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05 novembro, 2010

Caminhos do Meu Navegar - Prefácio

Quando estas palavras passarem à forma mais querida, a de um livro de folhear, daqueles que ocupam espaço, terá uma dedicatória. Neste rascunho, apenas relevo a intenção de o dedicar à Teresa (minha eterna namorada) às minha filhas (João, Sandra e Andreia) e aos meus netos (Marta, Miguel, Duarte, Diogo e à Maria).--

Dedicar-lo-ei ainda a todos os meus leitores que nesta fase decidam comentar estes "manuscritos" semanais. O que acharem por bem dizer, será de algum modo integrado na versão definitiva daquilo que humildemente não rejeito em chamar obra. Seria interessante que eu tivesse a capacidade de diálogo com quem me segue e que o trabalho final pudesse ser um livro colectivo... um livro de quem aceitou navegar pelos meus caminhos ou que me deu os detalhes importantes dos lugares e das gentes. Seus nomes serão registados e seus contributos terão o meu mais profundo reconhecimento.

PREFÁCIO PROVISÓRIO

Escrever o quer que seja, por quem ao longo da sua vida profissional fez da escrita uma narrativa burocrática sob a forma de relatórios, frequentemente destinados ao fundo da gaveta de administradores perdidos na sua incompetência, não será tarefa fácil. Mas como o que custa é o que deus agradece, peguei no desafio. Este prefácio é provisório (o definitivo será a reformulação deste, adequando os seus termos àquilo que a obra final determinar):

ENREDO – “Caminhos do Meu Navegar” não é projecto de um futuro romance, nem será um desfilar de contos, nem de alegorias. Será uma reconstrução de memórias? Será uma sucessão de crónicas e de reflexões? Será uma tese sobre a sobrevivência da alma? Será tudo isso sem trama de personagens urdida em torno de um qualquer fio de história. Estive para lhe dar um subtítulo, “Ensaio sobre o que eu poderia ter sido e feito, se a barca não errasse o destino”. Mas por enquanto não o quero assumir. Até poderei ainda vir a utilizar essa expressão como um título. Fica a incerteza e a intenção. Pode ser que sim, pode ser que não…

OS CAMINHOS – As viagens sobre as quais vou escrever, estão no mapa. São viagens impostas e não escolhidas de entre a oferta turística para destinos de veraneio ou de cultura. São viagens impostas por desígnios que outros consideraram sem me ouvir, replicando-se, assim, a viagem que conduziu à minha própria existência (“eu nem se quer fui ouvido no acto de que nasci”). Não farei reclamações por ter sido introduzido por esses caminhos pois, como parece ter ficado claro, encaro normal no meu passado que me tenham condicionado horizontes. Outra coisa é a forma de navegar. Aí sim, tenho responsabilidades. Sobre como o fiz, o que fiz e o que deixei de fazer. Significa então a minha aceitação por imposições externas na direcção que deve seguir um homem? Sou contrário ao princípio de que cada um deve poder escolher o seu caminho? Claro que não. Mas escrever sobre isso seria escrever sobre a utopia. Não sei se o farei ou se guardarei para outro dia…

OS PERSONAGENS – Escrevi um dia que o ser humano é, como tudo o que é vida, ele próprio (tese) e o seu contrário (antítese). Aquilo que é e vai fazendo resulta desse conflito entre ele e um outro ele (síntese). É esta dialéctica que explica que um poeta pode até ser um ser execrável e hediondo. É essa lei materialista que explica os comportamentos da incoerência entre aquilo que gostaríamos de ser e aquilo que realmente somos, entre aquilo que dizemos e o que fazemos. Entre cada um e o seu contrário existe, assim, um conflito permanente que é moderado por algo muito complexo e que não me atrevo a definir. Chamar-lhe-ei alma, por facilidade de expressão. Não sei se deram conta, mas estes são os personagens permanentes: Eu, o Meu Contrário e a Minha Alma. Estes três personagens terão actores secundários, de entre gente dos três continentes: mouros, pretos, índios, mestiços, falsos brancos, brancos muito atravessados e brancos propriamente ditos, com “pedigree” e tudo. Enfim, todos os que poderiam povoar uma verdadeira "bacia cultural atlântica", para usar uma expressão do inspirador desta minha escrita, José Saramago.

PALAVRAS FINAIS - A escolha das sextas feiras para editar estes textos semanais não é por isto ou por aquilo, é por uma razão muito simples: a primeira das viagens dos “Caminhos do Meu Navegar” foi iniciada em 12 de Julho de 1969, uma sexta-feira.

“Navegar, Navegar, até alunar (destino Angola)" na pág. seguinte

06 dezembro, 2010

Caminhos do Meu Navegar, agora noutro lugar...

Três razões me levaram a mudar a escrita do meu livro virtual para outro lugar:

- Este espaço precisa de retornar aos objectivos para que foi criado, dentro dos principios que enunciei para aquilo que considero acção cívica

- O livro carece de informação adicional e que não quero integrar no texto. Este espaço já não tem condições para alojar mais informações

- Algumas passagens do "... Meu Navegar" poderão suscitar interesse de professores e outros educadores pelo que achei dever isolar o texto do livro de outros conteúdos menos apropriados

PASSAR A LER O MEU LIVRO NO MEU NOVO BLOGUE "CAMINHOS DO MEU NAVEGAR"

25 novembro, 2010

"Caminhos do Meu Navegar", a ler amanhã , 6ª feira...

... e a partir de amanhã, também às segundas e quartas feiras, passarei a publicar páginas do meu livro, onde os meus três personagens principais trarão para os tempos de hoje a memória explicada de como eles se foram inconformando ao longo de percursos que nos dão história. Acelero assim a marcha, respondendo a inúmeras solicitações. Para já, dou destaque ao comentário do querido amigo Carlos Albuquerque, não só pelas palavras de incentivo, mas fundamentalmente por ter andado pelos mesmos lugares, vivendo situações certamente semelhantes. Escreveu ele:

"Mas eu sabia, caro Rogério, eu sabia!
Sabia que os seus "Caminhos do Meu Navegar" nos haveriam de pôr a bordo,na barca das suas "viagens", levando-nos na aventura em que está a transformar-se a leitura do que escreve. Escrita a um tempo empolgante, crítica, mordaz e criativa, fugindo ao convencional, trazendo para o presente, quer o passado como o futuro! É inegável que Saramago o está a acompanhar. Escreve, portanto, na melhor companhia.
Espero, expectante, por Maquela do Zombo. Como já lhe disse estive na Buela, indo algumas vezes a Maquela do Zombo. Não sei qual foi o seu itinerário, o meu foi por aqui: Luanda/Caxito/Ambriz/Ambrizete/Tomboco/São Salvador/Cuimba/Buela. Daqui por vezes ia a Maquela, mas, quase sempre, descia até à ponte do Rio M'Bridge a socorrer tropas chegadas da "Metrópole", por regra ali emboscadas.

O meu trajecto faz parte dos pesadelos. Quando deles acordamos fica-nos a estranha sensação de um sonho mau que a memória, defensivamente, esquece. Eu não me lembro de grande parte da viagem de Luanda a Maquela do Zombo. Falarei daquela que a memória ainda regista.

Até amanhã

19 novembro, 2010

Caminhos do Meu Navegar (2)

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Cap I - Destino Angola

Navegar, navegar até alunar (continuação)
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4 – Senhora do Mar - A amurada do Vera Cruz era o meu lugar de eleição. Desde a saída da barra do Tejo, ficava ali. Perdia tempos incontrolados olhando o mar. Denso, forte, profundo, azul, feito de caminhos e horizontes. Por ser assim, só uma alma o poderia domar. Alma Lusa? Foi, em tempos. Não, não sabia quem mandava no mar, mas seria mulher com certeza. Sim, uma mulher. A Senhora do Mar, sua amante e mãe de todos os nossos destinos, mesmo dos inúteis e dos adiados (que ainda hoje espero que se cumpram).
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5. O pior dia da viagem - Saí da amurada e enquanto ia andado pensava que os dias tinham corrido depressa. Dirigi-me à minha ocupação voluntária e ao desejado reencontro com a Rita. Cheguei ao posto médico que estava cheio de soldados nesse quarto dia do meu navegar. Soube então que nas últimas horas tinham quintuplicado os enjoos e apareceram os desarranjos intestinais dos mais sensíveis. À aproximação do Golfo da Guiné, ventos e altas vagas pareciam enraivecidos, mais pela missão dos homens do que pela rota do navio, segundo me elucidou a Senhora do Mar, que sem saber como me acompanhara sem ser sentida nem vista. A comida a bordo tinha-se sofisticado de molhos e temperos, para esconder a já pouca frescura dos géneros ou o mau funcionamento de uma ou outra câmara frigorífica. Os cabos enfermeiros esforçavam-se para atender a todos e eram muitos os que seguravam a barriga como se, com esse gesto, pudessem suster fezes e gases nuns intestinos tão alterados quanto o mar. A cena até poderia ser cómica, com dezenas de militares parecendo “charlôs” em dança bamboleante ao ritmo das ondas de mar alto, se não fossem as feições de esgar e agonia, postadas naqueles rostos preocupados em procurar equilibrar corpos e almas. Quase tudo se esfumou quando a Rita apareceu, mesmo sem ter sido chamada. Olhares de espanto pelo aparecimento de uma mulher a bordo. Sorrisos apareceram, embora amarelos e mal esboçados, inundado todas as faces. Tentaram recompor-se o mais que podiam, mas não podiam muito. A Rita, percebera que seu aparecimento fazia parte da cura e para todos sorriu dizendo, em voz que não lhe esperava “Eh, pessoal força ai que isso já passa!” e passou. Não foi logo, logo, mas passou, quando o navio entrou então no Golfo. O resto da viagem seria de grande calmaria pois a Senhora dos Mares tinha desistido de por tino na cabeça dos homens. Talvez por perceber que aquele navegar era obrigado, por decisores que ficaram em terra firme…

6 – As frustrações de Rita (*) – A azáfama de tratamento a tão malcheirosa e contorcida clientela tinha envolvido todos, designadamente a Rita. Enquanto ela distribuía cuidados e sorrisos eu ia dizendo uma ou outra graçola amenizando o ambiente pintando com algum humor o ar empestado, o que até caia bem. Talvez por isso a Rita passou a dedicar-me mais atenção. A Minha Alma guiava todos os meus gestos e palavras mantendo a Rita em apertada vigilância, coisa que Eu e o Meu Contrário também fazíamos mais discretamente. Quando tudo ficou mais calmo, lisonjeei a Rita: “Você aparece e zás, vai-se embora a maleita, quase sem receita”. A Rita, deu uma gargalhada pela piada rimada “Pois é furriel, quase só sirvo para isso…”. Aquela resposta, intrigando-me, fez assunto para horas de conversa. A Rita contou como fora aliciada para os pára-quedistas, suas perspectivas de heroína e sacerdócio, sonhos de anjo salvador em teatro de guerra. Contou como depois tudo foi diferente: hierarquias militares de comportamento mulherengo e ordinário; soldados respeitosos mas de má educação contida; operações de faz de conta pois os comandos militares sempre recearam que a sua presença poder espevitar o inimigo. Como militar era uma mulher de movimentos limitados. Nas evacuações de feridos nem a deixavam sair do helicóptero, com tais receios. As mulheres na guerra colonial eram assim como que um “Movimento Nacional Feminino” fardado, integrado em unidades que ficavam pelas cidades e sedes de batalhão convivendo com as famílias dos oficiais mobilizados. Nunca a interrompi escutando atentamente. Enquanto a Rita falava, a Minha Alma acariciava-lhe o rosto delicado e firme e de pele muito morena, certamente de moura algarvia ou do meu Alentejo. A atenção dada às palavras não impedia que Minha Alma, despercebidamente, lhe percorresse o corpo enfarpelado nas vestes de pára-quedista adivinhando-lhe contornos femininos bem delicados. Num dado momento senti que a voz da Rita se comoveu por entrar em confissões até para si própria inesperadas. Pegou-me na mão e pediu que a acompanhasse. Hesitei e Minha Alma segredou-me “vai, ela precisa de ti. Está muito fragilizada”. O meu contrário pensava o mesmo e eu deixei-me conduzir. Percorremos a curta distância entre o posto médico e o camarote dela. “Entra” e eu entrei. “Fica à vontade”, disse. Eu limitei-me a tirar as mãos dos bolsos, sem depois saber o que lhes fazer. Minha Alma repetiu-me “cuidado Rogério, ela está fragilizada”. O Meu Contrário, sempre consciencioso, surpreendia-me com palavras ofensivas “és um tosco, um atado…”. Percebendo-me melhor a mim que eu a ela foi dizendo: “Estou recomposta, fica mais um pouco e depois sai e não voltes mais. Acabas de dar um contributo valioso para a minha má reputação”. Depois de uma breve pausa, explicou-se “quando apresentar a demissão aceitá-la-ão sem reservas e a má fama não importa nada… ”. Fiquei uns minutos, folheando o livro que ela tinha aberto sobre a cama e depois alguns discos, cujas capas reconheci. Cantares clandestinos reclamando outros destinos. Saí sem dizer palavra, fazendo-lhe com os lábios um gesto de beijar e em troca deu-me um sorriso. Cá fora, olhares maliciosos comentavam o que não tinha acontecido. Não desfiz o equívoco e apressei o passo. Minha Alma ia radiante pois eu tinha ajudado a Rita a fazer retorno de um caminho mal escolhido…

7 – O gado seria melhor instalado - Dividindo o tempo entre a amurada e o posto médico e com o mar muito calmo, o tempo passava rápido e o calor intenso e abafado adivinhava a proximidade do fim desta viagem. Fumava um cigarro quando o cabo Quintas se aproximou. Vinha sem a Sua Alma e totalmente tomado pelo Seu Contrário. “Pois é!” disse. “Pois é, o quê?”. “Vocês têm todas as regalias a bordo, circulam por onde querem, tem salas de jogos e eu, se estou aqui, até posso levar uma “porrada”. Quer ver as condições em que nos trazem?”. “Vamos lá” disse acompanhando-o atrás. Descemos três lances de escadaria. O ar ia escasseando à medida que um cheiro nauseabundo e indescritível se intensificava. Dei mais uns passos e entrei por uma porta baixa, meio inclinado atrás do Quintas. “Veja só”. Vi para não mais esquecer. Beliches construídos em paus de pinho, com pouco mais três palmos entre cada cama e a superior. A má iluminação de toda aquela área do porão não deixava ver a última fiada de camas. O cheiro de corpos mal lavados misturado com o que me parecia serem cheiros de restos de comida estavam ampliados pela falta de ventilação e pela avaria dos ozonizadores. Eu não disse nada, apenas se fez claro como é que um navio com capacidade para mil passageiros, transportava três mil militares. Meu Contrário comentou tão baixo que nem o Quintas ouviu: ”Com estas condições se tivesse que haver revolta, ela já teria acontecido”. Minha Alma não comentou, acho que nessa altura chorou…

8 – A alunagem – Dia 20 de Julho seria um dia histórico para a humanidade, mas também para a desumanidade. Eu e o Meu Contrário não conseguem lembrar todos os pormenores desse dia. Mas a Minha Alma tem memória selectiva e recorda todos os momentos sensíveis da aproximação a Luanda, capital da Província Ultramarina de Angola. A manhã estava particularmente agradável e ia aquecendo intensamente com o passar das horas. Fora convidado para jantar na messe dos oficiais tripulantes. Não referi antes, mas a partir do terceiro dia deixei de tomar as refeições principais no refeitório de sargentos e passeia-as a ter na companhia do oficial, que tinha a seu cargo a casa das máquinas do navio Vera Cruz. Era um bom amigo, vizinho e visita cerimoniosa de meus sogros insistiu para me dar do melhor quer em comida quer em conversas que se prolongavam sempre que a actividade de bordo o permitia. À hora da janta lá estava. O menu, fora escolhido por mim “Sopa do Fogo”(**) regada por bom vinho. O jantar foi animado e todos seguíamos as notícia do rádio que começou a reportar a alunagem seriam 8 horas da noite até que o feito era assinalado horas depois e já cerca das 3h da manhã com palavras de Neil Armstrong: “Este é um pequeno passo para o Homem. mas um grande salto para a Humanidade”. Irónica, a Minha Alma dizia-me ao ouvido. “Mais logo, com este desembarque, a humanidade dará mais um passo atrás!” Irónico eu também, pensava brincando com as palavras: “Se a Lua anda, se calhar Luanda não estará lá para este alunar…”. O Meu Contrário, se conhecesse Saramago teria feito um trocadilho com uma sua reflexão: “Chega-se mais facilmente a Marte do que ao nosso próprio semelhante”. Poucas horas depois pisava terras da Lua Anda. Chegara não ao fim mas ao inicio de outro caminhar, sem pensar que se teria ou não regresso…

Próximo subcapitulo: Zombando, rumo a Maquela do Zombo
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NOTAS DO AUTOR

(*) O texto "As frustrações de Rita" reproduz o testemunho de uma paraquedista que na realidade conheci a bordo. Procurei-a, pelo seu verdadeiro nome porque, por vezes, é fácil reencontros na web. Não vi qualquer mensão ou foto. Sobre a veracidade de algumas das suas declarações, encontrei neste documento e também neste, afirmações muito próximas e que, no essencial, comprovam as suas frustrações.
(**) "Sopa do Fogo" é uma espécie de sopa rica de couves, carnes e enchidos cozinhados no vapor das caldeiras do navio e que frequentemente serve de refeição ao pessoal de turno na "casa das máquinas" do navio.

29 novembro, 2010

"Caminhos do Meu Navegar" (4)

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Cap II - Por terras de Angola

Afinal o destino estava para além de Maquela(*)




13 – Maquela do ZomboChegámos. A coluna militar atravessou lentamente a vila. A viagem durara pouco mais que 7 horas até ai chegar e dirigiu-se ao quartel, sede do batalhão, passando por entre sorrisos e acenos da população que apareceu nas ruas da vila. Minha Alma respondia, eu não. Pessoas brancas trajando civilmente e alguns militares distribuíam-se pelas entradas de edifícios cujo uso não residencial se percebia pela fachada e pelos anúncios pintados, uns nas frontarias outros em tabuletas improvisadas. Muitas mulheres pretas coloriam as ruas vestidas de cores garridas, parecendo terem sido postas ali com a missão de nos receber com uma alegria obrigada ou postiça. Minha Alma surpreendia-se, eu não. O casario de piso térreo e os arruamentos, cuja disposição não descortinei, engalanavam-se de verde em contraste com os tons levemente avermelhados da terra, lembrando a terra sena (ou terra de siena?), cor dominante das picadas que nos conduziram até lá. Palmeiras e mangueiras dispunham-se ordenadas para dar um ar mais gracioso àquela paisagem quase urbana. Minha Alma gabava aquela beleza meio inóspita, eu permanecia calado. Todos os nossos olhos, até os do Meu Contrário, pousaram no estabelecimento Socosol e logo a seguir, muito perto, no Bar Zombo, onde uma pequena multidão também acenou. Aí não resisti e fui acenando também à medida que me dava conta de que a verdadeira festa à nossa chegada pertencia à criançada. Às dezenas e meio vestidas, as crianças corriam ao lado da coluna, perante o ar meio receoso das mulheres, pois a proximidade das viaturas certamente as fazia temer pela sua segurança. O Meu Contrário, sempre tão racional, não sabia explicar como uma encenação assim podia incutir a tranquilidade que Minha Alma sentia. Nenhum de nós encontrou explicação para o sentimento de insegurança que Minha Alma detectou naquela gente. Os zombos pareciam mais receosos do que nós, recém-chegados. Talvez que nós, sem referencias prévias, estivéssemos à espera de sermos recebidos a tiro ou à catanada. Mas não. Apesar de um histórico de rebelião(*), os zombos mostravam-se pacíficos e, assim, não foi nada disso que aconteceu. Gostei de Maquela mas não iríamos ficar nela, para desespero da Minha Alma e a aparente indiferença do Meu Contrário…
14 – Mais pó da picada – Após uma curta paragem, a coluna prosseguiu viagem, agora já sem os carros civis que traziam mantimentos para toda a população. À saída de Maquela, uma placa indicava vários destinos em duas direcções. Seguimos a que referia a fronteira com o Congo, direitos à Kimbata. Poucos não sabiam que o destino final era a Fazenda Costa, a cerca de 35 km de Maquela, antiga roça de café, que a guerra se encarregara de transformar em acampamento militar. Era onde iríamos ficar. Pelo caminho, passámos por 3 sanzalas e muitos grupos de negros deslocando-se, recolhendo de um dia de trabalho nas lavras, seu único meio de sustento. À nossa aproximação embrenhavam-se capim dentro, prosseguindo a uns 15 ou 20 metros. Minha Alma interrogou-me mas só muitos dias depois, quando soube, lhe disse que era costume, em tempos idos, os veículos militares irromperem em sua direcção, passando por cima dos menos lestos e desprevenidos. Minha Alma nem queria acreditar. O Meu Contrário, não aceitou tal explicação e disse, ainda que pouco convictamente: “Fogem do pó da picada, não da maldade dos homens”…
15 – “Olha a nossa salvação!” – Passado um declive muito acentuado, a coluna subiu uma ravina pouco inclinada mas longa e avistou o aquartelamento. Logo a seguir, mais de uma centena se soldados vieram ao nosso encontro gritando coisas diversas. Fixei apenas uma exclamação: “Olha a nossa salvação!”. E éramos. Vínhamos render aquela gente e por isso estavam tão felizes. No céu, para onde olhei inadvertidamente, talvez para perceber de que lado estava Deus, se com a satisfação dos que iam regressar se com a tristeza dos que acabavam de chegar, apenas vi uma tonalidade avermelhada e calma do sol a partir. Era uma tonalidade tão bela que só poderia ser obra de mulher a afastar o sol no horizonte. Chamei àquela luminusidade serena, Maria do Sol e ela antes de a estrelada noite aparecer, pareceu-me ter dito “Rogério, amanhã ele voltará, para te alegrar a Alma”…
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(*) Este sub-capitulo é exclusivamente dedicado a contextualização geográfica do meu caminho pelo norte de Angola, os personagens passaram aqui para segundo plano. Retomarão já a seguir o papel que lhes reservei neste meu caminhar.

(**) Tivesse este livro preocupações históricas e eu não deixaria de citar o trabalho "Os Zombo na Tradição, na Colónia e na Independência", do Professor Doutor José Carlos de Oliveira, publicado na "Revista Militar" e a que podem aceder aqui: (I Parte); (II Parte); (III Parte)

12 novembro, 2010

"Caminhos do Meu Navegar" Cap I - Destino Angola

pág. anterior



Cap
I - Destino Angola


Navegar, navegar até alunar



1. O apaziguamento – 12 de Julho de 1969. Manhã estranhamente calma, dado o acontecimento da minha forçada partida para terras agitadas. Mas como tudo tem uma explicação, a serenidade sentida também a tinha. De há muito a guerra aberta entre mim e o Meu Contrário, nome que convencionei chamar ao meu outro eu, tinha reduzido a sua intensidade. Venci-o com a minha decisão em ir, aceitando a imposição que empurrava para a guerra várias gerações e a minha. O Meu Contrário argumentava, com palavras pesadas e sólidas dizendo-me incoerente, que eram já muitos os desertores, que eu sempre condenara a guerra e a politica colonial, lembrando a minha admiração pelo acto do poeta desertor. Lembrava até os meus momentos na “Casa dos Estudantes do Império” e do entusiasmo com que falava dos momentos que lá passava. Resisti, contra-argumentado coisas várias. Ser casado, ter duas filhas e as consequências familiares do estatuto de desertor, mais ainda do que o ser. Irado, o Meu Contrário desfilava adjectivos sendo o de incoerente mais por mim sentido que o de covarde ou vendido. Calar-lhe-ia a boca um argumento final: “E se a sublevação das forças armadas for uma hipótese, quem está cá para a suportar e fazer vingar?” questionei. O Meu Contrário calou-se e não voltou a falar no assunto. A minha consciência ficou de bem comigo. Em toda esta discussão Minha Alma abdicou do seu papel moderador entre mim e a razão. Acho que se ela se tivesse pronunciado eu teria desertado…

2. A despedida – O cais fervilhava. No rio, o paquete Vera Cruz começou a agitar mansamente as águas, logo após o desfile militar e a fanfarra ter terminado a marcha que tocara com estridentes clarins, bombos e caixas. Milhares de vozes poderiam ser confundidas com o bulício das praças, não fossem audíveis, como eram, os soluços e choros antecipando a despedida. Eu tinha sido dispensado de tais cerimónias, por pertencer aos Serviços de Saúde e aguardava a permissão da entrada das famílias dos oficiais e sargentos, no edifício central da estação marítima da Rocha Conde de Óbidos, cenário da despedida. Aos soldados, por razões logísticas, eram apenas permitido o acesso às mulheres, dos que fossem casados. Vi a Teresa e ela viu-me. Acenei e ela respondeu ao aceno, para confirmar a localização. Pouco tempo depois a Policia Militar franqueou o acesso. Teríamos corrido um para o outro se fosse o regresso, mas como nem sequer tínhamos partido a aproximação foi lenta, vagarosa. Nesses curtos instantes pensei que aquilo não podia acontecer assim. Uma vez juntos, falámos coisas que já tínhamos dito, até que eu, resoluto lhe disse, sem lhe procurar os seus olhos : “Espera um pouco, já venho”. Virei-lhe as costas e não regressei. Desci as escadas pelo outro lado e embarquei. Dentro do Vera Cruz ouvia os choros aumentar. Vozes de mulheres, mães gritando coisas saídas do ventre. A Minha Alma, essa, mantinha-se estranhamente calma mas sussurrou-me em ar de censura: “Rogério, a tua Teresa não merecia isto”. Mas, ao perceber o meu desespero, generalizou “Ninguém merecia isto…”. Pouco depois o Vera Cruz, com todos os militares embarcados, levantou ferro. Tudo se tinha passado em menos de hora e meio, dado que a experiência acumulada na organização destes embarques. No cais milhares de lenços esvoaçavam e, por ironia, pareciam pombas brancas, símbolo da paz que só o coração parecia requerer. Como resposta a esse aceno, do lado da embarcação, milhares de boinas militares eram agitadas no ar. Percebi que era isso que acontecia, pois não vi. Estava no meu camarote e aí permaneci até sair a barra do Tejo. Comigo o Meu Contrário, solidário e a Minha Alma, que permaneceu sempre em estranha calma...

3. Coisas que só as almas pensam - As primeiras horas de viagem foram passadas na amurada. E as seguintes também. Olhava o mar e o rasto deste meu navegar. A Minha Alma divagava: "...e se teu corpo em protesto caísse ao mar? E se esse acto provocasse reacção de revolta? E se todas estas tropas impusessem o regresso?". Nem eu, nem o azul do céu, nem mesmo o mar, lhe respondeu...
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4. A escala e a Rita – No terceiro dia, numa das minha deambulações pelo navio, que tinha na década de 50 sido um dos mais luxuosos paquetes europeus e seguramente o maior de Portugal, dei-me conta da austeridade da decoração e degradação causada pelo transporte de tropas. Foi num desses passeios que fui dar, sem querer, ao posto médico. À entrada, bem visível figurava a escala. Li e estremeci. Meu número e nome figurava em segundo lugar, significando que tinha estado de serviço no segundo dia de viagem e estava já no terceiro. Tinha-me passado completamente a obrigação de comparecer logo nas primeiras horas de viagem para ser informado dos meus turnos de enfermagem. Entrei no posto e procurei o alferes médico a quem lamentei a minha falta. O alferes não tugiu nem mugiu, limitando-se a dizer: “Faltaram todos até tu chegares. Mas ainda bem que apareceste. Veste a bata e ajuda aí a arrumar esta tralha”. Vesti a bata branca sem transferir a divisas para essa nova indumentaria, pois era sempre pouco cuidadoso nesses pormenores de atavio. Arrumei caixas de medicamentos durante um tempo e enquanto o fazia tomei a resolução de me deixar ficar por ali, independentemente de estar ou não na escala. Desse modo não só ocuparia o tempo como aprenderia a lidar com situações de emergência médica e a ganhar alguma prática e a necessária confiança. Dei uma olhadela ao registo de atendimento. Apenas sete nomes, registando: Feridas contusas e pensos, enjoos, alguns antiansioliticos e um único caso com diagnóstico mais reservado, embora o ponto de interrogação quisesse significar não definitivo. Ao lado, anotado, lia-se “volta amanhã”, o que deveria acontecer hoje. Preparava-me para fazer, não me lembro exactamente o quê, quando a porta, de batente, se abriu. "Olá doutor". Quem assim falou, olhou para mim e sorriu. Julgo que o médico respondeu. Mas eu fiquei sem ouvir mais nada. Minha Alma ficou com aquele olá a balancear-lhe nos meus ouvidos, com intensidade maior que o balancear do navio. "Olá" repetiu a voz na minha direcção e lançando-me um sorriso. O sorriso tinha luz e calor de enternecer. Ouvi-a então dizer, antes de desaparecer: "doutor se precisar de mim já sabe, mande um cabo chamar-me". "Está bem Rita, se for necessário chamo..." e virando-se para mim esclareceu "a Rita é uma enfermeira paraquedista que vai cumprir a sua 3ª comissão. No barco vão umas poucas. Não sei como mulheres bonitas aceitam esta vida de voluntárias na guerra...". Eu não comentei e a Minha Alma lá foi dizendo: "que lindo olhar...". O Meu Contrário, avisou: "Rogério, vê se tens juízo..."
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Nota: Em breve darei indicações sobre a forma de participar no meu texto.
Até lá, recorram à imaginação usando o espaço dos comentários

03 dezembro, 2010

Caminhos do Meu Navegar (6)

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Cap II - Por terras de Angola (cont.)

Um curandeiro eficaz


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21 – Um lugar para cada coisa, cada coisa em seu lugar – Amanhecera com o sol anémico do dia anterior. Encaminhei-me para a enfermaria. A companhia dos veteranos tinha partido com o raiar da primeira claridade do dia e era muito cedo. Resolvi ir fazer os meus arrumos nas prateleiras da farmácia e pôr as coisas a meu gosto no posto médico, onde existia uma maca, um armário clínico, um quadro de ardósia, umas quantas cadeiras e a secretária. Tudo num branco já amarelado pela “patina” do tempo. Tinha pouco para arrumar e parecia ridículo procurar flores para enfeitar o ambiente. Lá fora não havia flores e estas são são recomendáveis para um ambiente que se pretende asséptico. Limitei-me a afixar nas paredes algumas páginas de um atlas do corpo humano que tinha comprado em Lisboa do qual escolhi páginas sobre procedimentos básicos de primeiros socorros, cuidados a ter para prevenir as infecções hospitalares, reposição de luxações, garrotes e outras que, por bem ilustradas, cumpriam com o objectivo de decorar e fornecer informação adequada e eventualmente de consulta útil. Arrumei respeitosamente o estetoscópio em cima da secretária ao lado de um calendário do ano passado e por cima do livro com os dizeres “Registo diário de doentes”. Só então reparei no livro, que abri. Tinha, por linha escrita à mão, a data, o nome, indicações que pareciam indecifráveis, dizeres de diagnóstico e por fim a medicação prescrita. Foram necessários vários minutos não para reconhecer o livro, pois ele é igual a todos os que tinha visto nos hospitais militares, mas para interiorizar que a partir dessa manhã seria eu o responsável pelo seu uso. O Meu Contrário, bem acordado, dizia-me perante o silêncio da Minha Alma estremunhada: “Rogério, não te preocupes demasiado pois tens na mão o receituário, basta que acertes no diagnóstico”. Tremi, para logo Minha Alma me sossegar: “Lembra-te do que o outro te disse, pede evacuação a qualquer caso mais complicado”. Depois de ter percebido a lógica da arrumação dos medicamentos fui-me ao armário clínico e continuei a tarefa agora do material de pequena cirurgia imaginando o seu uso e a minha falta de aptidão para o acto…
22 – “Furrié dotor, esminino tem muntu quente nus cabeça e dói os corpo todo” – Estava a separar as lâminas dos bisturis, as boas das que me pareciam ser de não usar, quando o António, um dos pretos contratados como guia e tradutor, assomou à porta interrompendo “Furrié dotor dá co lecensa?” mas não a esperou e foi dizendo com ar aparentemente desesperado “Furrié dotor, esminino tem muntu quente nus cabeça e dói us corpo todo”. Enquanto dizia estas cantantes palavras, uma mulher de olhos tímidos e cara de sofrimento alheio , sendo que tal alheio lhe preenchia o colo. Era um menino com a cara de todos os meninos só que com os olhos mortiços e a respiração muito entrecortada. Seu peito arfava. Minha Alma afastou-se deste grupo e Meu Contrário disse-me com voz que me deu confiança: “Rogério, tu sabes tratar desta criança. Basta que te lembres do que a Teresa fez à tua João naquela valente constipação”. Estava convencido que esta situação era mais grave mas o Meu Contrário tinha acabado de depositar em mim grande confiança. Disse ao António para perguntar à mulher há quanto tempo estava a criança assim, se tinha vomitado, se tinha diarreia ou arrepios de frio enquanto eu próprio ia colocando o termómetro e fazendo todos os possíveis para mostrar segurança na voz e nos gestos. “Furrié dotor, mulher diz que filho num ter vómitadu nem nadas dissu, o qui tem mesmo é munta fevre e dor nus corpo todo. Diz tamem que num tem cágádu”. Vi a febre bem elevada e sempre dando mostras de segurança, parti um LM (*) em quatro. Enchi de anti-tussico meio de um outro frasco. Expliquei as tomas. De seguida passei uma compressa pela torneira e estendi a compressa molhada indicando a testa do miúdo, gesto que a mãe compreendeu. Pedi ao António para explicar à mulher que quando chegasse à sanzala repetisse esses pachos de água fria e à noite também. Dispensei recomendação para o agasalhar bem pois vinha bem enroupado. “Volta depois de amanhã” disse como despedida, que foi compreendida com a ajuda do António, admirado por tal pedido, pois era normal fazer-se àquela gente. A mulher ergueu-se mas entretanto, lembrando-me do que faltava, fiz-lhe um gesto de espera. Peguei numa pequena colher e entrei no espaço onde estavam os medicamentos, procurando qualquer coisa que servisse para libertar aquele miúdo sabe-se lá se de lombrigas ou ténias. Levei um tempo infinito na procura mas fui bem sucedido. Dei-lhe uma única colher, mal cheia… E pelo seu ar percebi que seria doce como doce era o seu olhar… Fora estava um velho que esperava. Tratei-o da coceira sarnosa já não me recordo com que unguento…
23 – “apto para todo o serviço” – Tinha de memória palavras que não sabia serem as exactas, como resultado da minha inspecção prévia ao ingresso no serviço militar: “Apto para todo o serviço”. Seria? Olhei para o estetoscópio e percorri as imagens que havia colocado na parede. Tomei uma decisão: ultrapassar-me. Foi assim que fiquei por ali a estudar o registo de doentes para perceber o que fora ministrado de forma igual para diagnósticos diferentes e dessa arrevesada maneira tentar entender o campo de aplicação de cada fármaco. Li e reli horas a fio, com a Minha Alma quieta e o Meu Contrário calado. Ambos estavam do meu lado…
24 – “só apareceu o António” – No dia seguinte, lá fui para a minha tarefa de curandeiro mal formado. Esperei por quem aparecesse. O cabo maqueiro também apareceu e ficou por ali limpado o pó, varrendo o chão e fervendo seringas e agulhas. O tempo passava e ninguém chegava. Por fim chegou um sorridente António. “Furrié, esmino já brinca um bucado. Cagou tanto bicho que mulhé chamou todo o kimbo pra vê”. Sorri também, contei ao cabo o sucedido na véspera e fui emendar o registo. Risquei “pneumonia” e escrevi “constipação”, sem estar bem certo do termo mais adequado ou se a emenda se justificava...
CONTINUA 2ª FEIRA
(*) LM, Laboratório Militar, todos os medicamentos fabricados neste laboratório tinham a marca LM. Neste caso, tratava-se de um sucedâneo da Aspirina.

26 novembro, 2010

Caminhos do Meu Navegar (3)

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Cap II - Por terras de Angola

Zombando, rumo a Maquela do Zombo



8 – A lua anda, em Luanda – 5 da manhã, 21 de Julho de 1969, hora de desembarcar do navio Vera Cruz. A lua tinha já fugido colocando-se, ela e os astronautas que por lá andaram, fora do meu pensamento. Eu, o Meu Contrário e a Minha Alma, olhávamos a luz do nascer do dia. Luz muito clara àquela hora e ainda morna. Os três, em conjunto, fixámos aquele céu antes de olhar para o que dali se avistava da cidade. Aquele céu não nos pareceu tão estranho quanto a terra. Antes de a pisar, fizemos um acordo. Zombar com tudo aquilo que viesse a acontecer. À medida que descia do portaló ia dizendo: “Nada do que irá acontecer, será levado a sério nesta vã tentativa de se adiar o futuro”. O Meu Contrário, que para os que só agora tomaram contacto com estas narrativas, não é mais que a outra parte de mim e a quem alguns chamam consciência, reforçou-me a decisão com um tom sentencioso: “Rogério, estou de acordo desde que isso não te leve a coisas disparatadas e que tanto dizes condenar”. A Minha Alma, foi mais reticente, mas lá se convenceu em pactuar. Chegou a alvitrar que talvez fosse mais aconselhável assumir um comportamento de zumbi, um morto vivo, em vez da opção escolhida de passar a ser um ser vivo confrontado com uma realidade que se propunha ridicularizar. Ficámos assim, num acordo forçado, de troçar com a tentativa do regime em impedir a queda do império colonial…
9 – O comboio malandro – Não sei se o poeta se referia ao comboio que liga o porto de Luanda ao Campo Militar do Grafanil, num percurso de cerca de 15 quilómetros, quando escreveu aquele poema que eu fui buscar antes mesmo de ele o pensar fazer. Este não é o do poeta, mas é um comboio malandro também. Minha Alma segredava-me com a ironia que tínhamos contratualizado: “Este comboio é um malandro cansado”. Tinha razão o comboio. Desde 1961, aquele máquina tinha já transportado mais de 300 000 praças e sargentos, seus contrários e outras tantas almas. Mas o comboio, todo inteiro, talvez soubesse que sua reforma não equivaleria à reforma daquele teimoso trajecto que muitos queriam apelidar de heróico. Cansado, arrastava-se nos carris e chiava ao peso da sua elevada carga, cerca de 3000 pessoas de verde fardadas. Cansado era também o fumo intenso e negro que, em excesso de malandrice, ia envolvendo tudo e todos e se ia desfazendo pela paisagem composta por um imenso casario abarracado, pois toda a periferia da cidade eram muceques. A marcha do comboio malandro era tão vagarosa, que permitia que centenas de crianças pretas a acompanhasse, uns dizendo adeus sorridentes, outros apenas mostrando os dentes (pois os sorrisos tinham-se esgotado nos últimos comboios que por ali tinham passado), outros ainda pedindo um moeda. Por parar um ou outro fazendo gesto de agachar, fiquei com a ideia que eram bastantes os soldados que mandavam seus trocos. Seria naquele dia um reforço àquela economia, pois que se tinham organizado para o peditório. Chegados ao campo de concentração militar (a expressão é cruelmente ambígua e irónica), houve tempo de desfile, parada e discurso de boas vindas. Tínhamos assim chegado à guerra colonial de forma mais oficial, embora a distribuição do armamento só viesse a ocorrer dias depois…
10 - A primeira carta – Aos sargentos e oficiais era facultada a pernoita nas respectivas messes, no centro de Luanda. Ainda havia sol quando cheguei ao quarto, depus o saco e saí. Procurei um café e de pronto escrevi a minha primeira carta à Teresa. Confirmava que ia ser deslocado para a Fazenda Costa, perto de Maquela do Zombo e que iria ficar em Luanda mais oito dias sendo a data de partida prevista para 30 de Julho. No fim da carta desenhei um navio e um comboio malandro para a minha filha João, com uma pequena descrição terminando enviando-lhe beijos e mil outros para a minha outra filha, a Sandra. Entre as notícias e este findar desenhado, era um desfilar de coisas ridículas, pois uma carta de amor, como todas as cartas de amor, tem de ser ridículas… Mais à noite, no serviço telefónico agendado, teria a oportunidade de falar com todas elas, um bom bocado. Pensei, se à época houvesse as actuais comunicações o Império Colonial teria caído naquele dia, logo a seguir à chegada do homem à Lua…
11 Uma montra – Só no dia seguinte vagueei pela cidade. Apenas iria ter relação com a cidade, muitos meses depois e, destes dias, guardo apenas difusas recordações. Lembro-me de ter parado frente a uma montra de roupa de criança. Roupa europeia. Olhei atentamente à procura de peças que imaginei poderem-se ajustar ao corpo pequenino das minhas filhas. Estendi a mão abrindo-lhe um palmo e coloquei-a quase sobre o vidro. Fechei um dos olhos, como se estivesse a fazer pontaria, mas apenas tirava medidas, sobre uma saiazinha cor de rosa. Estava eu neste estar, passaram duas catorzinhas cafecos que gargalharam, comentando “Os furrié tens os maluco nos cabeça dére”. O Meu Contrário, aproveitou para troçar e repetiu "Furriel, essa pose indica que tens já uma cabeça que amalucou". Minha Alma, silenciada, só nas minhas filhas pensava. Tirando aquela loja, tenho a vaga ideia de que Luanda não me pareceu uma cidade militarmente ocupada, mas certamente que estava...
12 - Rumo a Maquela do Zombo - Dia 30 de Setembro. 6 horas da manhã, hora da partida da coluna militar incorporando camionetas civis, com a nossa carga e o abastecimento regular. Partimos e eu, com uma arma na mão, zombava: "Minha Alma, sabes tu onde apontar para melhor falhar?". Minha Alma não respondeu, tinha adormecido. Provavelmente terá respondido antes de adormecer, mas já a não ouvi. Ambos acordaríamos horas depois, quase a chegarmos a Maquela... Só Meu Contrário fez todo o itinerário em estado de alerta e, ele primeiro que os adormecidos, ficou com uma primeira impressão do que era a África profunda num cenário pintado de falsa paz, pois todo o percurso foi feito sem sinais de guerra...

CONTINUA NA PRÓXIMA 2ª FEIRA
NOTA: O texto a cor diferente, corresponde a um acréscimo motivado por um comentário oportuno

12 abril, 2022

PORQUE O 25 DE ABRIL ESTÁ AÍ À PORTA...

Segundo Rui Rio, o fascismo nunca existiu. Depois de rever o vídeo que abaixo volto a dar a ver, ocorre-me mais uma vez aquele excelente texto "DENEGAÇÃO POR ANÁFORA MERENCÓRIA", do meu amigo Mário de Carvalho, que aqui reproduzo igualmente associado a quem, como Rio, ousou branquear o fascismo.

 

Eu nunca fui obrigado a fazer a saudação fascista aos «meus superiores». Eu nunca andei fardado com um uniforme verde e amarelo de S de Salazar à cintura. Eu nunca marchei, em ordem unida, aos sábados, com outros miúdos, no meio de cânticos e brados militares. Eu nunca vi os colegas mais velhos serem levados para a «mílícia», para fazerem manejo de arma com a Mauser. Eu nunca fui arregimentado, dias e dias, para gigantescos festivais de ginástica no Estádio do Jamor. Eu nunca assisti ao histerismo generalizado em torno do «Senhor Presidente do Conselho», nem ao servilismo sabujo para com o «venerando Chefe do Estado». Eu nunca fui sujeito ao culto do «Chefe», «chefe de turma», «chefe de quina», «chefe dos contínuos», «chefe da esquadra», «chefe do Estado». Eu nunca fui obrigado a ouvir discursos sobre «Deus, Pátria e Família». Eu nunca ouvi gritar: «quem manda? Salazar, Salazar, Salazar». Eu nunca tive manuais escolares que ironizassem com «os pretos» e com «as raças inferiores». Eu nunca me apercebi do «dia da Raça». Eu nunca ouvi louvar a acção dos «Viriatos» na Guerra de Espanha. Eu nunca fui obrigado a ler textos escolares que convidassem à resignação, à pobreza e ao conformismo; Eu nunca fui pressionado para me converter ao catolicismo e me «baptizar». Eu nunca fui em grupos levar géneros a pobres, politicamente seleccionados, porque era mesmo assim. Eu nunca assisti á miséria fétida dos hospitais dos indigentes. Eu nunca vi os meus pais inquietados e em susto. Eu nunca tive que esconder livros e papéis em casa de vizinhos ou amigos. Eu nunca assisti à apreensão dos livros do meu pai. Eu nunca soube de uma cadeia escura chamada o Aljube em que os presos eram sepultados vivos em «curros». Eu nunca convivi com alguém que tivesse penado no Tarrafal. Eu nunca soube de gente pobre espancada, vilipendiada e perseguida e nunca vi gente simples do campo a ser humilhada e insultada. Eu nunca vi o meu pai preso e nunca fui impedido de o visitar durante dias a fio enquanto ele estava «no sono». Eu nunca fui interpelado e ameaçado por guardas quando olhava, de fora, para as grades da cadeia. Eu nunca fui capturado no castelo de S. Jorge por um legionário, por estar a falar inglês sem ser «intérprete oficial». Eu nunca fui conduzido à força a uma cave, no mesmo castelo, em que havia fardas verdes e cães pastores alemães. Eu nunca vi homens e mulheres a sofrer na cadeia da vila por não quererem trabalhar de sol a sol. Eu nunca soube de alentejanos presos, às ranchadas, por se encontrarem a cantar na rua. Eu nunca assisti a umas eleições falsificadas, nunca vi uma manifestação espontânea ser reprimida por cavalaria à sabrada; eu nunca senti os tiros a chicotearem pelas paredes de Lisboa, em Alfama, durante o Primeiro de Maio. Eu nunca assisti a um comício interrompido, um colóquio desconvocado, uma sessão de cinema proibida. Eu nunca presenciei a invasão dum cineclube de jovens com roubo de ficheiros, gente ameaçada, cartazes arrancados. Eu nunca soube do assalto à Sociedade Portuguesa de Escritores, da prisão dos seus dirigentes. Eu nunca soube da lei do silêncio e da damnatio memoriae que impendia sobre os mais prestigiados intelectuais do meu país. Eu nunca fui confrontado quotidianamente com propaganda do estado corporativo e nunca tive de sofrer as campanhas de mentalização de locutores, escribas e comentadores da Rádio e da Televisão. Eu nunca me dei conta de que houvesse censura à imprensa e livros proibidos. Eu nunca ouvi dizer que tinha havido gente assassinada nas ruas, nos caminhos e nas cadeias. Eu nunca baixei a voz num café, para falar com o companheiro do lado. Eu nunca tive de me preocupar com aquele homem encostado ali à esquina. Eu nunca sofri nenhuma carga policial por reclamar «autonomia» universitária. Eu nunca vi amigos e colegas de cabeça aberta pelas coronhas policiais. Eu nunca fui levado pela polícia, num autocarro, para o Governo Civil de Lisboa por indicação de um reitor celerado. Eu nunca vi o meu pai ser julgado por um tribunal de três juízes carrascos por fazer parte do «organismo das cooperativas», do PCP, com alguns comerciantes da Baixa, contabilistas, vendedores e outros tenebrosos subversivos. Eu nunca fui sistematicamente seguido por brigadas que utilizavam um certo Volkswagen verde. Eu nunca tive o meu telefone vigiado. Eu nunca fui impedido de ler o que me apetecia, falar quando me ocorria, ver os filmes e as peças de teatro que queria. Eu nunca fui proibido de viajar para o estrangeiro. Eu nunca fui expressamente bloqueado em concursos de acesso à função pública. Eu nunca vi a minha vida devassada, nem a minha correspondência apreendida. Eu nunca fui precedido pela informação de que não «oferecia garantias de colaborar na realização dos fins superiores do Estado». Eu nunca fui objecto de comunicações «a bem da nação». Eu nunca fui preso. Eu nunca tive o serviço militar ilegalmente interrompido por uma polícia civil. Eu nunca fui julgado e condenado a dois anos de cadeia por actividades que seriam perfeitamente quotidianas e normais noutro país qualquer; Eu nunca estive onze dias e onze noites, alternados, impedido de dormir, e a ser quotidianamente insultado e ameaçado. Eu nunca tive alucinações, nunca tombei de cansaço. Eu nunca conheci as prisões de Caxias e de Peniche. Eu nunca me dei conta, aí, de alguém que tivesse sido perseguido, espancado e privado do sono. Eu nunca estive destinado à Companhia Disciplinar de Penamacor. Eu nunca tive de fugir clandestinamente do país. Eu nunca vivi num regime de partido único. Eu nunca tive a infelicidade de conhecer o fascismo.

Mário de Carvalho, escritor - in "DENEGAÇÃO POR ANÁFORA MERENCÓRIA", retirado da sua página do facebook

05 setembro, 2024

INSISTO! VÁ À FESTA E COMPRE O MEU LIVRO! (dele, hoje descrevo, da sua gestação ao lançamento)

"Comecei este livro num blogue. Páginas, poucas, editadas semanalmente, que vieram a recolher comentários de apreço e incentivo para, primeiro, que continuasse escrevendo e que, depois, passaram a reclamar que o texto fosse editado. Assim, a esses amigos agradeço e deles (dos mais frequentes) transcrevo palavras deixadas em alguns desses comentários. A todos deixo o meu reconhecimento, certo que a eles devo o incentivo para a publicação destas memórias, por mim vividas, numa guerra perdida e sem outro sentido que não fosse adiar a história. 
 – «Na tua narrativa dá para sentir o pó da picada, os odores das sanzalas... A zona por onde andei, Mucaba, Negage, Carmona é igual ao que tão bem descreves.» – A. Tapadinhas (Pintar a Palavra, Escrever a Pintura). 
 – «Li. Depois fui reler o Prefácio. Voltei e... embarquei. Há-de encontrar-me quando aportar. Ensombro ruas, ergo-me no meio do nada. Uma acácia rubra de Angola que viu chegar tantos em tantos navios...» – Acácia Rubra (acácia rubra). 
– «É muito criativo e disseca bem um tempo – memória difícil e intensa. Por essa altura eu escrevia cartas, por encomenda, a algumas vizinhas... Partiriam de avião para essa África distante… Esperamos o livro.» – Ana Tapadas (Rara Avis).
 – «A escrita do seu livro está a tornar-se cativante! Não nos deixa perder um único passo do que descreve. Utilizando, como raramente tenho visto, recursos on line, remete-nos para ilustrações que mais cor e data dão às suas palavras. Mas, não só. Também nos encaminha para leituras como o mimo que é «Terra de Siena Molhada», de Saramago, e o importante trabalho de José Carlos Oliveira, já meu conhecido. Como se não bastasse, o Rogério foi mais longe. Criou uma figura (Maria do Sol) porque logo me encantei. Fez-me lembrar, de imediato, Blimunda, que não era de Sol, mas Sete-Luas. Com que mais nos irá, agradavelmente, surpreender?!» – Carlos Albuquerque (Conversas daqui e dali).
 – «Não passei por essa terrível guerra colonial mas tenho conhecimento de testemunhos vividos de pessoas como o meu caro amigo que tendo sido violadas nos seus valores mesmo assim prestaram serviços de grande humanidade. A ditadura fascista massacrou povos utilizando como carne para canhão os nossos jovens em nome da barbárie e de interesses contrários a Portugal e aos povos colonizados. Os seus textos expõem a irresponsabilidade do sistema mas dão nota da sua personalidade de homem bom a cumprir ordens dos senhores da miserável guerra. Não apagar memórias creio ser o seu objectivo – por isso aplaudo o seu esforço de condenação da canalha responsável pelo massacre de tantas formas imposto. (Continuarei a seguir os seus relatos e se me permite ainda bem que não seguiu a “profissão”).» – Eufrázio Filipe (Mar Arável). 
 – «Texto para ler com atenção e delicadeza, para não perturbar as subtis metamorfoses da Alma e seus contrários...» – Herético (Relógio de Pêndulo). 
 – «Meu amigo: Em primeiro lugar é um privilégio para todos nós, ter-nos escolhido para fazer parte de um percurso tão marcante da sua vida. Descreve tudo de uma forma apaixonada e sentida, o que revela que tem presente todos aqueles momentos e vivências. Da guerra colonial, e como não tive familiares próximos naquela situação, só recordo as mensagens de Natal em directo e que sempre me comoviam e as medalhas póstumas que os “chefes de estado” colocavam no peito dos familiares que por lá tinham perdido os entes queridos. Nem imagino o que o Rogério deve ter vivido e sentido, longe da família, num cenário de guerra. Embora o seu humor amenize a narração, noto também saudade e angústia nas suas palavras. Que mais posso acrescentar, a não ser que estou fascinada e rendida à sua história de vida. Por isso, num domingo de manhã aqui estou a ler fervorosamente mais um capítulo.» – Fê-blue bird (Só te peço 5 minutos).
 – «Sempre me surpreendes pela positiva. Já te sabia “enfermeiro/médico” à força, mas digo-te que és bem melhor do que muitos dos reais que encontramos nos nossos consultórios. Diagnóstico errado, mas pelo sim pelo não, uma pequena colher de desparasitante e assunto resolvido. A substituição do nome do diagnóstico, para constipação, estaria mais próximo da verdade se estivesses no Reino Unido ou noutro país onde se falasse inglês. Adorei, como sempre.» – Fernanda, Ná (Na Casa do Rau).
 – «Como fui criado em Angola, dos 3 aos 29 anos de idade, compreenderá que muitas das situações que conta não são novidade para mim. Vi coisas muito más e, outras, fantásticas, no que se refere à convivência entre raças. A mim, pelo que vivi e aprendi na vida, e na leitura, não me custa nada perceber como se pode ser humano em qualquer situação. Mesmo nas extremas. Estou a gostar e está muito bem enquadrado e bem escrito.» – Fernando Freitas (A Beiça). 
 – «Desta vez vou apenas dizer-lhe que é em alturas como esta, quando um texto seu me comove até às lágrimas, ainda por cima acompanhado do pequeno excerto de uma carta que, religiosamente, guardou, que eu fico cheia de remorsos!» – Janita (janita). 
 – «A força de um testemunho, que “cala” os silêncios.» – jrd (bons tempos hein?!). 
 – «É uma narrativa que prende o leitor pelo tom leve. No entanto, não deixa de dar a conhecer alguns dos azedumes de uma época em que o mundo decorre a dois tempos distintos: A chegada à Lua, signo do progresso do Homem e a Colonização, signo da sua pequenez. Maravilhosa é a forma como utiliza esta dicotomia e tece com as palavras relações tão inesperadas e divertidas…Tem todos os ingredientes para captar a atenção do leitor. Movimento, humor, apelo aos sentidos, suspense... E o encanto próprio do narrador autodiegético, pois que também ele é personagem, ou melhor, personagens. Sobre os cheiros (de África)... Sei que a memória guarda um espaço de eleição para eles. É através deles que muitas vezes nos vemos a viajar no tempo de encontro a lugares e momentos do passado.» – Lídia Borges (Searas de Versos). 
 – «Um texto comovente e sério. Relato de um tempo em que os pais viviam a angústia de acompanharem apenas à distância o crescimento dos filhos, não sabendo se, na verdade, os voltariam a ver. Sei do olhar das mães, cheio de incerteza e medo, e do quanto faziam para esconder tudo isso das suas crianças. Sei também das cartas que escreviam aos pais delas. Poucos seriam aqueles que reflectiriam, na altura, sobre os fundamentos teóricos da educação da criança. Os princípios educativos estavam de tal forma firmemente interiorizados que educar era igual a fazer crescer (com tudo de bom e de doloroso que isso implica).» – Maria João Martins (Pequenos Detalhes).
 – «Apesar de ter escapado à tangente dum percurso idêntico a esse e no meu caso não passaria de um soldado “raso”, não consigo ler os “caminhos do seu navegar” sem me abstrair de estórias da guerra colonial que fui ouvindo e lendo. Confesso-lhe que nunca li nada que um qualquer autor publicasse que descrevesse uma “viagem” duma forma tão apaixonante e me agarrasse tanto a ela.» – Rodrigo Henriques (Folha Seca)."

(este texto integra o prefácio)

E veja como foi o lançamento...

 

 

28 fevereiro, 2019

Mário de Carvalho e o perigo da «reactivação do nazismo»


Andava eu naquela labuta conhecida da procura da notícia, para a candonga costumada, trazendo para este meu espaço textos que outros vão escrevendo, quando tropeço no título "Não se deve perder de vista um mundo mais justo e solidário" e onde o escritor alerta para as «tremendas transformações» que o mundo está a sofrer, em que se assiste à recuperação de pontos de vista que se pensavam «completamente ultrapassados».

Trata-se, como pode (e deve) ler aqui, de um enquadramento a um anúncio querido (mais um livro). Para além de ter eu encontrado este modo em divulgá-lo e porque às tantas ele refere ter sido criado numa família de ideais republicanos, que nunca o quis ver vestido, quando aluno do Liceu Gil Vicente, em Lisboa, com a farda da Mocidade Portuguesa, organização juvenil da ditadura de Salazar, de pronto me ocorreu aquele outro texto seu, por mim aqui citado:
Eu nunca fui obrigado a fazer a saudação fascista aos «meus superiores». Eu nunca andei fardado com um uniforme verde e amarelo de S de Salazar à cintura. Eu nunca marchei, em ordem unida, aos sábados, com outros miúdos, no meio de cânticos e brados militares. Eu nunca vi os colegas mais velhos serem levados para a «mílícia», para fazerem manejo de arma com a Mauser. Eu nunca fui arregimentado, dias e dias, para gigantescos festivais de ginástica no Estádio do Jamor. Eu nunca assisti ao histerismo generalizado em torno do «Senhor Presidente do Conselho», nem ao servilismo sabujo para com o «venerando Chefe do Estado». Eu nunca fui sujeito ao culto do «Chefe», «chefe de turma», «chefe de quina», «chefe dos contínuos», «chefe da esquadra», «chefe do Estado». Eu nunca fui obrigado a ouvir discursos sobre «Deus, Pátria e Família». Eu nunca ouvi gritar: «quem manda? Salazar, Salazar, Salazar». Eu nunca tive manuais escolares que ironizassem com «os pretos» e com «as raças inferiores». Eu nunca me apercebi do «dia da Raça». Eu nunca ouvi louvar a acção dos «Viriatos» na Guerra de Espanha. Eu nunca fui obrigado a ler textos escolares que convidassem à resignação, à pobreza e ao conformismo; Eu nunca fui pressionado para me converter ao catolicismo e me «baptizar». Eu nunca fui em grupos levar géneros a pobres, politicamente seleccionados, porque era mesmo assim. Eu nunca assisti á miséria fétida dos hospitais dos indigentes. Eu nunca vi os meus pais inquietados e em susto. Eu nunca tive que esconder livros e papéis em casa de vizinhos ou amigos. Eu nunca assisti à apreensão dos livros do meu pai. Eu nunca soube de uma cadeia escura chamada o Aljube em que os presos eram sepultados vivos em «curros». Eu nunca convivi com alguém que tivesse penado no Tarrafal. Eu nunca soube de gente pobre espancada, vilipendiada e perseguida e nunca vi gente simples do campo a ser humilhada e insultada. Eu nunca vi o meu pai preso e nunca fui impedido de o visitar durante dias a fio enquanto ele estava «no sono». Eu nunca fui interpelado e ameaçado por guardas quando olhava, de fora, para as grades da cadeia. Eu nunca fui capturado no castelo de S. Jorge por um legionário, por estar a falar inglês sem ser «intréprete oficial». Eu nunca fui conduzido à força a uma cave, no mesmo castelo, em que havia fardas verdes e cães pastores alemães. Eu nunca vi homens e mulheres a sofrer na cadeia da vila por não quererem trabalhar de sol a sol. Eu nunca soube de alentejanos presos, às ranchadas, por se encontrarem a cantar na rua. Eu nunca assisti a umas eleições falsificadas, nunca vi uma manifestação espontânea ser reprimida por cavalaria à sabrada; eu nunca senti os tiros a chicotearem pelas paredes de Lisboa, em Alfama, durante o Primeiro de Maio. Eu nunca assisti a um comício interrompido, um colóquio desconvocado, uma sessão de cinema proibida. Eu nunca presenciei a invasão dum cineclube de jovens com roubo de ficheiros, gente ameaçada, cartazes arrancados. Eu nunca soube do assalto à Sociedade Portuguesa de Escritores, da prisão dos seus dirigentes. Eu nunca soube da lei do silêncio e da damnatio memoriae que impendia sobre os mais prestigiados intelectuais do meu país. Eu nunca fui confrontado quotidianamente com propaganda do estado corporativo e nunca tive de sofrer as campanhas de mentalização de locutores, escribas e comentadores da Rádio e da Televisão. Eu nunca me dei conta de que houvesse censura à imprensa e livros proibidos. Eu nunca ouvi dizer que tinha havido gente assassinada nas ruas, nos caminhos e nas cadeias. Eu nunca baixei a voz num café, para falar com o companheiro do lado. Eu nunca tive de me preocupar com aquele homem encostado ali à esquina. Eu nunca sofri nenhuma carga policial por reclamar «autonomia» universitária. Eu nunca vi amigos e colegas de cabeça aberta pelas coronhas policiais. Eu nunca fui levado pela polícia, num autocarro, para o Governo Civil de Lisboa por indicação de um reitor celerado. Eu nunca vi o meu pai ser julgado por um tribunal de três juízes carrascos por fazer parte do «organismo das cooperativas», do PCP, com alguns comerciantes da Baixa, contabilistas, vendedores e outros tenebrosos subversivos. Eu nunca fui sistematicamente seguido por brigadas que utilizavam um certo Volkswagen verde. Eu nunca tive o meu telefone vigiado. Eu nunca fui impedido de ler o que me apetecia, falar quando me ocorria, ver os filmes e as peças de teatro que queria. Eu nunca fui proibido de viajar para o estrangeiro. Eu nunca fui expressamente bloqueado em concursos de acesso à função pública. Eu nunca vi a minha vida devassada, nem a minha correspondência apreendida. Eu nunca fui precedido pela informação de que não «oferecia garantias de colaborar na realização dos fins superiores do Estado». Eu nunca fui objecto de comunicações «a bem da nação». Eu nunca fui preso. Eu nunca tive o serviço militar ilegalmente interrompido por uma polícia civil. Eu nunca fui julgado e condenado a dois anos de cadeia por actividades que seriam perfeitamente quotidianas e normais noutro país qualquer; Eu nunca estive onze dias e onze noites, alternados, impedido de dormir, e a ser quotidianamente insultado e ameaçado. Eu nunca tive alucinações, nunca tombei de cansaço. Eu nunca conheci as prisões de Caxias e de Peniche. Eu nunca me dei conta, aí, de alguém que tivesse sido perseguido, espancado e privado do sono. Eu nunca estive destinado à Companhia Disciplinar de Penamacor. Eu nunca tive de fugir clandestinamente do país. Eu nunca vivi num regime de partido único. Eu nunca tive a infelicidade de conhecer o fascismo.

Mário de Carvalho - in "DENEGAÇÃO POR ANÁFORA MERENCÓRIA"

01 abril, 2024

EM DIA DAS MENTIRAS, MÁRIO DE CARVALHO BATE O RECORD, NUM MENTIREDO QUE ATÉ METE MEDO

BIOGRAFIA Do MENTIROSO

Mário de Carvalho nasceu em Lisboa em 1944. Licenciou-se em Direito e viu o serviço militar interrompido pela prisão. Desde muito cedo ligado aos meios da resistência contra o salazarismo, foi condenado a dois anos de cadeia, tendo de se exilar após cumprir a maior parte da pena. Depois da Revolução dos Cravos, em que se envolveu intensamente, exerceu advocacia em Lisboa. O seu primeiro livro, Contos da Sétima Esfera, causou surpresa pelo inesperado da abordagem ficcional e pela peculiar atmosfera, entre o maravilhoso e o fantástico. (ler tudo aqui)

"Eu nunca fui obrigado a fazer a saudação fascista aos «meus superiores». Eu nunca andei fardado com um uniforme verde e amarelo de S de Salazar à cintura. Eu nunca marchei, em ordem unida, aos sábados, com outros miúdos, no meio de cânticos e brados militares. Eu nunca vi os colegas mais velhos serem levados para a «mílícia», para fazerem manejo de arma com a Mauser. Eu nunca fui arregimentado, dias e dias, para gigantescos festivais de ginástica no Estádio do Jamor. Eu nunca assisti ao histerismo generalizado em torno do «Senhor Presidente do Conselho», nem ao servilismo sabujo para com o «venerando Chefe do Estado». Eu nunca fui sujeito ao culto do «Chefe», «chefe de turma», «chefe de quina», «chefe dos contínuos», «chefe da esquadra», «chefe do Estado». Eu nunca fui obrigado a ouvir discursos sobre «Deus, Pátria e Família». 

Eu nunca ouvi gritar: «quem manda? Salazar, Salazar, Salazar». Eu nunca tive manuais escolares que ironizassem com «os pretos» e com «as raças inferiores». Eu nunca me apercebi do «dia da Raça». Eu nunca ouvi louvar a acção dos «Viriatos» na Guerra de Espanha. Eu nunca fui obrigado a ler textos escolares que convidassem à resignação, à pobreza e ao conformismo; Eu nunca fui pressionado para me converter ao catolicismo e me «baptizar». 

Eu nunca fui em grupos levar géneros a pobres, politicamente seleccionados, porque era mesmo assim. Eu nunca assisti á miséria fétida dos hospitais dos indigentes. Eu nunca vi os meus pais inquietados e em susto. Eu nunca tive que esconder livros e papéis em casa de vizinhos ou amigos. Eu nunca assisti à apreensão dos livros do meu pai. Eu nunca soube de uma cadeia escura chamada o Aljube em que os presos eram sepultados vivos em «curros». Eu nunca convivi com alguém que tivesse penado no Tarrafal. Eu nunca soube de gente pobre espancada, vilipendiada e perseguida e nunca vi gente simples do campo a ser humilhada e insultada. 

Eu nunca vi o meu pai preso e nunca fui impedido de o visitar durante dias a fio enquanto ele estava «no sono». Eu nunca fui interpelado e ameaçado por guardas quando olhava, de fora, para as grades da cadeia. Eu nunca fui capturado no castelo de S. Jorge por um legionário, por estar a falar inglês sem ser «intréprete oficial». Eu nunca fui conduzido à força a uma cave, no mesmo castelo, em que havia fardas verdes e cães pastores alemães. Eu nunca vi homens e mulheres a sofrer na cadeia da vila por não quererem trabalhar de sol a sol. Eu nunca soube de alentejanos presos, às ranchadas, por se encontrarem a cantar na rua. Eu nunca assisti a umas eleições falsificadas, nunca vi uma manifestação espontânea ser reprimida por cavalaria à sabrada; eu nunca senti os tiros a chicotearem pelas paredes de Lisboa, em Alfama, durante o Primeiro de Maio. 

Eu nunca assisti a um comício interrompido, um colóquio desconvocado, uma sessão de cinema proibida. Eu nunca presenciei a invasão dum cineclube de jovens com roubo de ficheiros, gente ameaçada, cartazes arrancados. Eu nunca soube do assalto à Sociedade Portuguesa de Escritores, da prisão dos seus dirigentes. Eu nunca soube da lei do silêncio e da damnatio memoriae que impendia sobre os mais prestigiados intelectuais do meu país. Eu nunca fui confrontado quotidianamente com propaganda do estado corporativo e nunca tive de sofrer as campanhas de mentalização de locutores, escribas e comentadores da Rádio e da Televisão. Eu nunca me dei conta de que houvesse censura à imprensa e livros proibidos. Eu nunca ouvi dizer que tinha havido gente assassinada nas ruas, nos caminhos e nas cadeias. 

Eu nunca baixei a voz num café, para falar com o companheiro do lado. Eu nunca tive de me preocupar com aquele homem encostado ali à esquina. Eu nunca sofri nenhuma carga policial por reclamar «autonomia» universitária. Eu nunca vi amigos e colegas de cabeça aberta pelas coronhas policiais. Eu nunca fui levado pela polícia, num autocarro, para o Governo Civil de Lisboa por indicação de um reitor celerado. Eu nunca vi o meu pai ser julgado por um tribunal de três juízes carrascos por fazer parte do «organismo das cooperativas», do PCP, com alguns comerciantes da Baixa, contabilistas, vendedores e outros tenebrosos subversivos. Eu nunca fui sistematicamente seguido por brigadas que utilizavam um certo Volkswagen verde. Eu nunca tive o meu telefone vigiado. Eu nunca fui impedido de ler o que me apetecia, falar quando me ocorria, ver os filmes e as peças de teatro que queria. Eu nunca fui proibido de viajar para o estrangeiro. Eu nunca fui expressamente bloqueado em concursos de acesso à função pública. 

Eu nunca vi a minha vida devassada, nem a minha correspondência apreendida. Eu nunca fui precedido pela informação de que não «oferecia garantias de colaborar na realização dos fins superiores do Estado». Eu nunca fui objecto de comunicações «a bem da nação». Eu nunca fui preso. Eu nunca tive o serviço militar ilegalmente interrompido por uma polícia civil. Eu nunca fui julgado e condenado a dois anos de cadeia por actividades que seriam perfeitamente quotidianas e normais noutro país qualquer; Eu nunca estive onze dias e onze noites, alternados, impedido de dormir, e a ser quotidianamente insultado e ameaçado. Eu nunca tive alucinações, nunca tombei de cansaço. Eu nunca conheci as prisões de Caxias e de Peniche. Eu nunca me dei conta, aí, de alguém que tivesse sido perseguido, espancado e privado do sono. Eu nunca estive destinado à Companhia Disciplinar de Penamacor. Eu nunca tive de fugir clandestinamente do país. Eu nunca vivi num regime de partido único. 

Eu nunca tive a infelicidade de conhecer o fascismo."

 Denegação por Anáfora Merencória., titulo do texto de Mário de Carvalho

 

20 abril, 2019

Hoje, ao contrário do que é costume, transcrevo do "feissebuque"


...e a DESENHANDO SONHOS esteve lá

Foi na passada quinta-feira, na Biblioteca Municipal de Oeiras, ouvimos Mário de Carvalho responder a José Mário Silva, do Expresso.
As perguntas, bem alinhadas com a finalidade implícita de dar o conhecer o escritor e a obra, iam tendo respostas com a simplicidade de quem não tem (não sente) a necessidade de provar o quer que seja.
Desde o seu último livro ao primeiro, o diálogo foi-se fazendo perante uma (numerosa) assistência atenta e plena de cumplicidades.

Passou-se depois ao diálogo com o público e aqui surge a nossa pergunta oportuna, pois tem a ver com um texto que a Desenhando Sonhos tomou para ser divulgado nas escolas celebrando o 25 de Abril.

"DENEGAÇÃO POR ANÁFORA MERENCÓRIA", ora explique lá o sentido de tal título.

... e a explicação surgiu servida, acompanhada de um largo sorriso (quase gargalhada)... Eis a súmula, assim:
“Forma irónica de escrita num modo de negação cadenciada, que reforça a relevância do facto através da repetição da negação no início da descrição dos factos (ex: “eu nunca…”) transmite melancolicamente os factos, conferindo realidade e intensificando a triste realidade (de)negada.”
E o texto? Ei-lo: