10 julho, 2020

O trabalho de um consultor que ou é ingénuo ou propõe que algo mude para que tudo fique na mesma...


«É crucial prestar atenção às pequenas e médias empresas (PME), porque representam mais de 95% do tecido empresarial português e empregam mais de 75% das pessoas. A saída da economia do estado de coma, a sua recuperação e a criação de condições para o crescimento económico, implica ter empresas mais saudáveis, ajudá-las a resolver problemas de financiamento e considerar a possibilidade de aliviar a sua carga fiscal, que é muito elevada e torna o país menos competitivo”»

Não podia estar mais de acordo com esta consideração do  consultor António Costa Silva no documento "Visão Estratégica para o Plano de Recuperação Económica e Social de Portugal 2020-2030" citado pelo Expresso.
Contudo, tendo assistido a uma sua conferência (ver vídeo) o homem demonstra uma ingenuidade atroz (e contradição) ao admitir que são os ricos a quem compete investir para com isso salvar do coma uma economia em que 95% do tecido económico são micro e pequenas empresas, sempre pobres e, agora, ainda mais empobrecidas.
Dito de outro modo, ele crê, que é numa boa, que as empresas do PSI 20 poderão voltar a ter sede em Portugal e aqui sediarem os seus impostos. O homem acredita, que para um maior equilíbrio e justa distribuição da riqueza não se deva dar luta aos ricos pois eles, de mão beijada, injectarão seu espólio onde haja carência dele . E mais, os ricos irão abdicar dos mecanismos do sistema que lhes tem permitido apropriarem-se da riqueza produzida e, assim, passarem a ser cada vez mais ricos...
Haja Deus!

09 julho, 2020

A «greatness of America» – aquela que o Trump quer trazer de volta – está baseada em tudo aquilo que torna impossível de nela viver. Os EUA são um país construído em cima de uma série de mitos.


«Verdade seja dita, não sei se é possível argumentar que a América alguma vez teve justiça… E muito menos paz. Como pode um país nascido da expansão colonial, de um crescimento económico ilimitado, construído à base do trabalho escravo e que durante anos alimentou.»

08 julho, 2020

Canções para o desconfinamento - 20



Ontem foi-me perguntado
"E a Festa, Pá, como é?
Vai Avante ou não vai...?"
Ao que me foi perguntado,
respondo com a voz de fado

07 julho, 2020

Canções para o desconfinamento - 19


Só me pergunto, porque é que uma canção que me dá tanta emoção e volta ao juízo, eu nunca a tenha ouvido? 
Só o vídeo conta com quase quatro milhões de visualizações! 
Mas tenho uma boa notícia, podemos ver os "Stereossauro" em Setembro, ao vivo e a cores!
Agora adivinhe "onde?"
(...e com quem, é surpresa, também)

06 julho, 2020

05 julho, 2020

Uma "coroa poética" imperdível...

Naquela onda de querer promover a uma boa intenção, daquelas boas intenções que enchem o inferno, reduzi o tempo do vídeo que aqui vos trago e não contente com isso mudei-lhe a banda sonora. É uma forma de promover a obra, disse Eu a Minha Alma. Responde-lhe o Meu Contrário, que como é sabido é o meu juízo Devias era dar atenção ao que te disse a Maria João.
E o que me disse a Maria João? O que a nossa sonetista me disse foi que as "coroas poéticas" têm mesmo que ter 14 sonetos e que com eles se constrói uma mensagem.
E pronto, eis porque aqui apresento o vídeo todo:  


03 julho, 2020

Se a aprovação do orçamento foi um sintoma, a designação de Assis é a prova...


A aprovação deste Orçamento Suplementar (com os votos do PS e a abstenção tácita do PSD) é sintoma de que serão os salários e o emprego a entrarem em colapso, e assim, na fase complicada de pós-pandemia serão os trabalhadores a pagar a crise.
Agora, a designação de Assis para Presidente do Conselho da Concertação Social é a prova de que assim será.
Paira a ameaça do regresso à choldra!

02 julho, 2020

Canções para o desconfinamento - 16 e 17


Fados de tempos salazarentos, em que era outro o desejado desconfinamento, lembro estes fados cantados por Amália e assim me associo à celebração do centenário do seu nascimento.

01 julho, 2020

Em dia de centenário, um fado ainda por ser cantado...


Não conheci a Rosa há muito e pouco tempo depois de a ter conhecido, de imprevisto, me ofereceu um seu livro.
Hoje enviou-me um poema, em letra de fado. Fado sentido ainda por ser cantado... 
Agora só falta encontrar quem o cante... para encorajar um projecto de uma vida que valoriza a escrita e sabe fazer uso dela.

Aurora

Guardo a lembrança no peito de quando te vejo ir embora,
Noite triste e sombria, fria de amor marcada pelo odio,
Mas a mágoa sentida, faz da partida um caminho sem fim,
Vivo presente essa noite, vivo a dor de uma vida sem ti,

Ai se eu soubesse, que naquele dia tu ias embora…
Ai se eu soubesse, que a vida sem ti é vida deitada fora…
Ai se eu soubesse, que o amor á caneca se bebe quentinho…
Ai se eu soubesse, que a vida sem ti não faz mais sentido…

Tenho a lembrança presente das palavras deitadas ao vento,
Sinto o amargo na boca, sabor ausente,
Tenho em mim a ferida, marca sentida do dia e da hora,
Tenho os meus olhos amargos, a pele enrugada, tua ausência… Aurora

Ai se eu soubesse que um dia partias pela estrada fora…
Ai se eu soubesse, que levarias contigo meu sol Aurora…
Ai se eu soubesse, que a magoa sentida seria um jardim sem flor…
Ai se eu soubesse, que não mais na vida haveria outro amor…

Guardo e meu coração a triste ilusão de te ver chegar,
Fica presente em minha mente o nosso convívio ao jantar,
Juntos à mesa estaremos, o jantar partilhemos numa malga vazia,
Mas de coração cheio alegre e perfeito deixamos para trás uma vida vazia,

Mas a vida perdeu o encanto meu e ela não voltou,
Sigo alma sombria e nesta vida a mais nada me dou,
Sinto o amargo na língua, mulher perdida falta-me o pão,
Guardo um sabor sem jeito que fere meu peito sabor a limão,

Ai se eu soubesse, que teus olhos meus alegria sem fim…
Ai se eu soubesse, que a tua luz ilumina o meu jardim…
Ai se eu soubesse, que o tempo não para e a chama acende…
Este pobre olhar, sozinho sem ar a vida a ti se prende.

 30 de junho de 2020
Por Rosa Pereira

Eu e a TAP temos a mesma idade!


Eis um Telejornal que vai buscar imagens que eu julgava não poder ver nunca mais nos Telejornais (é a partir do 7º minuto e até mudar de assunto)

E porque fala do que dizem todos menos dos que mais se têm batido, cito:
«A Proposta do PCP para a retoma do controlo público da TAP e da SPdH foi rejeitada com os votos contra de PS, PSD, CDS-PP, IL e Chega.

A TAP não precisa apenas de ser recapitalizada. Precisa de ser colocada ao serviço do desenvolvimento do País, de cumprir o seu papel na coesão do território nacional, na dinamização da actividade económica.

A cedência aos interesses dos accionistas privados, o arrastamento das decisões, a submissão às imposições da DGCom/UE, o namoro com a Lufthansa fazem temer o pior: a mobilização de recursos públicos para pagar dívidas e a entrega da companhia nos braços de uma multinacional.»

29 junho, 2020

Canções para o desconfinamento - 15


DEZ RÉIS DE ESPERANÇA.

Se não fosse esta certeza
que nem sei de onde me vem,
não comia, nem bebia,
nem falava com ninguém.

Acocorava-me a um canto,
no mais escuro que houvesse,
punha os joelhos à boca
e viesse o que viesse.

Não fossem os olhos grandes
do ingénuo adolescente,
a chuva das penas brancas
a cair impertinente,
aquele incógnito rosto,
pintado em tons de aguarela,
que sonha no frio encosto
da vidraça da janela,
não fosse a imensa piedade
dos homens que não cresceram,
que ouviram, viram, ouviram,
viram, e não perceberam,
essas máscaras selectas,
antologia do espanto,
flores sem caule, flutuando
no pranto do desencanto,
se não fosse a fome e a sede
dessa humanidade exangue,
roía as unhas e os dedos
até os fazer em sangue.

Poema de António Gedeão
________
Esta canção
trouxe-a de um canto
que me encanta tanto

28 junho, 2020

Desmentido e errata corrigindo muito do que há muito venho dizendo...


O desmentido:
Quando, não há muito, dava conta do surgimento de nova humanidade ir mudar o Mundo baseando tal notícia num facto, por mim contado, e em milhões repetido, sustentava-a num Estudo realizado que dava a evidência científica, podendo-se ler no relatório distribuído à imprensa: «Das duas pupilas dos novos seres, a mais pequenina, apresenta uma espécie de nervo óptico que liga o olho ao coração. Assim, é provável que estejamos em presença de uma nova humanidade, e esta possa estar mais apetrechada para lidar com adversidade ou até a anular. Só nos resta esperar». 
Surge agora o desmentido: o Mundo não só perdeu tal capacidade de passar a ver com o coração, como cegou. Hoje todos podem continuar a olhar, mas perderam a faculdade de poder ver. 
A errata
  • Onde se lia "Mudar o Mundo não custa muito, leva é tempo", deve passar-se a ler "Mudar o Mundo custa muito e é imensurável o tempo que pode levar"
  • Onde se lia "O futebol é tão só e apenas a coisa mais importante de entre as coisas pouco importantes com que nos devemos preocupar", deve passar-se a ler "O futebol é mesmo a coisa mais importante com que nos devemos preocupar"
  • Onde se lia "Não precisamos apenas de palavras dirigidas à alma, que nos arrepiem a pele, que nos emocionem. Precisamos de palavras-adubo, palavras-semente e sobretudo de ideias", deve passar-se a ler, "Precisamos apenas de palavras dirigidas à alma, as dirigidas à razão não contam para nada"
PS: Se disserem que este post é pessimista, eu nego! 
É só mais um apelo à reflexão e não um deitar a toalha ao chão... 

27 junho, 2020

Faz hoje, exactamente, um ano...


É verdade! Foi há, exactamente, um ano que os golfinhos se recusaram a saudar a nossa gente. 
Este ano estava prevista nova tentativa e o barco já estava apalavrado... contudo, desistimos por razões óbvias.

Mas não desistimos de outras, muitas, iniciativas... depois conto. 

E se quer saber o que vamos fazendo, veja aqui o quê, e o tanto.

26 junho, 2020

Afinal... a porta encontra-se escancarada...

Quando por todo lado
se anda bloqueado
e até Abril, não escapa
ficam traumas
além de raivas
e somos capazes de enganos
e cometer uma ou outra coisa parva...

e até via portas que me foram fechadas
quando, na verdade, me estão escancaradas
(verdade, estive lá!)

25 junho, 2020

Bloqueado... em muito lado

Depois do Facebook ter vedado
o acesso a este meu espaço
desde Março
agora chegou a vez de alguém
me mandar dar uma volta
e depois de 10 anos,
fecha-me a porta

Mas esse alguém
até canta bem
(adivinhe quem?


24 junho, 2020

Muitas vezes recebo... um agradecimento!

Há uns tempos, foi nestes termos.
Hoje, foi assim...  


23 junho, 2020

Num comentário, por lá deixado


Num comentário, por lá deixado
Um dia, o vento sussurrou-me
"Tenho uma nuvem para alugar"
Recusei,

como poderia eu abandonar o mar?

E, assim como tu,
me deitei nele
até que aquela bela onda
me levou...

Hoje não tenho fados tristes!
 Rogério Pereira

22 junho, 2020

A Grande Cavalgada


A imagem acima, retirada hoje do Telejornal onde é acompanhada por outras, em amplas salas, pejadas de causídicos, juízes e funcionários judiciais. O que se diz, como se rebate o que foi dito e o mais que se vai dizendo, soa à "Grande Cavalgada" onde, página a página, se lê:
catapum, catapum, catapum, catapum, catapum, catapum, catapum, catapum, catapum,catapum, catapum, catapum, catapum, catapum, catapum, catapum, catapum, sem se almejar chegar a um triunfante "Aí, óóóó!"

Há quem diga "É o que temos, pá", mas há quem vá mais longe e dê conta de como se escreve esta grande cavalgada, que nunca mais acaba...

21 junho, 2020

Poesia (uma por dia) - 97

Variações do branco

Ergues o olhar: surpreendes por instantes essa hora
em que o mundo envelhece: ténues as variações do branco
parecem dissolvê-lo numa longínqua música, anterior à chuva

Ou será então a imagem submersa de um filme a preto e branco

Há próximo um branco vibrante: o da cal ainda recente
mas que a humidade salina já a espaços mordeu,
recortando as feridas cinza na varanda a que vens.

Não há ninguém aqui. Quem te chame, digo.

Há o branco baço na parede que em frente em vão separa
rua e praia. Tendo já transposto essa fronteira incerta
ou erguendo-se para lá dela há o branco pobre da areia:

As dunas plenárias sustentam os corpos deitados de mar e céu.
Aí é agora o grande branco: o clarão velado e difuso
que guarda e distribui a memória embaciada do azul
e do verde, do oiro e da prata — uma lembrança vã.

Tu escreves no visível do mundo essa névoa branca e desolada

que o motor da paisagem produz. As folhas do ar são como
se fossem as levíssimas pétalas, as vagas sílabas de uma neve –
e essa névoa engolfa, atrasa e apaga na travessia os simulacros

das coisas supostas e imaginadas que o mundo te envia
enquanto esperas por alguém que não virá
in migrações do fogo

20 junho, 2020

Canções para o desconfinamento - 14

Esta Depressão Que Me Anima

a gorda do café
muito antiga e perfumada
passe bem minha senhora
que eu não me importo nada

uma rima obsessiva
indecente nas suas maneiras
desligado o motor do carro
as criadas tornavam-se indisciplinadas

vivo do que me dão
nunca falto às aulas de esgrima
e todos os dias agradeço a deus
esta depressão que me anima

o rapaz da drogaria
amarelo e mal tratado
convidou-me a sair
encontrei-o no teatro

uma prosa enferrujada
inconveniente e desajeitada
não encontro vestido que me sirva
já não sirvo para nada 

A Naifa

19 junho, 2020

Canções para o desconfinamento - 13


Se a palavra
fosse nota
e trinado de uma guitarra
ao poema
a palavra seria dispensada
e a emoção seria a mesma

emoção feita canção
canção para ser cantada
como quem nos dedilha a alma
Rogério Pereira



18 junho, 2020

Cumpro sempre o que prometo!


Quando ontem fiz a promessa de trazer aqui uma página do livro do Mário de Carvalho logo alguém se apressou, com uma sibilar crítica implícita, a dizer Então, Rogério, esqueceste os 10 anos sobre a morte de José Saramago!?
Gente apressada mete sempre água. Podia lá eu esquecer...

Sobre a crónica que escolhi, "Um Homem Tranquilo", o Mário de Carvalho fala da sua relação com Saramago.
Volto a ler, pela enésima vez, as páginas (da 249 à 254) e interrogo-me, transcrevo? não transcrevo? e tomei a racional decisão de não o fazer, por mera economia de esforço... pois se já lá está escrito...
_______________
A imagem acima é retirada da capa do JL que insere a crónica do Mário de Carvalho, Outubro de 1998

17 junho, 2020

Mário de Carvalho, premiado! Boa!


Soube agora através do AbrilAbril. Fico mais rico! Tenho mais um livro premiado... e com autógrafo! 
Na altura (vésperas do 25 de Abril), por razões que se prendiam ao momento, dei destaque a um outro texto do Mário de Carvalho. 
Mas nunca é tarde, amanhã publico uma página deste livro.

16 junho, 2020

Fomos ao Teatro! E você, ficou a fazer o quê?


Sim, como já tinha anunciado, fomos ao Teatro! Fomos em gesto solidário! E quando digo "fomos" lembre-se de quem somos!
E já agora vá ao Teatro, com ou sem Garrett!
É que, sem público não há Teatro que sobreviva!

15 junho, 2020

VA PENSIERO (num soneto belo)

“VA PENSIERO”
Voa pensamento nas asas douradas
Que hoje amordaçadas espalham seu lamento...
Voa contra o vento que sopra em rajadas
Por ruas e estradas. Redobra de alento,

Voa como eu tento quando as madrugadas
Passam demoradas, suspensas no tempo...
Voa! Voa atento às gentes magoadas,
Marginalizadas, murchando ao relento...

Que isso que te eleva te não leve em vão;
Que te sobre o pão e que ninguém se atreva
A pensar que deva pôr qualquer travão

A quem, por paixão, dê de quanto escreva...
Na próxima leva, leva e traz-me, então,
Mais outra fracção do que ilumina a treva!


Maria João Brito de Sousa
– 08.04.2020 – 23.57h
____________________ 
A Maria João premiou-me ontem com um soneto como comentário. Aqui fica o meu muito obrigado!

13 junho, 2020

O 13 de Junho de 1654 e uma dedicatória, para nossa memória (reeditado, por força deste acaso...)

«Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos. Se fora pelo contrário, era menos mal. Se os pequenos comeram os grandes, bastara um grande para muitos pequenos; mas como os grandes comem os pequenos, não bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande.»
----------------------------------------"Sermão de Santo António aos Peixes", Padre António Vieira, 
pregado na cidade de São Luís do Maranhão em 1654(*)


gravura de Pieter Bruegel, 1557
Vós, diz Cristo, Senhor nosso, falando com os pregadores, sois o sal da terra: e chama-lhes sal da terra, porque quer que façam na terra o que faz o sal. O efeito do sal é impedir a corrupção; mas quando a terra se vê tão corrupta como está a nossa, havendo tantos nela que têm ofício de sal, qual será, ou qual pode ser a causa desta corrupção? Ou é porque o sal não salga, ou porque a terra se não deixa salgar. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores não pregam a verdadeira doutrina; ou porque a terra se não deixa salgar e os ouvintes, sendo verdadeira a doutrina que lhes dão, a não querem receber. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores dizem uma cousa e fazem outra; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes querem antes imitar o que eles fazem, que fazer o que dizem. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores se pregam a si e não a Cristo; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes, em vez de servir a Cristo, servem a seus apetites. Não é tudo isto verdade? Ainda mal!
Suposto, pois, que ou o sal não salgue ou a terra se não deixe salgar; que se há-de fazer a este sal e que se há-de fazer a esta terra? O que se há-de fazer ao sal que não salga, Cristo o disse logo: Quod si sal evanuerit, in quo salietur? Ad nihilum valet ultra, nisi ut mittatur foras et conculcetur ab hominibus. «Se o sal perder a substância e a virtude, e o pregador faltar à doutrina e ao exemplo, o que se lhe há-de fazer, é lançá-lo fora como inútil para que seja pisado de todos.» Quem se atrevera a dizer tal cousa, se o mesmo Cristo a não pronunciara? Assim como não há quem seja mais digno de reverência e de ser posto sobre a cabeça que o pregador que ensina e faz o que deve, assim é merecedor de todo o desprezo e de ser metido debaixo dos pés, o que com a palavra ou com a vida prega o contrário.
Isto é o que se deve fazer ao sal que não salga. E à terra que se não deixa salgar, que se lhe há-de fazer? Este ponto não resolveu Cristo, Senhor nosso, no Evangelho; mas temos sobre ele a resolução do nosso grande português Santo António, que hoje celebramos, e a mais galharda e gloriosa resolução que nenhum santo tomou.
(*)O Sermão de Santo Antônio aos Peixes foi pregado em 13 de Junho de 1654 em São Luís do Maranhão, em 1654, três dias antes de embarcar escondido para Portugal no auge da luta dos jesuítas contra a escravização dos índios pelos colonizadores, procurando o remédio da salvação dos Índios (leitura integral, aqui)
DEDICATÓRIA: Dedico este post à memória das minhas referências morais e intelectuais ligando-as a próximidade das datas de acontecimentos, uns felizes outros a lamentar: O nascimento de Fernando Pessoa; as mortes de Vasco Gonçalves, de Álvaro Cunhal, de Eugénio de Andrade. Coincidências que nos marcam. O destaque ao "Sermão" nem precisa de explicação... no dia de Santo António, dado a folguedos.

12 junho, 2020

Canções para o desconfinamento - 11


Acordai

Acordai
Homens que dormis
A embalar a dor
Dos silêncios vis
Vinde no clamor
Das almas viris
Arrancar a flor
Que dorme na raíz

Acordai
Acordai
Raios e tufões
Que dormis no ar
E nas multidões
Vinde incendiar
De astros e canções
As pedras do mar
O mundo e os corações

Acordai
Acendei
De almas e de sóis
Este mar sem cais
Nem luz de faróis
E acordai depois
Das lutas finais
Os nossos heróis
Que dormem nos covais
Acordai!

Poema de José Gomes Ferreira

11 junho, 2020

Desconfinamentos


Este confinamento inspirou quem estimo e prezo a referir em texto, ao seu estilo, qualquer coisa como isto:
«Agora que estão confinados os santos e as marchas populares  desconfinaram as sardinhas.
Proibidos os fogareiros a carvão, resta-lhes as latas de conserva  e as máscaras. Maldito vírus»
De pronto me ocorreu num outro confinamento, em tempo salazarento,  onde, algures na guerra colonial (Maquela do Zombo), me vi a mim a assar sardinhas... em molho de tomate... com arte!
Malditos vírus!

10 junho, 2020

Um 10 de Junho [com sabor a Abril...] - 2


A peça escultórica evocativa da libertação dos presos políticos da prisão de Caxias, que ocorreu dia 26 de Abril de 1974, da autoria do escultor Sérgio Vicente, com o número de presos que estiveram detidos no Forte entre 1936 e 1974, foi hoje inaugurada junto à Estação da CP de Caxias.
A cerimónia decorreu com a dignidade que se impunha e foram vários os oradores. Contudo destaco, pela emoção tida e provocada, o testemunho do ex-preso Pedro Soares, que podem seguir no vídeo (a 11min do fim)

09 junho, 2020

Um 10 de Junho [com sabor a Abril...]


As imagens reproduzem fotos minhas obtidas num dos dias de vertiginoso rodopio. 26 de Abril de 2019, era a data. 

O local? A ala norte da Prisão de Caxias para assistir à cerimónia do descerramento da placa comemorativa dos 45 anos da libertação dos presos políticos. Memoráveis, os reencontros. Calorosos, os abraços. 

Amanhã, ir-se-ão conter abraços, mas haverão novos reencontros. 

Será numa cerimónia que esteve inicialmente prevista para 26 de Abril passado, mas só agora vai ser possível em resultado do atraso das obras devido à pandemia.

Eu estarei lá, claro!
Eu não falto!

Canção para o desconfinamento - 10


«Não há ventos que não prestem
Nem marés que não convenham
Nem forças que me molestem
Correntes que me detenham»

07 junho, 2020

«Estes são problemas para os quais urge dar resposta, porque eles transportam o vírus da exploração do trabalho e do empobrecimento do povo, e que agora se intensifica e alastra»

«Sim, é preciso continuar a agir para salvaguardar a saúde e a vida dos portugueses. Para isso apresentámos um Plano de Emergência para reforçar o Serviço Nacional de Saúde que queremos e tudo vamos fazer para o ver concretizado. Um Plano que visa o reforço imediato do fincamento em pelo menos 25% do Orçamento da saúde para 2020; pelo recrutamento dos profissionais em falta nos serviços e a sua valorização profissional, salarial, das carreiras e terminar com a precariedade dos vínculos laborais; pelo aumento do número de camas na rede hospitalar; pelo reforço da estrutura de saúde pública que se mostrou fundamental no combate ao surto epidémico e pela constituição de uma reserva estratégica de medicamentos e equipamentos de protecção individual.»
(...)
«Sabemos que os grupos económicos que se dedicam ao negócio da doença e estiveram estes meses escondidos do vírus querem agora chamar a si a oportunidade de negócio dos atrasos, e aonde não chegam mandam recado pelos seus representantes políticos que tudo fazem para denegrir o SNS e o desacreditar.»
(...)
Os impactos da epidemia são bem visíveis na realidade do País e na vida dos portugueses e de todos aqueles que procuram no nosso País, com o seu trabalho, um rumo para as suas vidas.
São centenas de milhar de trabalhadores em lay-off, muitos milhares de despedimentos, uma brutal redução dos salários, alterações unilaterais de horários, imposição de férias forçadas e retiradas de direitos, incluindo a negação do uso dos direitos de maternidade e paternidade, arbitrárias imposições nas condições de trabalho, liquidação da actividade de milhares de micro, pequenas e médias empresas e pequenos produtores, no condicionamento da actividade produtiva e do escoamento da produção.
Dificuldades em cima de dificuldades para os trabalhadores e para outras camadas da população, ao mesmo tempo que empresas multinacionais, com milhares de milhões de lucros, se apropriam de dinheiro público recorrendo nomeadamente ao lay-off. São as grandes empresas, e não as micro e pequenas empresas, as que mais beneficiam do expediente do lay-off, são mais de 50%! Empresas, muitas delas, que beneficiam de milhões de euros de apoios públicos nos seus projectos, e não estamos a falar nos milhares de milhões de euros que já foram despejados no Novo Banco que devia estar nas mãos do povo português, ou dos muitos milhões das PPP.
Os trabalhadores e o nosso povo são atingidos pelos efeitos da epidemia e pelo aproveitamento que fazem dela.»

«Nem um direito a menos. Confiança e luta por uma vida melhor»

06 junho, 2020

Convém não nos resignarmos a um País onde a fome se resolve com a caridade institucionalizada ou...


«para além da emergência sanitária que é necessário continuar a enfrentar, com a eficácia e o empenho de todos os trabalhadores do Serviço Nacional de Saúde e a postura cívica de todos nós (...) [convém] não nos resignarmos a um país onde a fome se combata com a distribuição de bens alimentares no Banco Alimentar ou se disfarce o direito constitucional ao trabalho com a proliferação de relações laborais de natureza feudal» 

05 junho, 2020

Nós vamos ao Teatro! E você, fica a fazer o quê?


Lá atrás está tudo explicado no apelo "Vá ao Teatro!"
Depois dizemos o que pode acontecer, se lá não estiver o Garrett.
Agora, é só lá ir! Cumprimos a missão do público que ama a arte... e é solidário. Solidário? Solidário com quem?

04 junho, 2020

Canções para o desconfinamento - 8

HOJE É O PRIMEIRO DIA...
 
A princípio é simples, anda-se sozinho,
passa-se nas ruas bem devagarinho
está-se bem no silêncio e no borborinho
bebe-se as certezas num copo de vinho
e vem-nos à memória uma frase batida:
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida!

Pouco a pouco o passo faz-se vagabundo
dá-se a volta ao medo e dá-se a volta ao mundo
diz-se do passado que está moribundo
bebe-se o alento num copo sem fundo
e vem-nos à memória uma frase batida:
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida!

E é então que amigos nos oferecem leito,
entra-se cansado e sai-se refeito
luta-se por tudo o que se leva a peito
bebe-se e come-se se alguém nos diz bom proveito
e vem-nos à memória uma frase batida:
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida!

Depois vêm cansaços e o corpo fraqueja
olha-se para dentro e já pouco sobeja
pede-se o descanso por curto que seja,
apagam-se dúvidas num mar de cerveja
e vem-nos à memória uma frase batida:
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida!

E enfim duma escolha faz-se um desafio
enfrenta-se a vida de fio a pavio
navega-se sem mar sem vela ou navio
bebe-se a coragem até dum copo vazio
e vem-nos à memória uma frase batida:
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida!

Entretanto o tempo fez cinza da brasa
outra maré cheia virá da maré vaza
nasce um novo dia e no braço outra asa,
brinda-se aos amores com o vinho da casa
e vem-nos à memória uma frase batida:
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida!

03 junho, 2020

Vá ao Teatro e... tire um tickett que dá direito a um Garrett!

Se chegar à bilheteira e quiser ajudar, se ainda lá não estiver um Garrett para comprar não recue no intento... O Garrett não chegou a tempo, mas a nossa Associação tratará de assegurar que o fofinho peluche lhe chegue a casa... 

Do que estou a falar? Da "nossa" campanha, claro! 

“CAMPANHA DE APOIO AO TEATRO, ATORES E ARTISTAS” 
 – A campanha tem os seus objetivos centrados nas condições muito precárias em que vão decorrer a abertura dos teatros. Devido às circunstâncias de distanciamento social as salas terão a sua lotação útil reduzida a 1/3 ou pouco mais, o que dificulta o regresso aos palcos e está a provocar grande sacrifício económico aos profissionais do setor. 
A campanha que propomos, consiste em que, quem puder, adquira um bilhete para si e outro de cadeira vazia - bilhete solidário. Ao bilhete solidário está associada a oferta de um pequeno "mascote". 
A nossa associação adquire os mascotes (Garretts), mas o produto total da venda reverterá, na integra, para a respetiva companhia de teatro associada à campanha. 
O Projeto já foi apresentado e conta com o bom acolhimento dos seguintes grupos: TIO-Teatro Independente de Oeiras; INTERVALO, do Teatro Municipal Lourdes Norberto; COMPANHIA DE ATORES, do Teatro Municipal Amélia Rey Colaço.


E, amanhã, há TIO! Bora lá?