restando sabe-se lá o quê de coisas a enterrar. Tem sido assim em anos consecutivos. Foi assim o que vi, voando para o Soio cerca de oito meses depois de lá ter estado, na Hidroeléctrica de CahoraBassa num trabalho que já comentei ter sido profissionalmente gratificante... Na estadia anterior tinha, além de desenhado novos processos, definido requisitos para a sua informatização. Vinha agora, numa curta estadia de 4 dias, verificar a conformidade funcional do sistema.
As imagens de gentes sofrendo depressa foi substituída pela pressão da minha missão. Correu bem o meu trabalho e no prazo apertado que me fora concedido consegui escrever um pequeno relatório com as inconformidades detectadas e instruções para a sua correcção. O director responsável, estava visivelmente satisfeito com o resultado final do trabalho. Convidou-me para jantar em sua casa, convite esse que aceitei, planeando secretamente nesse jantar colocar-lhe mil perguntas. No dia combinado, a caminho da casa do meu simpático anfitrião, ia passado em revista algumas das questões a pôr: Como estaria a economia, sequelas da prolongada guerra, operacionalidade dos portos e dos caminhos de ferro moçambicanos, para quando as comunicações móveis alargadas a todo o território, a agricultura e o impacto das cheias e ciclones... Com estas ideias fui me aproximando da residência, localizada numa das zonas mais arborizadas e bonitas do Soio. Ao meu encontro veio primeiro a boxer, a sua cadela brincalhona que me reconheceu oferecendo-me festivos latidos reclamantes de festas (nessa noite estava visivelmente bem disposta pois, contrariamente a um hábito inexplicável, não tinha comido nenhum sapo. Apareceu de seguida um empregado e logo depois o dono da casa que me cumprimentou efusivamente, juntando-se a nós a sua mulher e as duas crianças, filhos do casal. Seguiram-se palavras de circunstancia, falando em conversa solta e agradável sobre um monte de coisas pessoais e perspectivas, com a já prevista deslocação para o Maputo, como aliás iria acontecer com todos os serviços administrativos da empresa. Não toquei num só dos pontos agendados por mim e fiz mal. O jantar, um divinal caril de caranguejo, encostou-me às boxes. Não habituado ao gindungo, suei, enranhozei e as lágrimas corriam-se sem qualquer comoção a justificar tal choro. Passado o primeiro impacto e perante a minha insistência continuei a comer, não voltei as costas à luta e devorei o meu prato. Contudo, este pequeno incidente gastronómico fez com que todas as perguntas ficassem por fazer. Já de regresso, no avião, ia pensando que as respostas não poderiam ser positivas e que Moçambique era em 2001 um país esquecido por Deus... Sobre as imagens das cheias, lá do alto, nada era perceptível. Em quatro dias as águas tinham retomado os leitos dos rios e a lama não se via nem quem nela lutava pela sobrevivência.
Sobre a agricultura e o uso das terras boas, só há dias tive a resposta, quase 10 anos depois,nesta noticia do DN: "há tendência de desinvestimento na agricultura tradicional e aposta de grupos internacionais em cereais usados no domínio energético. A Galp tem lá projectos, assim como os chineses e os sul-africanos. Solos de primeira qualidade agrícola estão a ser usados dessa forma". Talvez isto seja parte da explicação do que se passou no Maputo. Essa poderá ser uma das causas desse efeito, mas haverá outras...
Foi em 2000, não me lembro exactamente em que mês, aterrava em Maputo, em transito para CahoraBassa (Songo/Tete) com um projecto bem interessante contratualizado entre a hidroeléctrica e a "minha" empresa, a PriceWaterhouseCoopers. Integrado numa equipa de consultores com a missão de reorientar a estratégia daquela empresa, cabia-me a reengenharia dos processos de manutenção da Central e de todos os equipamentos do perímetro habitacional da povoação e, ainda, dos abastecimentos (aprovisionamento) de todos os bens necessários à produção de energia e à vida das populações que dependiam directa ou indirectamente da barragem. Tudo o que pode acontecer em África, me aconteceu. Desde um cacho de homens armados de varapaus para matar a cobrita de quarenta e poucos centímetros que queria partilhar o meu quarto até à alegria em tons de boite ao som de um CD de Carlos Santana que eu ofereci à noite, para as meninas dançarem com os meninos.
Foram 6 semanas de trabalho intensivo à mistura com o conhecimento da realidade local. A Hidroeléctrica estando em condições operacionais de produzir energia não a pode vender até 1998. Todas as linhas de transporte foram sabotadas pela RENAMO e, apesar da guerra ter acabado em 1992, só seis anos mais tarde é que a venda de energia começou a ser efectiva. Os quadros da empresa, os moçambicanos em particular lamentavam o facto de a produção de energia ser na sua quase totalidade vendida à África do Sul e ao Zimbabwe sem movimentação de moeda. O Zimbabwe não pagava. A África do Sul, retribuía a alta tensão recebida com a venda de energia em baixa tensão que servia as províncias do sul de Moçambique...Vim a saber que só a partir de 2004 esta situação seria alterada e apenas em 2007 foi negociado um tarifário "decente" com a África do Sul... De regresso a Portugal, não deixava de pensar que Moçambique ainda teria que "pedalar muito" apesar de registar, na altura, índices de crescimento do PIB de cerca de 8% ao ano. Quanto a Cahora Bassa, haveria de lá voltar cerca de um ano depois...
Os recentes incidentes no Maputo impõe-me um olhar sobre Moçambique, sobre o seu passado recente na procura das razões que expliquem os acontecimentos preocupantes. Neste post relembro a minha primeira passagem por Moçambique e a situação que aí se vivia ...
A imagem, retirada hoje do site do Hotel Cardoso, mostra uma mesa preparada para ser farta. Sê-lo-á todos os dias. Em 1983, quando a Norma(*) me instalou aí durante cerca de três semanas, não precisava deste aparato, havia só um prato: carapau (durante cerca de oito dias era o que havia, por vezes às duas refeições). Nem recordo os conteúdos que debitava a uma assistência faminta de duas fomes: fome de conhecimentos para reerguer os caminhos de ferro e os portos do país e fome daquela que faz mesmo morrer de inanição. Os quadros médios e superiores do estado moçambicano cumpriam, em formação intensiva, uma tarefa nacional depois de, percorrerem toda a cidade tentado cumprir a tarefa "doméstica" diária de arranjar comida para a família... Esta situação decorria fundamentalmente da esperança. O acordo entre o Governo Moçambicano e os Governos Francês e de Portugal, tinha por finalidade a recuperação dos Transportes e Portos, bem como a implementação de uma Escola Profissional (participação portuguesa no projecto envolvendo uma parceria ente a CP e a NORMA) para este pessoal, a todos os níveis e cobrindo todas as funções. Vivia-se uma relativa acalmia de guerra. O governo de Moçambique, que já tinha secretamente encetado negociações com o governo sul-africano e com a própria RENAMO, assinou em 1983 um acordo de "boa vizinhança" com aquele governo, que ficou conhecido como o Acordo de Nkomati, segundo o qual o governo sul-africano se comprometia a abandonar o apoio militar à RENAMO, enquanto que o governo moçambicano se comprometia a deixar de apoiar os militantes do ANC que se encontravam em Moçambique. A fome era o preço que todos aceitavam pagar em troca da esperança. Esperança vã, pois a RENAMO reactivaria a actividade e três anos mais tarde, em 1986, tinha já estabelecido uma base central na Gorongosa e expandido as acções militares para todas as províncias de Moçambique, contando ainda com o apoio do Malawi, cujo governo tinha boas relações com o regime do apartheid. Nesta altura, a RENAMO tinha conseguido alcançar um dos seus objectivos estratégicos que consistiu em obrigar o governo a abandonar a sua política de "socialização do campo" através das aldeias comunais e machambas estatais. A "guerra dos 16 anos" só terminaria com a assinatura do Acordo Geral de Paz, a 4 de Outubro de 1992. Renascia então a esperança e mais uma vez a fome era moeda com que aquela se pagava. Sem caminhos de ferro, sem portos, sem energia e sem agricultura, nem Deus sabe com o povo moçambicano sobrevivia naqueles tempos...
CONTINUA
(*) NORMA, Empresa de consultoria do Grupo CUF e que após as nacionalizações passou para o universo do Instituto de Participações do Estado - IPE. Foi-se extinguindo, definhando, definhando, até à sua formal extinção em data desconhecida... Chegou a ser o maior centro de processamento de dados da Península Ibérica. Trabalhei na Norma de 1980 a 1994.