27 setembro, 2010

Qualificações, Desenvolvimento e Produtividade - I

O PROBLEMA DAS QUALIFICAÇÕES















Sem minimizar os problemas que a questão das qualificações colocam à necessária reindustrialização e ao indispensável desenvolvimento do aparelho produtivo do país, quero sublinhar que esse nunca foi um factor inibidor de tais desígnios. Prova-o António Tapadinhas pintando a Siderurgia no Seixal /Paio Pires, (muito perto dos meus lugares de infância). Se pintou esse quadro é porque, em determinada altura num Portugal atrasado e feudal, foi possível em 1961 avançar para uma industria exigente em qualificações num meio já com algumas caracteristicas industriais mas ainda predominantemente rural, como muito bem comenta o António, lá no seu blogue. Provo-o eu também, sendo exemplo pessoal e ao mesmo tempo testemunha de que a questão das qualificações não foi uma questão central.
Como exemplo: Chego à Siderurgia em 1973 como consultor para acompanhar a expansão da SN com a criação de uma nova fábrica a construir no norte, na Maia/Ermesinde (1). Responsabilidade técnica de elevada exigência, pois era responsável por montar todo o sistema organizativo das áreas de aprovisionamento e manutenção da nova fábrica. Que tinha eu feito para me habilitar a tal? Pouco ou mesmo nada: Tinha frequentado o ISEL; tinha sido vendedor nem eu já não me lembro do quê; tinha sido quase-jornalista; tinha sido enfermeiro militar... E, como não há milagres recebi com o projecto todo o "saber-fazer" da empresa que aceitou o risco de se limitar a contratar um gajo que sabia-estar, sabia-saber e sabia-querer...
Como testemunho: A qualificação de funções operacionais foi adquirida no contexto da realização dos projectos quer em 1961 na fábrica do Seixal quer em 1975 na fábrica de Ermesinde...
A grande questão, a questão central está localizada no desenvolvimento. Uma estratégia bem conduzida ao nível do investimento permite ultrapassar grande parte das dificuldades ao nível das qualificações, diz-me a experiência...
A boa integração da formação qualificante nos próprios projectos de investimento é, como referi, uma forma de ultrapassar grande parte das dificuldades, mas não todas. As outras, resultantes do facto de Sottomayor Cardia(2) ter desmantelado em 1975 toda a equipa do Ministério da Educação e ter unificado o ensino, deixando cair as escolas técnicas, deixaram marcas profundas no saber-saber (competências básicas), no saber-estar (ninguém que vestir o fato de macaco) e no saber-querer (todos querem ser doutores ou engenheiros, porque apenas se valoriza socialmente esses status). Há muito que fazer para reverter estas situações... No ensino as grandes mudanças, boas ou más, projectam-se no tempo e são duradores os seus impactos ou sequelas. Ainda vivemos delas...
Hoje, o quadro do António espelha bem um declínio mais profundo do que aquele que directamente está presente na imagem que pintou. Obrigado António por retratar tão bem a nossa realidade.
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(1) Ver História da Siderurgia em Portugal
(2) Ver comunicação de Mário Cerqueira Correia (ex-director) no 50º aniversário da Escola João Gonçalves Zarco e ver ainda "História da Educação em Portugal"
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