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21 agosto, 2025

DO QUE SE DIZIA NO RELATÓRIO DA COMISSÃO TÉCNICA INDEPENDENTE SOBRE OS INCÊNDIOS DE 2017, ATÉ 2025 NADA FOI FEITO

Paulo Cunha / Agência Lusa

É um documento extenso, com mais de 300 páginas, que revela as opções políticas que abandonaram a floresta em benefício de grandes grupos económicos e do agronegócio. Entregue na Assembleia da República após os fatídicos incêndios de 2017, o relatório da Comissão Técnica Independente abordava as causas do ocorrido, fazia um enquadramento histórico dos «megaincêndios», expunha o recurso à mono-floresta, caracterizava as fatalidades, debruçava-se sobre as determinantes institucionais e apontava medidas. 

Volvidos tantos anos e dada a gravidade do incêndio, seria de esperar que o poder político tivesse aprendido a lição, mas a verdade é que o relatório podia ter sido elaborado hoje. Entendendo que megaincêndios são fogos com área superior a mil hectares, a Comissão Técnica informava que até 2000 tinham ocorrido em média 7 megaincêndios por ano que depois aumentaram para 14 por ano entre 2001 e 2010 e 18 por ano entre 2011 e 2016.

De acordo com o relatório, a gravidade dos incêndios deve-se a condições meteorológicas, acumulação de combustível e ocupação desordenada do território. Neste sentido, segundo o apresentado, a área ardida concentrava-se em florestas de pinheiro-bravo e eucalipto, sendo que em Outubro de 2017, 62% dizia respeito a pinheiro-bravo; 23% a eucalipto; e 8% a mato e restantes culturas agrícolas, sendo que a vulnerabilidade era maior em áreas com elevada continuidade florestal e pouca gestão do terreno.

De forma muito sucinta, no plano da caracterização das fatalidades, o relatório indicava que a maioria das vítimas eram residentes locais, muitas com forte ligação ao território (propriedade rural, agricultura familiar) com predominância de idades avançadas, reflectindo vulnerabilidade física e dificuldade de evacuação. Muitas das fatalidades ocorreram em tentativas de fuga dentro do perímetro habitacional ou em acessos, com algumas mortes a ocorrerem em viaturas durante evacuação não coordenada. Neste campo, o relatório indicava ainda que a proximidade das casas à vegetação e a ausência de faixas de proteção foram factores críticos.

Em oito anos, tanto a composição da área ardida como a caracterização das fatalidades mantêm-se iguais, sendo que o mesmo pode ser dito relativamente às determinantes institucionais que, no caso da Autoridade Nacional de Proteção Civil (ANPC), registava uma falta de capacidade para lidar com eventos da escala que estavam a enfrentar, especialmente após a redução do dispositivo sazonal; que os alertas meteorológicos não eram traduzidos em medidas preventivas eficazes, como pré-posicionamento robusto de meios; que existia comunicação insuficiente entre níveis estratégicos, tácticos e operacionais; e que havia excesso de centralização nas decisões, o que dificultou respostas rápidas.

Já sobre o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), identificavam-se reduzidos meios humanos e financeiros para implementar e fiscalizar medidas de prevenção; planos de ordenamento florestal pouco executados e alguns suspensos por falta de aplicabilidade; e falta de articulação com outras entidades, resultando em medidas preventivas descoordenadas.

No que diz respeito à Guarda Nacional Republicana (GNR) os problemas eram semelhantes, com recursos humanos insuficientes para patrulhamento eficaz num contexto de milhares de ignições, dificuldade em dissuadir comportamentos de risco em dias de perigo extremo e falta de integração com os sistemas de informação e coordenação da ANPC.

Sobre os Corpos de Bombeiros, o relatório identificava a sua vulnerabilidade dada a sua base do sistema de combate composta maioritariamente por voluntários que não responde às exigências dos incêndios extremos, ausência de formação especializada para lidar com fenómenos como piroconvecção e carência de meios técnicos e logísticos, agravada pelo desmobilizar dos meios aéreos (fase Delta).

Além da análise às instituições, o último capítulo do relatório debruçava-se sobre a relação entre ordenamento do território, o uso do solo e a vulnerabilidade ao fogo, apresentando várias propostas. As zonas mais afectadas pelos incêndios foram as áreas onde edificações confinavam com a vegetação, o que foi apontado como o principal problema: a ausência de faixas de gestão de combustível em redor das habitações, construções dispersas em meio florestal, sem planeamento urbano adaptado ao risco, e falta de normas eficazes para reduzir vulnerabilidade das construções. Assim, foi recomendada a gestão activa do combustível (remoção de matos, limpeza de sub-bosque), a alteração das espécies na interface como a promoção de folhosas caducifólias em detrimento de resinosas e eucaliptos; e o reforço dos programas «Aldeias Seguras» e «Aldeias Resilientes». 

Sobre a gestão das áreas sob regime florestal, identificava-se que era necessária aumentar progressivamente o corpo técnico do Estado responsável pela gestão e fiscalização, assim como a necessidade de revalorização do papel estatal na gestão florestal, com mais técnicos, recursos e coordenação com privados. 

Partindo do princípio que a paisagem florestal portuguesa se caracteriza pela fragmentação da propriedade, com milhões de parcelas pequenas; pelo predomínio do eucalipto e pinheiro-bravo; e baixa presença de áreas agrícolas activas, que poderiam funcionar como zonas de descontinuidade, a Comissão Técnica Independente recomendou o planeamento de mosaicos agroflorestais para criar descontinuidades ao fogo, incentivos à gestão agregada e cooperativa de pequenos proprietários e a criação de infraestruturas verdes de protecção (corredores de folhosas, faixas agrícolas).

Para terminar, o relatório contempla ainda uma análise aos fundos públicos como o Fundo Florestal Permanente, PDR2020 e PO SEUR, saindo a conclusão que existe uma lenta e baixa absorção de fundos destinados à prevenção estrutural, uma distribuição desigual entre regiões. A Comissão Técnica sugeria a simplificação do acesso aos apoios e orientação preferencial para medidas que reduzissem risco estrutural.

No dia em que se sabe que este ano as chamas já consumiram 2,35% da área do país, fazendo de Portugal o país da Europa com maior área ardida, cruzando-se a actual situação com o relatório de 2017, exige-se ao Governo esclarecimentos sobre as medidas que não foram tomadas.


16 março, 2024

O CHEGA, O VOTO DE PROTESTO E... O RESTO - III (Fim, desta etapa)



Não posso encerrar esta etapa, onde procuro reflectir porque o Chega cresce à brava, sem falar do Alentejo pondo em evidência que as condições de desespero de quem trabalha no campo estará na base desse voto desesperado e de protesto. Oram pensem:

"A população ativa no setor primário no Alentejo sofreu uma diminuição evidente de década para década, nos anos 80 ainda 36,6% da população trabalhava no setor, passadas mais de 30 anos, o dados relativos aoprimeiro semestre de 2016 contabilizam no Alentejo apenas 7,7% de população ativa. O trabalho agrícola aparece nas estatísticas como predominantemente familiar e a tempo parcial, no entanto, o crescimento das empresas no setor e o aumento da sua produtividade, conduzem-nos a acreditar que o os números reais relativamente aos trabalhadores se encontram por descortinar. Principalmente no que se refere aos trabalho sazonal protagonizados por população imigrante, estima-se que o Alentejo recebe milhares de imigrantes em épocas sazonais, mas as estatísticas disponíveis são insuficientes para aprofundar esta questão."
in "Cidades e Campos [AT] Alentejo e Trabalho Agrícola ..."

"Sendo o Alentejo uma Região em processo rápido de desertificação, nomeadamente, desertificação humana, há que tentar travar esse processo, através de estratégias de fixação das suas populações. Para tal, e porque se trata de uma região essencialmente rural, é preciso, não só, desenvolver a sua agricultura, mas também, criar condições de vida ás populações agrícolas, para que uma parte significativa do seu rendimento possa ter origem em outras actividades ligadas, directa ou indirectamente, à agricultura e/ou em actividades fora do sector, desde que praticadas em meio rural. Mais concretamente, há que, se necessário, recorrer à pluriactividade."

 in Famílias agrícolas e desenvolvimento

“Eu acho isto muito natural porque, em 50 anos de democracia, há muita coisa com as quais as pessoas não estão contentes, com os governos, e querem mudar. Aconteceu que agora foi o Chega e as pessoas se calhar foram mais [votar] por uma demonstração de revolta. Depois também há muita gente nova, já não está associada a uma aldeia que é comunista. As coisas evoluem, umas vezes para bem, outras vezes para menos bem. Isto foi a vontade dos votantes e nós temos de respeitar, não há que ver de outra maneira”

09 fevereiro, 2024

SEM AGRICULTORES, NÃO HÁ AGRICULTURA

A agri­cul­tura em Por­tugal

Há hoje em Por­tugal 286 191 ex­plo­ra­ções agrí­colas

Menos 5,82% do que há 10 anosMenos 52% do que em 1999

Menos 80% do que em 1989

Menos 11,6% de terras ará­veis

Mais 24,6% de cul­turas per­ma­nentes

Mais 14,9% de pas­ta­gens per­ma­nentes

Menor pro­dução de bens ali­men­tares fun­da­men­tais à ali­men­tação hu­mana: Menos 32,2% de área de ce­reais para grão re­la­ti­va­mente a 2009 (menor área se­meada de sempre); Menos 28,6% de área para pro­dução de ba­tata

Por­tugal hoje im­porta muito do que antes pro­duzia

Em 2022, o ren­di­mento dos agri­cul­tores caiu 11,2% e os lu­cros da grande dis­tri­buição dis­pa­raram

os grupos Je­ró­nimo Mar­tins e Sonae al­can­çaram lu­cros de 1014 mi­lhões de euros, cerca de 3 mi­lhões por dia

O preço pago à pro­dução não com­pensa o au­mento dos custos de pro­dução (com­bus­tí­veis, ra­ções, etc.)

A re­dução do nú­mero de ex­plo­ra­ções re­pre­sentou um au­mento da sua su­per­fície média, que é hoje de 13,8 hec­tares, quando em 1989 era de 6 hec­tares

Apenas 1100 ex­plo­ra­ções têm cerca de um quarto da área total 

95% das ex­plo­ra­ções são de agri­cul­tores sin­gu­lares

Mas…

Os 5% de so­ci­e­dades agrí­colas ocupam 27% da terra, detêm 41% dos efec­tivos ani­mais e uti­lizam 9% da mão-de-obra 

⅔ do tra­balho agrí­cola é feito com mão de obra fa­mi­liar 

a mão-de-obra as­sa­la­riada, re­gular ou sa­zonal, re­pre­senta já 27,8% 

Com a PAC foram anun­ci­ados mi­lhares de mi­lhões de euros para o País, mas…

foram ca­na­li­zados para as mãos de uns poucos, dos grandes agrá­rios

A CEE/​UE pagou para se ar­rancar vi­deiras e oli­veiras, para se flo­restar áreas agrí­colas

pagou para que não se pro­du­zisse e, de­pois, pagou sem obri­gação de pro­duzir

7% dos be­ne­fi­ciá­rios ficam com 70% das «ajudas» da CEE/​UE 

A CEE/​UE cons­ti­tuiu-se com um co­veiro da pro­dução na­ci­onal e não só na agri­cul­tura. PS, PSD, CDS, Chega e IL, que sempre apoi­aram a PAC e as suas re­formas, são res­pon­sá­veis.

Jornal Avante - 8 de Fevereiro - pág. 5


03 fevereiro, 2024

OS AGRICULTORES CONTINUAM EM PROTESTO.... E O PCP ATÉ JÁ FALOU EM "DITADURA DA DISTRIBUIÇÃO"

A propósito da luta que continua e relembrando uma publicação recente retomo uma outra de 2019 (que teve 18 comentários), onde deixava um caso concreto ilustrando o que pode a "ditadura da distribuição" e os impactos maléficos que deixa. Aí, escrevia assim:
"403 mil toneladas de laranjas saíram dos pomares portugueses em 2018. Portugal teve, no último ano, a maior produção de laranjas dos últimos 33 anos. Contudo, o aumento da produção trouxe excesso de citrinos ao mercado e fez cair 20% o preço no produtor. Enquanto isso acontece, o Pingo Doce vende laranja importada, e não se importa nada. Quem distraidamente lê o rótulo julga tratar-se de laranja do Algarve, mas em boa verdade, esta laranja chegou de fora, da vizinha Espanha, transportada com elevada pegada ecológica...


Mas não se pense que a coisa fica por aqui. Outro caso. Uma garrafa de água num país onde ainda a vai havendo, não se dando prova de que não haja falta, é importada de... França e percorre inimaginável distância.

Se é verdade que o sector dos transportes continua a ser um dos sectores de actividade com maior consumo de energia ele também é, em consequência, um dos que mais contribui para as emissões de gases com efeito de estufa. 
E não se pense que fui à procura de casos extremos. Eles apenas ilustram duas situações extremas de como as grandes superfícies não só concorrem para agravar as condições da produção nacional não a escoando, como também, com as suas políticas comerciais, concorrem  para o aquecimento global. 


02 fevereiro, 2024

NA AGRICULTURA, A LUTA CONTINUA

 CNA e Filiadas convocam «Marcha Lenta de Tractores e Agricultores» em Vila Real

O Governo está a procurar colocar água na fervura, mas não responde às exigências dos agricultores. Como tal, a luta continua e no dia 7 de Janeiro irá realizar uma marcha lenta de tratores e agricultores para Vila Real. 


Na senda do que tem sido a demonstração de insatisfação o Governo tem feito o que sempre fez: prometer. O problema é que não cumpre e os seus compromissos estão bem alinhados com os interesses da grande distribuição e do agronegócio, antagónicos aos interesses dos agricultores. 

Esta semana o Governo lembrou-se de acenar com uns milhões para ver se continha a insatisfação. A questão é que, assim como a CNA afirma, os agricultores «só vêem tostões». É a realidade que assim o confirma, uma vez que «a única medida que poderá entrar em vigor de imediato é o desconto do ISP no gasóleo e tudo o resto não passa de um caderno de encargos para o próximo Governo». 

Ficando por resolver todos os problemas, a única forma dos agricultores estarem é a lutar. Por isso mesmo, a CNA, com as suas Filiadas, vai realizar, na próxima quarta-feira, 7 de Fevereiro, pelas 10h30, uma manifestação em Vila Real, por melhores rendimentos e preços justos à produção, na defesa da produção nacional, da Agricultura Familiar e dos Baldios.
 

Artigo publicado pelo AbrilAbril



01 fevereiro, 2024

A AGRICULTURA SAI À RUA... E TEM VITORIA CURTA NESTA SUA LUTA


O protesto e luta dos agricultores centra-se na reclamação de apoios prometidos e depois retirados e depois, com pálidas promessas, de serem pagos quando... ou quando... A luta, já ao cair da noite, deu como resultado algo de escrito e tudo regressa à anormal normalidade. 

Falou-se do agravamento dos custos de produção, falou-se das imposições da Política Agricola Comum que favorece a concorrência por parte de países fora da Comunidade Europeia (p.e. da Ucrânia) e impõe regras despropositadas e o protesto vai a esse ponto, reclamando a sua revisão. Falou-se do que era necessário falar, mas não se falou do que era indispensável que se falasse. Só Paulo Raimundo, que tivesse dado conta, denunciou de como a grande distribuição esmaga o preço dos produtos que compra. Falar em "ditadura da distribuição" não é excessivo...

Mas há algo mais de que ninguém fala. Só o PCP fala do papel dos grandes agrários, do latifúndio, do cultivo intensivo e  da desertificação. E não se limita a falar pois todos esses aspectos constam do seu programa eleitoral. No Programa, o PCP põe o dedo na ferida, defendendo o regresso à reforma agrária, ora leia:

O Partido Comunista Português (PCP), que concorre às eleições legislativas antecipadas de 10 de Março de 2024, em coligação com o Partido Ecologista Os Verdes (PEV), na CDU – Coligação Democrática Unitária, apresentou o seu programa eleitoral no passado dia 25 de Janeiro. E apresenta como opção estratégica “uma política agrícola que, a par da racionalização fundiária pelo livre associativismo no Norte e Centro, tenha por eixo central uma profunda alteração fundiária que concretize, nas actuais condições, uma reforma agrária nos campos do Sul, liquidando a propriedade de dimensão latifundiária“.

Os comunistas defendem ainda que se “condicione por lei o acesso à terra pelo capital estrangeiro”, uma política agrícola que “trave a exploração intensiva, predadora dos solos e das reservas de água (superficiais e aquíferos), e a especulação imobiliária “turística” e assegure o bom aproveitamento das potencialidades agrícolas do Alqueva e de outros regadios e obras de engenharia agrícola, tais como o Azibo, Vale da Vilariça, Vouga, Mondego, Lis e Cova da Beira, com a concretização de um outro plano nacional de regadios que assegure disponibilidades de água para a produção de alimentos, com a definição de regras concretas nas novas áreas a regar, culturas, formas de exploração, tipologia de investimentos e investidores, que garanta ao mundo rural o acesso às redes de telecomunicações (incluindo Internet) indispensáveis à concretização dos seus projectos” 

Do texto publicado no site "Agricultura e Mar"



15 junho, 2023

COMO SE TUDO DEPENDESSE DA PRIMAVERA (reeditado)


DESERTIFICAÇÃO
Fala a pedra com a pedra: Onde a erva?
Fala a terra com a terra: Onde o húmus?
Fala a porta com a janela: Onde a gente?
Fala a parede com o sobrado: Tens saudade dos passos?,
onde pára o espanta pardais, esse espantalho de falsos braços
que afastavam os pássaros?
Onde param as searas? e as eiras? e os cantos? e o pão?
Flor? Que é uma flor?
Flor era essa coisa de pétalas e cor que tu trazes na memória
e que segundo o calendário do tempo devia povoar esses campos?
Árvores? Que é uma árvore?
Árvore era essa coisa de raízes, folhas, ramos, frutos
que juras te ter no passado dado meiga e fresca sombra?
Água? Que é a água?
Água é essa coisa que te molhava o rosto, a roupa o corpo
e que as escuras nuvens teimam levar para outro lugar?
Ah, meu amor, este abandono
Ah, meu amor, este deserto
Se cada um de nós somos três
porque me falas
como se houvesse apenas Minha Alma?
Porque me falas
como se tudo dependesse da Primavera e nada dependesse de nós?
Rogério Pereira  



05 fevereiro, 2022

LÁGRIMAS, MESMO SE MUITO CHORADAS, NÃO REFORÇAM ÁGUAS...


Chegámos ao limite. O drama já vem de longe, como recentemente tenho documentado. E as lágrimas, mesmo se muito choradas, não reforçam os rios, lagos, barragens, bacias hidrográficas. 

Mais recentemente, exactamente a 24 de Setembro de 2020, foi apresentado na Assembleia da República um "Plano Nacional para prevenir e combater os efeitos da Seca" votado em Plenário no dia seguinte. Do chumbo, então registado, dá-se nos dias que correm os efeitos dramáticos consequentes. 

Podeis chorar de angústia. Meu choro é de raiva. Chorem comigo!

03 fevereiro, 2022

QUEM SECOU O MEU ALENTEJO? QUEM ESTOIROU COM O MEU SONHO? - II [sobre os culpados]


Ontem, deixei duas perguntas: Quem, depois de alguém, veio estoirar de vez com o meu sonho? Quem semeou o pesadelo? Eis uma insuspeita resposta:
«Um artigo publicado na Der Spiegel, a mais prestigiada revista de informação alemã, sobre a desastrosa situação ambiental, social e económica que se vive no Sudoeste português à mercê da agricultura intensiva...
O texto sugere que a pobreza e desertificação do Alentejo torna a região um alvo fácil da atenção de empresas cujos escrúpulos ambientais e sociais são inversamente proporcionais aos números de facturação do sector, organizando-se em redes complexas «de corporações agrícolas multinacionais, grandes proprietários de terras locais e empresas comerciais europeias», operando à margem da inexistente fiscalização portuguesa...
(...)
Ao diagnóstico da Der Spiegel, o Juntos pelo Sudoeste acrescenta que «este ímpeto agrícola só é possível porque o Estado português abdicou de cuidar e vigiar partes muito significativas do seu território... 
Por fim, remata que este trabalho de investigação é «mais um passo na divulgação da situação insustentável dos concelhos de Odemira e Aljezur, como consequência do avanço imparável da agricultura intensiva focada na exportação, que compromete um Parque Natural, fractura o maior concelho do país, usa e abusa da água, factura 250 milhões de euros anuais, recebe benefícios fiscais, paga impostos não se sabe bem onde mas certamente não em Odemira, remunera a sua força laboral pelo mínimo, desresponsabiliza-se das suas condições miseráveis de vida e ainda acena a bandeira do “desenvolvimento económico”, quando o que de facto deixa no Sudoeste é a degradação ambiental e social que se vê a olho nu».
Ler tudo aqui

02 fevereiro, 2022

QUEM SECOU O MEU ALENTEJO? QUEM ESTOIROU COM O MEU SONHO?

 

Sim, apesar da promoção ser o que estava sendo, eu acalentava o sonho. Sonhava, há dez anos atrás, ver o meu Alentejo de "celeiro da nação" passar a ser a região onde tudo se desse. Sonhava com a autonomia alimentar e com tudo aquilo que agora a realidade nega. E tenho o pesadelo como certo, o da fome. É que a terra, desnutrida e cansada não dará nada...

Quem, depois de alguém, veio estoirar de vez com o meu sonho? Quem semeou o pesadelo?

30 julho, 2021

Hoje esgotámos os recursos naturais da Terra para 2021

Li, aqui, que «Este ano, apenas foram necessários sete meses para que a humanidade esgotasse os recursos naturais que o planeta Terra consegue produzir num ano. A partir de hoje estamos a viver acima da biocapacidade da Terra...» e logo me ocorreu a expressão ontem do Vitor, quando me dizia "Já reparou?, nenhum partido ou movimento ligado às questões ambientais, faz uma abordagem pela perspectiva económica!" 

Dei-lhe razão, mas depois fiquei a pensar se eu próprio já não o teria feito. Quem se lembra deste meu escrito

«403 mil toneladas de laranjas saíram dos pomares portugueses em 2018. Portugal teve, no último ano, a maior produção de laranjas dos últimos 33 anos. Contudo, o aumento da produção trouxe excesso de citrinos ao mercado e fez cair 20% o preço no produtor. Enquanto isso acontece, o Pingo Doce vende laranja importada, e não se importa nada. Quem distraidamente lê o rótulo julga tratar-se de laranja do Algarve, mas em boa verdade, esta laranja chegou de fora, da vizinha Espanha, transportada com elevada pegada ecológica...
Mas não se pense que a coisa fica por aqui. Outro caso. Uma garrafa de água num país onde ainda a vai havendo, não se dando prova de que não haja falta, é importada de... França e percorre inimaginável distância.
Se é verdade que o sector dos transportes continua a ser um dos sectores de actividade com maior consumo de energia ele também é, em consequência, um dos que mais contribui para as emissões de gases com efeito de estufa. 
E não se pense que fui à procura de casos extremos. Eles apenas ilustram duas situações extremas de como as grandes superfícies não só concorrem para agravar as condições da produção nacional não a escoando, como também, com as suas politicas comerciais, concorrem  para o aquecimento global. 

Se a COP25 está à beira "do desastre completo"? Quem esperava outra coisa nunca olhou para as prateleiras  de um supermercado com olhos de ver.


23 outubro, 2017

«A terra a quem a trabalhar»

Ocupado a escrever a minha intervenção de tomada de posse, dei com esta crónica, e cá vai disto. Caso gostem, façam o favor de irem saudar o autor.

Quando Leonor voltou à terra já não era a mesma que dali partira nas raias da maioridade. Na capital deveria ter encontrado companheiro com bons abonos, emprego em boa loja ou repartição já que, aos olhos de quem a via, virara fina. Quem a vira e quem a via: óculos de sol, saltos altos, lábios e unhas pintados, permanente, colar, malinha no ante-braço, cuidada no uso da palavra com recurso a termos por ali pouco usados e, a juntar a tudo isto, conduzia ela própria um volkswagen azulinho claro.
A meio da volta das visitas a que vinha, desceu, com os cuidados que o seu calçado e o seu jeito exigiam, a rampa de acesso à taberna da rua onde nascera, entrou e, naturalmente, toda a gente se calou para a mirar e para a ouvir.
Falou, do posto da autoridade efémera que lhe concederam, não do pedaço de vida que lhe desconheciam pela ausência mas das mudanças que notava na terra e que a surpreendiam.

- Efetivamente, estou chocada, a quantidade de silvas e ruínas que vão por este lugar além! Que desmazelo o desta gente! Hoje em dia ninguém quer trabalhar!
Foi o Zé da Venda, que por sabedoria de ofício ouvia muito mais do que falava, que a pôs no seu lugar:
- Leonor, se ainda sabes distinguir uma foice dum foice, vais ali às minha alfaias e podes começar já naquilo que herdaste dos teus pais!
Meia engasgada, abreviou as despedidas, saiu porta fora e pôs-se ao volante, deixando abafadas pelo ruído do motor algumas gargalhadas. E então não é que na primeira curva por entre o casario, de má visibilidade, diga-se, espeta uma traseirada no carro de bois do Esquim Manel. A junta aliviou a canga por instantes mas os animais nem olharam para trás. Pararam à ordem do boieiro que veio à retaguarda verificar o acidente. O capot do automóvel bem amolgado e coberto de esterco que resvalou da carga, Leonor a sair irada e de voz esganiçada, os clientes da Venda e outras vizinhanças a acudirem ao local convocados pelo estrondo e pela discussão crescente.

- Efetivamente isto não se admite! Não devia ser permitido andar com gado nesta estrada!
- Já por cá andavam muito antes de teres carro!
- Ó Esquim mas tu tens de me pagar efetivamente os estragos no carro!
- Ó cachopa, eu não tenho a carta mas sempre ouvi dizer que quem enfia por trás paga!

A discussão prolongou-se, como é normal, alargou-se ao julgamento dos outros presentes, elevaram-se alguns tons mas, fosse qual fosse o argumento ou a sentença, a todos o Esquim Manel respondia:
- É muito simples, quem enfia por trás paga!

Não tendo corrido muito bem a ida de Leonor à terra, ressabiada, nunca mais voltou mas é ainda recordada por alguns com o "enfia atrás" e "efetivamente". Ou melhor, voltou hoje, já septuagenária, numa passat conduzida por um filho, depois de ter visto na televisão a sua terra em chamas. Não conseguindo localizar as sua propriedades teve de pedir ajuda a um primo residente!
- O que isto era e o que isto é! Isto tinha de acontecer! Esta gente sempre foi muito desmazelada! E depois ninguém quer trabalhar!
- Ó prima, há já aí quem diga que o pessoal que cá vive tem de se unir e fundar uma cooperativa e que as terras abandonadas irão ser propriedade de quem a trabalha!
- Efetivamente estou a ver que também tu viraste comunista! Tu, ouve bem, ai de quem tocar naquilo que os meus paizinhos me deixaram ou que ouse mexer nos meus marcos!
- Efetivamente prima, vou dizer-te uma coisa que nunca te disse: eu quero que tu te... tu te... tu te...

19 outubro, 2015

"prefiro mil vezes os credores aos comunistas"

Se o gesto não é tudo, o esgar vem mesmo a calhar. E as frases também!
Ainda a dívida não era tanta e o homem já se preparava para que o fosse.
Uma sugestão: pegue num bloco e num lápis e entre numa loja do Pingo-Doce
Anote: De um lado o que se produz no país, do outro lado o que é importado
Ache o saldo e encontrará a resposta para esse ar alucinado.
(amanhã farei isso!)

06 abril, 2015

Sem chuva, o cheiro a terra molhada perdura como memória daquela tarde de Domingo de Páscoa.


Pelo jeito de pegar na enxada e a postura de a ela a se encostar ninguém diria que era de há pouco que o fazia. Até a forma como falava de que como amanhava a terra, enganava. Caso eu não o soubesse, diria que há muito que lidava com ela. 
Entre o xilrear dos pássaros, explicou-me o que fizera com a nogueira, enquanto lhe abria a água que a nutria, numa pequena torneira montada junto ao tronco. «Assim, não cresceu para cima, nem ficou com os ramos demasiado baixos» dizia, enquanto se encaminhava para as pequenas escadas que separavam os desníveis das terras. «Este desnível e a inclinação do terreno ajuda à rega, a água circula por acção da gravidade. A bomba serve apenas para puxar a água do poço para o depósito elevado e dele ao tanque, uso quase em todo o lado o processo "gota a gota"» e apontava os tubos e os pequenos repuxos aproveitado para lhes regular o caudal. Depois, num gesto largo «Ali tenho batatas, ali e ali também» e ia apontando o que tinha semeado ou plantado: couves, grelos, cebolas, alfaces, tomates, abóboras, xuxus, beterrabas. E detalhava cada canteiro com ervas de cheiro e tempero. Depois enumerava o que planeara: feijão-verde, cenouras e outras coisas que o vizinho, consultor das artes horticolas, lhe ia recomendado... Entardecia, era a hora da rega. Libertou a rolha entrapada que vedava a saída o tanque e a água soltou-se alegre percorrendo o caminho que lhe estava traçado. E foi um jogo hábil de tapa e descobre, cobre e destapa, levando o carreiro da  água até as verdes e promissoras verduras. 
O cheiro a terra molhada perdura como memória daquela tarde de Domingo de Páscoa.
_________________________________________
De regresso, ia pensando se não era com o amor à terra que a ressurreição dela pode acontecer, assim se somassem as terras e os esforços dos donos delas... E condenei-me por não lhe ter falado que o destino da agricultura familiar está longe de estar condenado... e de haver gente boa a lutar do mesmo lado.

09 agosto, 2012

Alqueva? Não há azar, irá ser uma grande e excelente ETAR...


Desde menino que sonhava que o sonho se realizaria...

No baú dos meus escritos, com etiqueta de "Reforma Agrária", estão mais de uma dezena de textos falando de Alqueva. Desde uma cronologia onde escrevia que sonhava com dizeres do meu herói, um quase ignorado engenheiro com um nome que o liga ao filho (que também admiro), até um poema que fala de desertificação, há lá que ler até mais não. 
Hoje as noticias dão a última machadada no sonho. Haverão acusações, argumentos e mais argumentos. Esquecer-se-ão, acusadores e acusados, que cada um tem seu quinhão, pois as valências do sonho foram a pouco e pouco, ao longo da citada (e nessa altura incompleta) cronologia, destruídas por todos os governos, desde a famigerada lei Barreto. Da valência agrícola à da aquacultura, desta à da energia e, por fim. a valência salvadora, a do turismo de luxo, todos os governos foram matando, cada um à sua maneira, o sonho que desde menino tenho sonhado.

Diz-me uma pedra, das que constituem o meu petrificado povo,  condoída com a minha expressão sofrida: "Não há azar, Alqueva irá ser uma grande e excelente ETAR"
 - Que grande merda, ter de dar razão a uma pedra.  

NOTA: Este post vai ter a mesma etiqueta. Talvez um dia a Reforma Agrária saia da gaveta

04 abril, 2012

Existe, sim. Seu nome? - Alvega. Se estou de acordo com o que lá se está a passar? - Não, não posso estar!

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Ontem editei um lugar, tem alcaide que sabe para onde vai. Hoje edito este outro, onde me encontro. Já teve outra vida. Teve gente. Teve farmácia. Médico. Escola. Perdeu tudo isso em menos de cinco anos. Talvez, como muitas outras vilas e lugares do nosso país, não tenha outra opção do que esperar que definhe...
Comentou-me ontem, sabiamente, muita gente. Alguém escreveu a propósito da população de Marinaleda: "Voltar as costas ao mundo é uma tentação. Até que ponto possível, hoje, é que eu não sei." Julgo que são pertinentes as duvidas quanto a ser possível ou não. O "sistema" prefere ser ele a ter a iniciativa, no que se refere ao voltar de costas... Por cá, se estas pequenas povoações não voltarem as costas ao mundo, elas irão ver, como eu estou agora vendo, o "mundo" fazer-lhes isso. 
Que pena nos faltarem presidentes de junta copiando alcaides....