04 setembro, 2010

Moçambique, causas remotas dos efeitos de hoje - 2


Foi em 2000, não me lembro exactamente em que mês, aterrava em Maputo, em transito para Cahora Bassa (Songo/Tete) com um projecto bem interessante contratualizado entre a hidroeléctrica e a "minha" empresa, a PriceWaterhouseCoopers. Integrado numa equipa de consultores com a missão de reorientar a estratégia daquela empresa, cabia-me a reengenharia dos processos de manutenção da Central e de todos os equipamentos do perímetro habitacional da povoação e, ainda, dos abastecimentos (aprovisionamento) de todos os bens necessários à produção de energia e à vida das populações que dependiam directa ou indirectamente da barragem. Tudo o que pode acontecer em África, me aconteceu. Desde um cacho de homens armados de varapaus para matar a cobrita de quarenta e poucos centímetros que queria partilhar o meu quarto até à alegria em tons de boite ao som de um CD de Carlos Santana que eu ofereci à noite, para as meninas dançarem com os meninos.
Foram 6 semanas de trabalho intensivo à mistura com o conhecimento da realidade local. A Hidroeléctrica estando em condições operacionais de produzir energia não a pode vender até 1998. Todas as linhas de transporte foram sabotadas pela RENAMO e, apesar da guerra ter acabado em 1992, só seis anos mais tarde é que a venda de energia começou a ser efectiva. Os quadros da empresa, os moçambicanos em particular lamentavam o facto de a produção de energia ser na sua quase totalidade vendida à África do Sul e ao Zimbabwe sem movimentação de moeda. O Zimbabwe não pagava. A África do Sul, retribuía a alta tensão recebida com a venda de energia em baixa tensão que servia as províncias do sul de Moçambique...Vim a saber que só a partir de 2004 esta situação seria alterada e apenas em 2007 foi negociado um tarifário "decente" com a África do Sul...
De regresso a Portugal, não deixava de pensar que Moçambique ainda teria que "pedalar muito" apesar de registar, na altura, índices de crescimento do PIB de cerca de 8% ao ano. Quanto a Cahora Bassa, haveria de lá voltar cerca de um ano depois...

CONTINUA