06 abril, 2015

Sem chuva, o cheiro a terra molhada perdura como memória daquela tarde de Domingo de Páscoa.


Pelo jeito de pegar na enxada e a postura de a ela a se encostar ninguém diria que era de há pouco que o fazia. Até a forma como falava de que como amanhava a terra, enganava. Caso eu não o soubesse, diria que há muito que lidava com ela. 
Entre o xilrear dos pássaros, explicou-me o que fizera com a nogueira, enquanto lhe abria a água que a nutria, numa pequena torneira montada junto ao tronco. «Assim, não cresceu para cima, nem ficou com os ramos demasiado baixos» dizia, enquanto se encaminhava para as pequenas escadas que separavam os desníveis das terras. «Este desnível e a inclinação do terreno ajuda à rega, a água circula por acção da gravidade. A bomba serve apenas para puxar a água do poço para o depósito elevado e dele ao tanque, uso quase em todo o lado o processo "gota a gota"» e apontava os tubos e os pequenos repuxos aproveitado para lhes regular o caudal. Depois, num gesto largo «Ali tenho batatas, ali e ali também» e ia apontando o que tinha semeado ou plantado: couves, grelos, cebolas, alfaces, tomates, abóboras, xuxus, beterrabas. E detalhava cada canteiro com ervas de cheiro e tempero. Depois enumerava o que planeara: feijão-verde, cenouras e outras coisas que o vizinho, consultor das artes horticolas, lhe ia recomendado... Entardecia, era a hora da rega. Libertou a rolha entrapada que vedava a saída o tanque e a água soltou-se alegre percorrendo o caminho que lhe estava traçado. E foi um jogo hábil de tapa e descobre, cobre e destapa, levando o carreiro da  água até as verdes e promissoras verduras. 
O cheiro a terra molhada perdura como memória daquela tarde de Domingo de Páscoa.
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De regresso, ia pensando se não era com o amor à terra que a ressurreição dela pode acontecer, assim se somassem as terras e os esforços dos donos delas... E condenei-me por não lhe ter falado que o destino da agricultura familiar está longe de estar condenado... e de haver gente boa a lutar do mesmo lado.