31 dezembro, 2021

E QUANDO SOAREM AS DOZE BADALADAS, LEMBREM-SE!

E logo, quando cada badalada for ouvida,
das doze que serão escutadas,
não esqueçam de juntar aos vossos doze desejos,
palavras minhas, aqui deixadas:
Que cada desejo não entregue ao tempo anseios
que dependem de vossos gestos.
O tempo nunca resolveu nada
que os povos não tenham querido resolver.
Que cada um saiba o que de importante pode e deve fazer.
Que a sabedoria vos ilumine.
E desejo-vos a vós e ao Mundo todo
Um BOM MUNDO NOVO

 


30 dezembro, 2021

NA PROXIMIDADE DO FIM DO ANO, ALTURA DE BALANÇO - III

Do que foi o ano que está prestes a findar-se, tenho vindo a fazer balanço.

Não foi um ano fácil. Não é fácil passar ao lado da memória. Não é fácil evitar a solidão, enfrentá-la, enxotá-la ou passar a toda a hora por cima dela. E é aqui que cabe referir a importância do apoio de um colectivo. Desde logo a família. Toda. Da mais distante à mais chegada. Família sem quebras, nem rupturas. Família de afectos de filhas, genros e netos, para apenas referir os mais próximos...

Não foi um ano fácil, e falando de colectivos, não podia ignorar o apoio do meu Partido, onde esse apoio foi até comovente. Apoio, não apenas nos abraços e sentimentos, mas também na compreensão de não ser o tempo para continuar sobre os meus ombros a carga de responsabilidade que sobre eles, voluntariamente, pesava. E diga-se que todas as responsabilidades que passei a dividir com outros camaradas, passaram para gente jovem, muito jovem, com menos de metade da minha idade.

Não foi um ano fácil para o meu corpo, tomado por doença cancerígena que enfrentei e a qual, tudo leva a crer, não me vai deixar sequelas. Tal, graças à minha médica de família e ao profissionalismo (tão humano) do urologista que, por sorte minha, me veio a fazer o que era importante que me fosse feito. 

Feito o balanço, elejo,  a minha família, o meu Partido, o SNS e a classe médica, as figuras do ano.

29 dezembro, 2021

EDITAR O LIVRO (CONFORME COMPROMISSO ASSUMIDO)

 Ontem assumi publico compromisso de editar um livro. Uma mão cheia de contos. Tenho matéria-prima para tal tarefa, mas há ainda muito trabalhinho em cima dela. Desde logo, limar-lhe arestas. Depois, expurgá-la de palavras "cabeludas". De seguida, pôr as crianças das escolas a ilustrar cada história e falar com a editora...

Da mão cheia de histórias, além do conto "O CARACOL MOLE E O ESCARAVELHO SEU CONSELHEIRO", contado ontem, seleccionei mais estes.

A FLAUTA (AQUELA QUE AGORA ME FAZ TANTA FALTA)

«"Não vás para o calor, filho." Minha avó era a mãe de todos os filhos deste mundo. Tratava-me assim a mim e a todas as crianças da vizinhança e as que por lá apareciam. Eu obedecia-lhe enquanto me lembrava, depois disso, não, e metia-me quinta fora descobrindo coisas de descobrir e encantar (...)»
.
continuar a ler (ou em versão digital, aqui )
 
A INESPERADA VIAGEM
 
«Sentara-se no banco do jardim. A caminhada tinha-o maçado para além do esperado e apertou-o uma morna sonolência. Nem reparara que no outro banco, mesmo em frente, estava alguém de idade mal percebida, talvez criança, talvez adolescente. Brincava com um iô-iô enorme, brilhante e reluzente (...)

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 O AVIÃO DE PAPEL

«Ele comprara o jornal e sentou-se na esplanada no lugar em que sempre se sentara. Sem se afundar na leitura, ia percorrendo as páginas até que encontrou um título de merecido interesse. No preciso momento em que ia começar a lê-lo, teve a impressão de que estava sendo vigiado. E estava. À sua frente (...)»

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UM ACONTECIMENTO REAL (COM SABOR A NATAL) 

«Como frequentemente acontece, cruzei-me com ele na escada. Desta vez ia ele de saída. Sorri-lhe, saudei a mãe e afaguei o cão. Ele olhou-me, sério, com um ar entre o tímido e o curioso. Levantei a mão à altura do ombro dele e pedi-lhe, "Dá-me cinco!"

Como sempre acontece, ele fixou-me, esperou um momento e, sem alterar a expressão, correspondeu ao pedido esboçando um pequeno sorriso, o sorriso de sempre.(...)»

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 E PRONTO, AGORA É DAR CORDA AOS SAPATOS

28 dezembro, 2021

NA PROXIMIDADE DO FIM DO ANO, ALTURA DE BALANÇO - II

O balanço do ano, sobre este tema, só se completará amanhã. Tudo terá começado antes, mas foi em Outubro de 2019 que sofreu grande impulso. Primeiro, ao ser encenado. Depois pelo manifestado apreço e por este comentário deixado:

Parabéns, senhor Autor, nem sabe como estou encantada!
Agora é continuar.
Escriba que encanta crianças, não deixa a escrita parada. Siga a escrita para pequenos, que até os adultos gostam
Aprendemos que a ambição, desmedida e sem noção, faz-nos andar para trás. Assim foi o caranguejo dotado, mas não deve ser o nosso Fado… :)

Venha daí outro livro…
ajuda a formar quem cresce e, aos outros, rejuvenesce!!


27 dezembro, 2021

NA PROXIMIDADE DO FIM DO ANO, ALTURA DE BALANÇO - I

Como gosto do que faço, não é de admirar que exerça o balanço de 365 dias de escrita. Tento fazê-lo na perspectiva de quem me lê, de quem me comenta ou simplesmente me visita. Contando estes, em média 225 olheiros, ignorando se muito ou pouco atentos.

Quem me lê e segue, por vezes faz-me sentir que meus textos são extensos e densos. Reconheço razão a quem o diz. Mas meu projecto vai para além do relato de estados de alma ou a reboque da espuma dos dias...

 

26 dezembro, 2021

HOMILIAS DOMINICAIS (Citando Saramago) - 113 [o Natal à moda do Centro Comercial]

 

 O consumismo tomou conta de tudo. Estou vendo, na TV, o "Natal dos Hospitais" e os cenários repetem os temas decorativos dos centros comerciais. Onde pára o Menino? Não estranharei o dia em que a pergunta acontecerá 

"Avô, o que é um presépio?"

O nosso Natal foi um pouco daquilo que sempre tem sido mesmo onde  não pode ser, por ausência sentida...

Hoje, nesta homilia, relanço o regresso ao Natal citando um trecho que, de tão humano, se despe do religioso da fé para se assumir tal qual o Natal é!

 HOMILIA DE HOJE

„O filho de José e de Maria nasceu como todos os filhos dos homens, sujo de sangue de sua mãe, viscoso das suas mucosidades e sofrendo em silêncio. Chorou porque o fizeram chorar, e chorará por esse mesmo e único motivo.“

Saramago, in «O Evangelho segundo Jesus Cristo»

25 dezembro, 2021

UMA CANÇÃO QUE TRAGO NO CORAÇÃO, LEMBRANDO QUE HOJE É DIA DE SER BOM

 Dia de Natal

Hoje é dia de ser bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.
 
É dia de pensar nos outros— coitadinhos— nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.
 
Comove tanta fraternidade universal.
É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
Entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes,
a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.
 
De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu
e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.)
 
Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante.
Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.
 
Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.
 
Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.
 
A Oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.
Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
e compra— louvado seja o Senhor!— o que nunca tinha pensado comprar.
 
Mas a maior felicidade é a da gente pequena.
Naquela véspera santa
a sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.
 
Cada menino
abre um olhinho
na noite incerta
para ver se a aurora
já está desperta.
De manhãzinha,
salta da cama,
corre à cozinha
mesmo em pijama.
 
Ah!!!!!!!!!!
 
Na branda macieza
da matutina luz
aguarda-o a surpresa
do Menino Jesus.
 
Jesus
o doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho
do Pedrinho
uma metralhadora.
 
Que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se fossem mortas:
Tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.
 
Já está!
E fazia-as erguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caíam
crivados de balas.
 
Dia de Confraternização Universal,
Dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de Sonhos e Venturas.
É dia de Natal.
Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas.

           António Gedeão

24 dezembro, 2021

I SAVED DE WORLD TODAY

Sim!
Salvei o mundo, hoje!
Não por ser Natal
(faço isso todos os dias)
Só não posso dizer,
como diz a canção,
que todos estão felizes, agora
Tu aí que tens tempo para iluminar o sol, faz o favor de o ser e de me acompanhar!
(isto de salvar o mundo todos os dias, é muito para um homem só...)

22 dezembro, 2021

Mais uma vez, não vou desejar-te feliz natal nem feliz ano novo...


Pois não...
Não vou desejar-te feliz natal nem feliz ano novo...

Eu desejo-te coragem p´ra dizer basta,
desejo que te esqueças quem te esqueceu,
desejo que possas fechar portas e abrir janelas,
desejo que não te conformes,
que não fiques com a culpa,
desejo que te atrevas, 

Desejo o que tu quiseres,
desejo-te olheiras e risos,
desejo-te loucura e magia,
também te desejo erros para aprender,
desejo vento,
para te deixares levar,
desejo-te faíscas no olhar,
cores para os dias cinzentos,
guarda-chuva para as más tempestades
e chuva para te calar,
desejo-te "sinto saudades",
desejo-te abraços dos que duram toda a vida
quando fechas os olhos,
desejo-te viagens e novas lembranças,
desejo-te furacões de emoções,
que te façam sentir. 

Desejo que te amem sem que precisem de ti,
desejo-te uma nova música favorita
e uma nova data que te faça sorrir,
desejo-te beijos bonitos,
brindes com os lábios e desejo-te vontade...
de seguir em frente. 
Fernanda Lapa,

21 dezembro, 2021

«Histórica victoria de Boric en Chile: El pueblo unido jamás será vencido»

 

«Viva o Chile! Foi a vitória das esquerdas que conseguiram ultrapassar divisões e amarras do passado; foi a vitória das esquerdas que se transcenderam.
(...)
Se em Portugal as esquerdas não perceberem a lição do Chile e não se reinventarem, muitos dos que têm vindo a desistir de votar acabarão por entregar o seu voto às direitas que fazem discurso anti-sistema. Hoje, as esquerdas estão confrontadas com a necessidade de uma revisão crítica da sua estratégia política. Os resultados da votação no dia 30 de janeiro de 2022 devem ser lidos neste registo, muito para lá da retórica que os media nos vão servir.»

Ler tudo Aqui

19 dezembro, 2021

HOMILIAS DOMINICAIS (Citando Saramago) - 112 [homilia onde cabe celebrar o Natal]


Não será difícil explicar a escolha do tema desta homilia. A imagem já explica metade. A metade em falta reúne lembranças minhas, idênticas rotinas, sabores, odores e histórias nunca interrompidas. E se não for suficiente a justificação dada, recordo que não tarda a data da celebração do centenário do nascimento de Saramago.
Um natal há cem anos

Quem diz cem, diz mil. Ou quarenta. Enfim, uma eternidade. A terra está esmagada de negrume. Não chove, as tempestades andam longe: o ar parado é denso de frio e parece estalar como uma rede ténue de cristais suspensos. Há uma casa e luz dentro dela.  E gente: a Família. 

Na chaminé ardem toros de lenha em fogo brando que de repente se encrespa quando se lhe juntam gravetos secos. Então a labareda cresce, divide-se, sobe pela chaminé encarvoada, ilumina os rostos da Família e logo volta a quebrar -se. Ouve-se melhor o ferver das panelas, o frigir do azeite onde bóiam as formas antigas das filhós, entre o fumo espesso e gorduroso que vai entranhar-se nas traves do telhado e nas roupas húmidas. São talvez onze horas, a mesa está posta, o momento é de paz e de conciliação — e a Família anda pela casa, confusamente ocupada em pequenos trabalhos, como um formigueiro. 

Não tarda que todos saiam para o quintal. Agora vai ser lançado o foguete que anuncia aos vizinhos que naquela casa já a última filhó saiu do tacho, a escorrer, e foi cair no alguidar profundo, onde este produto da doçaria caseira aguarda o requinte final da canela e do açúcar. Entre portas, a Criança vê a Família a sorrir, fazendo e desfazendo grupos em volta do Avô que sopra um tição e o aproxima do pedaço de cana recheado de pólvora. Tinha pedido que o deixassem ajudar, mas não consentiram: é preciso cuidado com as crianças. 

A pólvora inflama-se bruscamente, lança um jacto de faúlhas, assobia — e o foguete dispara para o ar gelado, corta-o como uma espada de fogo, e lá muito no alto estraleja, sonoro, entre os ecos doutro foguete distante. O caniço desce com uma luz que desmaia, mortiça, e vai cair longe, nos olivais, sobre a relva coberta de geada. Não há perigo de incêndio. De súbito, a Família sente o frio e torna a casa, levando entre os braços, entre os anéis, entre os tentáculos, a Criança que não pudera ajudar a lançar o foguete. O interior da cozinha arrefeceu. A Avó atira uma mão-cheia de aparas, e o lume hesita, escolhe o lado mais acessível da lenha e, mansamente, recomeça o seu trabalho de destruição. 

A Família gira em redor da mesa, com muitos rostos corados e sorridentes, que têm nomes mas são, antes de tudo, para a Criança, os Pais, os Avós, os Tios, os Primos — um corpo de animal complicado que lhe lembra a história da Bicha-de-Sete-Cabeças Deste Mundo e do Outro 17 ou o Dragão-Que-Não -Dorme. Sobre a mesa há, neste momento, uma batalha de mãos, de dentes, de mastigação que deforma os rostos. Contam-se casos, anedotas, todos riem. O frio está lá fora, e a geada, e a noite impenetrável. A Criança anima-se, já esqueceu a decepção, para o ano talvez a deixem lançar o foguete sozinha. Tem também uma história para contar, e vai contá-la. Só está à espera de uma pausa, de uma ocasião em que todos se calem, para ajustar a sua pequena e trémula voz, porque a história é importante, muito mais do que a Família julgaria. Então, o momento aproxima-se, a Criança prepara-se, é agora — começa a falar. A Família olha, espantada, dá a atenção que pode, mas não dura muito, não pode durar, e alguém corta a narrativa com uma frase que faz rir toda a gente. Uma frase que vai fazer chorar a Criança. 

Porque a Criança levanta-se da mesa, abre a porta, separa-se da Família e desce os três degraus que conduzem ao mundo. Ali adiante há um muro caiado, baixo, assim como uma varanda que desse para terras desconhecidas. A Criança vai debruçar-se sobre o muro, deixa cair a cabeça sobre os braços cruzados, e sente desfazer-se dentro de si o terrível nó das lágrimas. Da casa vêm risos e vozes, alguém fala muito alto, e depois ressoam gargalhadas. Está muito frio. O céu é alto e profundo. Visto dali parece feito de veludo negro, se fosse possível chegar-lhe com a mão. E há as estrelas. Duras, nítidas, implacáveis, quase ferozes. A Criança levanta os olhos. Lá estão elas a brilhar. Vistas através das lágrimas são diferentes. Que mundo estranho, este. Sob os passos da Criança, o chão estala. E, em frente, as árvores negras, vagamente assustadoras, tomam o ar confidencial de quem conhece os segredos todos.

Saramago, in crónicas "Deste Mundo e do Outro"

18 dezembro, 2021

UM ACONTECIMENTO REAL (COM SABOR A CONTO DE NATAL)


Como frequentemente acontece, cruzei-me com ele na escada. Desta vez ia ele de saída. Sorri-lhe, saudei a mãe e afaguei o cão. Ele olhou-me, sério, com um ar entre o tímido e o curioso. Levantei a mão à altura do ombro dele e pedi-lhe, "Dá-me cinco!"

Como sempre acontece, ele fixou-me, esperou um momento e, sem alterar a expressão, correspondeu ao pedido esboçando um pequeno sorriso, o sorriso de sempre.

Foi então que interroguei a mãe: "Tem a cópia da minha chave de casa à mão?, deixei a minha lá dentro... esta cabeça já não é o que era..."

Ela já não se lembrava da cena, repetidamente acontecida, de habilidades antes colocadas para, sem forçar a fechadura, me abrirem a porta. Tantas as vezes acontecera que, a prevenir futuros desesperados, mandara fazer cópia e entregá-la à sua fiel guarda, para o que desse e viesse. Fez-se-lhe um clique e lembrou-se "Ah, sim. Subo lá acima e já lha trago! Deixo consigo o António, não demoro!" e subiu correndo...

Olhei o menino, pouco habituado a ficar sozinho comigo e percebendo o desconforto iniciei o improviso, devagarinho, com voz sincopada: "Era uma vez" e como por magia, em resultado daquela expressão que já antes ouvira, o rosto iluminou-se, e continuei "Era uma vez, um menino pequenino, pequenino" e coloque a minha mão a uma altura que era a dele. "Depois, o menino foi crescendo, crescendo, crescendo". À medida que o ia dizendo, minha mão ia subindo, subindo, subindo até ficar à altura da minha cabeça. "Já crescido, o menino ficou forte, forte, forte, mas com pouco juízo e usava a força só para fazer maldades, partia tudo, arrancava árvores"... aí o António levantou o dedito e sentenciou: "Num fajisso! Num fajisso!"

Surpreendido, atalhei, "Sabes António? Toda a gente lhe disse o que acabaste de dizer e ele nunca mais voltou a fazer. Hoje ele é bom, muito bom!"

Entretanto, a mãe chegara e assistia embevecida.  Estendendo-me a chave, confirmou o que já eu entendera. Ele ama uma boa história. E a mim próprio prometi vir a contar-lhas...

17 dezembro, 2021

HOJE, SINTO-ME CAUSÍDICO...

 Quem não off-chora não mama. Mamaram, mamaram e agora cantam... mas quem assim canta seus males não espanta, esperemos que a justiça se faça, ela que sempre tarda...

Partindo do principio do universal conhecimento do tema, dos personagens em causa e passando agora a falar  mais a sério... não se precipitem concluindo, levianamente, que a justiça funciona. Há coisas que funcionam, outras não. Por exemplo, o Ministério Público não anda mal de todo mas o resto... esqueçam! Não percebem? Segue ajuda:

«Associada ao poder directamente decisório do Juiz (ou dos juízes, no caso de um tribunal colectivo), está a função do Ministério Público, que auxilia na concretização do poder judicial, designadamente na busca da verdade, na defesa do Estado e na investigação dos factos.»


14 dezembro, 2021

A MARCA QUE A EUROPA DEIXA NA HISTÓRIA ou COISAS DE QUE NINGUÉM FALA

Depois do que Jerónimo diz da Europa e depois do que disseram Saramago e o Papa Francisco eis senão quando alguém vem falar sobre a marca que a Europa deixa na História...

13 dezembro, 2021

TERTÚLIA? NÃO, NÃO ERA BEM!


Não era bem uma tertúlia, mas foi lhe dada tal designação. Fui convidado a apresentar uma ideia para um projecto e correspondi ao pedido. Se a ideia teve agrado? É cedo para dizer. 

Habituado a ler expressões não verbais, não concluo nada... e vós? Que vos parece? Será que vendi o meu peixe?

(A senhora lá de cima, sorridente, não conta. O peixe vendido também é pesca dela)

12 dezembro, 2021

HOMILÍAS DOMINICAIS (Citando Saramago) - 111 ["Meditação sobre uma jangada"]

Quando em Outubro, antecipando o anúncio ao regresso a estas homilias, escrevia ir trazer Saramago para a campanha pensei imediatamente neste tema. E é isso mesmo o que venho fazendo, até mesmo quando, na anterior homilia, dei a palavra ao Papa Francisco. O tema? A Comunidade Europeia, claro!

HOMILIA DE HOJE

 «(...) Suponho que estamos vivendo o tempo em que a Europa deveria apresentar a juízo o balanço da sua gestão, 

(...) o seu pecado ou vício maior, que é a existência de duas Europas, a central e a periférica, mais o consequente lastro histórico de injustiças, discriminações e ressentimentos.

(...) Ora, não haverá no futuro próximo uma nova Europa se esta não instituir frontalmente como entidade moral, e também não a haverá se não for abolido, mais do que os egoísmos nacionais, que quantas vezes não passam de meros reflexos defensivos, o preconceito da prevalência ou da subordinação das culturas. 

(...) Nenhum país, por mais rico e poderoso que seja, deveria arrogar-se uma voz mais alta. E, já que de culturas venho falando, também nenhum país ou grupo de países, tratado ou pacto, deveria propor-se como mentor ou guia dos restantes. 

(...)Porque, enfim, se de mim se espera que ame a Europa como à minha própria mãe, o mínimo que devo exigir-lhe é que ame a todos os seus filhos por igual e, sobretudo, que por igual os respeite a todos.»

Meditação de Saramago, aqui

11 dezembro, 2021

DIÁLOGOS COM A MINHA PRÓSTATA - VII (EM QUE ELA FICA A FALAR SÓZINHA)

Eu (saindo, sem bater com a porta) - Olha menina, vou ficar todo o dia ocupado e hoje não há diálogo!
Ela (a próstata) - Andas sempre num lufa-lufa... Então toca-me a mim dar a notícia. (depois, com voz amuada) Por ser boa, devia ser ele a dá-la. Na consulta, ontem, o médico ao ver na análise a descida vertiginosa do PSA, saiu-se com esta:
"Meu caro Rogério, ainda é cedo para lançar foguetes, 
mas julgo que tem garantida a festa, volte em Abril" 

CONTINUAR A LER

09 dezembro, 2021

PALAVRAS PARA QUÊ?

 Sim!, palavras para quê? A luta está aí, onde ideias ficam para um plano de que poucos se darão conta. 

Resultado? Resultados só no fim!

08 dezembro, 2021

A UMA PEQUENA CRIANÇA, CONTE SEMPRE! LER PODE SER CONTRAPRODUCENTE...

O conto de ontem mereceu um ou outro comentário que ia no sentido de nos interrogarmos sobre se a história, pela carga semântica, seria compreendida pelas crianças, dada a reconhecida limitação de vocabulário. Limitação que é normal, até mesmo em alunos do 2º ciclo. De acordo. Na idade tenra, conte a história por palavras suas, mas tente, tente sempre, dar a ler. O amor à leitura deve ser estimulado. Meu avô nunca me leu uma só história mas foi ele quem me deu o meu primeiro livro.

Ah, e enquanto conta, meça as reacções.  Segue um exemplo do então contado se tivesse lido, "não me ligaria  puto".---

A PARTIDA...
Contei a meu neto Diogo a viagem de 33 mineiros, tendo o cuidado de lhe explicar tim-tim-por-tim-tim o que era essa gente e onde ficava o Chile. Depois contei que todos saíram de casa para uma viagem, quase sempre dolorosa mas necessária e, porque a rotina a tudo habitua, terão saído contentes para a rua que os encaminhava à mina de San José. (Diogo acho que percebeu, pois seu pequenito nariz torceu). Continuei a contar a viagem para a mina que, sendo curta a descrição, me obrigou a pormenorizar as cenas de trabalho. Estavam todos eles nessa faina, quando de repente, acontece o acidente (até parecia que era ao Diogo que acontecia, tal era a expressão que ele fazia). Alerta geral. Estão bem? Estão mal? Às notícias de sobrevivência, a incerteza do salvamento... (Diogo de apreensivo passou a expressão de algum espanto a uma outra, de inquietação)...
--
A CHEGADA... (e as tais razões de felicidade)
Expliquei então a enorme mobilização. Esforços daqui e dacolá. Juntaram-se tecnologias e rezas, cantares e engenharias, para dar a toda a gente um regresso e as maiores alegrias (de espanto era a expressão quando entendeu o que foi tal mobilização). Depois deu-se o regresso e a desejada chegada, por todos festejada. O que me fez feliz? Tudo... e a cara do meu petiz... (claro que há outras coisa para além da viagem. Mas estas, não se contam a crianças...). Acabada a história, ouvimos juntinhos o Hino dos Mineiros, dos nossos, tão esquecidos (clicando no vídeo aqui)... 
 
(Reeditado)

07 dezembro, 2021

"O AVIÃO DE PAPEL" (fim do conto prometido)



Menino voltou a tocar à campainha, mas a porta não se abria. Depois, bateu, bateu, mas ninguém atendeu. "Foram às compras de Natal, não devem tardar", pensou e sentou-se no degrau de entrada disposto a pacientemente esperar. De quando em quando ia olhando o seu avião de papel que alguém, de quem o nome nem sabia dizer, lhe dera. Na espera, ia relembrando a viagem quer a ida quer a volta. Sem perceber tudo o que vira nem o que o velho triste lhe dissera, de repente tomou consciência que tinha viajado ao futuro.

Estava ele nessa, quando ouviu grande alarido, ao fim da rua, vinha um grupo correndo de braços abertos e mais atrás outro grupo mais numeroso. No primeiro grupo vinham a avó, o pai, a mãe, a vizinha do lado, a da frente e a empregada da pastelaria, gritando meu filho, meu filho. O grupo mais atrasado avançava calado.

Matias correu ao seu encontro e foi indescritível a cena de eufórica alegria do reencontro. "Onde andaste?, durante toda a tarde ninguém te viu!..." perguntou o pai sem qualquer censura na voz, e continuou, "Fomos mesmo agora à polícia, julgávamos que te tinham levado!"

Matias, então, contou tudo tim-tim-por-tim-tim, com palavras simples e explicitas. À volta, câmaras de televisão, dezenas de jornalistas iam anotando. No fim, era visível a cara de espanto desenhada em todos os rostos. Não paravam as exclamações "Incrível!", "Que coisa inacreditável", "Meu Deus!"

Matias, percebendo que muitos não acreditavam no que estava contando, lembrou-se de tirar do bolso a mensagem que entregou à avó que de pronto a leu, sendo transmitida em directo, por dezenas de rádios e televisões de todo o mundo.

E era assim a mensagem escrita, com letra bem desenhada,  sobre o papel rasgado da cauda do avião, que, qual testemunha, jazia no chão exibindo o rasgão...

Dedico este conto à Lídia Borges (da Seara de Versos) e aqui lhe peço para dar um beijinho meu ao seu neto, a quem mais dia menos dia lhe contará esta história, à sua maneira...

06 dezembro, 2021

"O AVIÃO DE PAPEL" (continuação do conto prometido)

Nos primeiros momento do voo, Matias teve medo. Passado o medo, veio um sentir agradável a que se juntavam os chilreares de pássaros que em bando iam passando, depois as nuvens acenavam ao menino, sorrindo e os raios de sol beijavam-o ternamente. Ele, continuava agarrando o avião de papel, de mão bem firme, até que lhe veio o desejo de melhor posição. E se bem o pensou, melhor o fez. Contou, um, dois, três, e pimba, saltou-lhe para cima mas... agarrado à mão, rasgado, veio um pouco de papel da cauda do avião. Este, ziguezagueou um pouco, mas lá retomou o rumo, enquanto ele metia o papel no bolso.

Melhor acomodado, olhou então para baixo... e que linda era a terra, vista de cima. Como era tão verde. Ah! e o mar... o mar tão azul. Ia olhando, maravilhado o Matias até que deu que a cor lentamente, muito lentamente se ia alterando, alterando, alterando e, em pouco tempo, o que era verde se tornou barrento e o azul marinho tomara uma cor estranha. Não teve nem tempo para se assustar pois sentiu que o avião de papel começava a descer, muito devagarinho, muito devagarinho.

Percebeu que tinha chegado ao ponto alto pelo velho que lá estava. A figura era como a vovó lhe contava, mas de neve e gelo, nada. Pelo número de vezes que a vovó lhe repetira a história do "Senhor Inverno", Matias não tinha dúvidas. Era aquele o local e a barba do velho era tal e qual. 

O velho acenou, para que se aproximasse. Ele saltou do avião e logo fez a pergunta, sem cumprimentar, "Onde está a neve?, estamos próximos do Natal... onde está? Queria brincar, fazer um boneco". O velho, afagou a barba e esboçou um sorriso triste, tão triste, tão triste, que Matias se espantou por ver tanta tristeza num rosto só.

E foi com esse ar de tristeza que o velho deu conta de como a neve tinha desaparecido há muito, há tanto, tanto, que a vida de um ser vivo só 30 vezes repetida é que daria para dar a ideia de há quanto tempo a neve desaparecera... "Eu, tenho trezentos anos!" 

Matias, não tinha a mínima ideia dessa medida do tempo. E o velho continuou "E trezentos anos foi o tempo que levaste no voo que te trouxe até mim... Na viagem foste olhando o mundo? Viste como o verde das florestas, matas e canaviais foram dando lugar a terra sem vida, barrenta? Viste como a água do mar se tornou turva, de cor escura, onde nenhum pescador pesca um só peixe? Eu tenho trezentos anos e tu fizeste uma viagem no tempo... volta, volta depressa, a consoada não tarda!"

Matias não tinha percebido nada do que lhe acontecera nem o que acontecera ao mundo. Confuso, não fez qualquer pergunta. O velho voltou à fala apontando-lhe o bolso "Dá-me esse papel que guardas, quero mandar à tua família uma mensagem" 

Depois da criança lhe estender o papel, rasgado da cauda do avião, o velho escreveu, escreveu, mandou guardar o recado bem guardado, pegou-lhe ao colo e foi colocá-lo no avião de papel para depois o lançar, na viagem de regresso.

De volta, Matias viu tudo o que vira, voltou a ver mas ao contrário.  O mar, foi voltando à cor azul e a terra verdejou, os pássaros voltaram a chilrear, as nuvens piscaram-lhe o olho mas o sol já se tinham escondido e foi o luar que o veio beijar.

Sentiu então o avião de papel a descer, a descer direitinho a um lugar bem familiar, à rua que logo reconheceu e tal reconhecimento o encheu de uma alegria que há muito não sentia. Saltou do avião, que tinha parado mesmo à porta que bem conhecida e, pondo-se em bicos de pés, tocou à campainha!

Leia, aqui, o fim feliz


05 dezembro, 2021

HOMILÍAS DOMINICAIS (Citando Saramago) - 110 [passando a palavra ao Papa]

Passar a palavra ao Papa, quando ela tem sido sempre dada a Saramago, parece de um oportunismo de mau gosto, pois, para a grande maioria dos católicos, o nosso Nobel é um militante herege. Para o tema da homilia de hoje, parecia fazer sentido  trazer também palavras de uma intervenção a propósito da evocação da Fuga de Caxias de militantes comunistas, mas tal se traduziria num desequilibrado protagonismo. Conhecer a citação de Saramago é uma opção sua. Desde já, passo a palavra a Francisco.

HOMILIA DE HOJE

"A democracia nasceu na Grécia e não se pode deixar de notar com preocupação como hoje, não só no continente europeu, há um retrocesso da democracia"
 
"O autoritarismo é expedito e as promessas fáceis do populismo são apelativas. Em muitas sociedades, preocupadas com a segurança e anestesiadas pelo consumismo, o cansaço e o mal-estar estão a conduzir a uma espécie de cepticismo democrático. Precisamos passar do partidarismo à participação, do mero compromisso de apoiar a própria facção ao envolvimento activo para o crescimento de todos"
 
"Este país, caracterizado pelo acolhimento, viu chegar um número maior de irmãos e irmãs migrantes em algumas de suas ilhas do que os próprios habitantes, aumentando assim os problemas, que ainda são afectados pelas dificuldades trazidas pela crise económica. Os atrasos europeus persistem e a Comunidade Europeia, rasgada pelo egoísmo nacionalista, em vez de ser um trem de solidariedade, às vezes se mostra bloqueada e descoordenada"
Papa Francisco, aqui

04 dezembro, 2021

O conto prometido "O AVIÃO DE PAPEL"


Ele comprara o jornal e sentou-se na esplanada no lugar em que sempre se sentara. Sem se afundar na leitura, ia percorrendo as páginas até que encontrou um título de merecido interesse. No preciso momento em que ia começar a lê-lo, teve a impressão de que estava sendo vigiado. E estava. À sua frente um menino olhava-o. Ele respondeu-lhe ao olhar e durante um longo minuto, ali ficaram, olhando-se um ao outro. Até que ele perguntou ao menino, depois de o saudar:

- "Olá!, de onde vens tu e como te chamas?"

- "Olá!, venho de Fredrikstad e meu nome é Matias!" e sem esperar mais palavras acrescentou "Como posso ir àquela casinha no cimo da montanha muito alta. Onde vive um velho, já muito velho, com barbas longas e brancas, que a vó-vó conta lá estar naquele conto de inverno, que é de encantar"

- "Sabes contar-me o conto?" e, Matias, abanando afirmativamente a cabeça, contou o conto todo. Enquanto Matias o ia narrando, ele dobrara uma folha do jornal, depois voltou-o a dobrar, fez outra dobra, e outra e outra. Conto contado e ele acabara o trabalho, mostrando-o ao garoto que mostrou um sorriso largo no rosto. 

- "Que é isso, tão bonito?"  

- "É um avião. Um avião de papel, mas é um avião especial. Podes lançá-lo e ir com ele. Nem precisas pilotá-lo pois ele sabe levar-te à casinha da montanha muito alta. Podes ir conhecer aquele velho, personagem do conto "O Inverno", e ele que te conte de viva voz, como é o inverno do seu encanto, porque é que a neve é da cor da sua barba, porque vive só e porque o céu é tão azul, e outras coisas que só os velhos muito velhos sabem explicar!"

- "E como posso aqui voltar?"

- "Da mesma forma como partes. Quando quiseres regressar, lança o avião e agarra-o bem firme na tua mão!"

Matias, primeiro experimentou lançando e largando. E o avião de papel voou longo, planou e lentamente pousou. Matias ganhou confiança, voltou a lançá-lo sem o largar. E aí, voou, voou, voou, até se perder de vista, penetrando no céu azul.

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03 dezembro, 2021