12 novembro, 2010

"Caminhos do Meu Navegar" Cap I - Destino Angola

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Cap
I - Destino Angola


Navegar, navegar até alunar



1. O apaziguamento – 12 de Julho de 1969. Manhã estranhamente calma, dado o acontecimento da minha forçada partida para terras agitadas. Mas como tudo tem uma explicação, a serenidade sentida também a tinha. De há muito a guerra aberta entre mim e o Meu Contrário, nome que convencionei chamar ao meu outro eu, tinha reduzido a sua intensidade. Venci-o com a minha decisão em ir, aceitando a imposição que empurrava para a guerra várias gerações e a minha. O Meu Contrário argumentava, com palavras pesadas e sólidas dizendo-me incoerente, que eram já muitos os desertores, que eu sempre condenara a guerra e a politica colonial, lembrando a minha admiração pelo acto do poeta desertor. Lembrava até os meus momentos na “Casa dos Estudantes do Império” e do entusiasmo com que falava dos momentos que lá passava. Resisti, contra-argumentado coisas várias. Ser casado, ter duas filhas e as consequências familiares do estatuto de desertor, mais ainda do que o ser. Irado, o Meu Contrário desfilava adjectivos sendo o de incoerente mais por mim sentido que o de covarde ou vendido. Calar-lhe-ia a boca um argumento final: “E se a sublevação das forças armadas for uma hipótese, quem está cá para a suportar e fazer vingar?” questionei. O Meu Contrário calou-se e não voltou a falar no assunto. A minha consciência ficou de bem comigo. Em toda esta discussão Minha Alma abdicou do seu papel moderador entre mim e a razão. Acho que se ela se tivesse pronunciado eu teria desertado…

2. A despedida – O cais fervilhava. No rio, o paquete Vera Cruz começou a agitar mansamente as águas, logo após o desfile militar e a fanfarra ter terminado a marcha que tocara com estridentes clarins, bombos e caixas. Milhares de vozes poderiam ser confundidas com o bulício das praças, não fossem audíveis, como eram, os soluços e choros antecipando a despedida. Eu tinha sido dispensado de tais cerimónias, por pertencer aos Serviços de Saúde e aguardava a permissão da entrada das famílias dos oficiais e sargentos, no edifício central da estação marítima da Rocha Conde de Óbidos, cenário da despedida. Aos soldados, por razões logísticas, eram apenas permitido o acesso às mulheres, dos que fossem casados. Vi a Teresa e ela viu-me. Acenei e ela respondeu ao aceno, para confirmar a localização. Pouco tempo depois a Policia Militar franqueou o acesso. Teríamos corrido um para o outro se fosse o regresso, mas como nem sequer tínhamos partido a aproximação foi lenta, vagarosa. Nesses curtos instantes pensei que aquilo não podia acontecer assim. Uma vez juntos, falámos coisas que já tínhamos dito, até que eu, resoluto lhe disse, sem lhe procurar os seus olhos : “Espera um pouco, já venho”. Virei-lhe as costas e não regressei. Desci as escadas pelo outro lado e embarquei. Dentro do Vera Cruz ouvia os choros aumentar. Vozes de mulheres, mães gritando coisas saídas do ventre. A Minha Alma, essa, mantinha-se estranhamente calma mas sussurrou-me em ar de censura: “Rogério, a tua Teresa não merecia isto”. Mas, ao perceber o meu desespero, generalizou “Ninguém merecia isto…”. Pouco depois o Vera Cruz, com todos os militares embarcados, levantou ferro. Tudo se tinha passado em menos de hora e meio, dado que a experiência acumulada na organização destes embarques. No cais milhares de lenços esvoaçavam e, por ironia, pareciam pombas brancas, símbolo da paz que só o coração parecia requerer. Como resposta a esse aceno, do lado da embarcação, milhares de boinas militares eram agitadas no ar. Percebi que era isso que acontecia, pois não vi. Estava no meu camarote e aí permaneci até sair a barra do Tejo. Comigo o Meu Contrário, solidário e a Minha Alma, que permaneceu sempre em estranha calma...

3. Coisas que só as almas pensam - As primeiras horas de viagem foram passadas na amurada. E as seguintes também. Olhava o mar e o rasto deste meu navegar. A Minha Alma divagava: "...e se teu corpo em protesto caísse ao mar? E se esse acto provocasse reacção de revolta? E se todas estas tropas impusessem o regresso?". Nem eu, nem o azul do céu, nem mesmo o mar, lhe respondeu...
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4. A escala e a Rita – No terceiro dia, numa das minha deambulações pelo navio, que tinha na década de 50 sido um dos mais luxuosos paquetes europeus e seguramente o maior de Portugal, dei-me conta da austeridade da decoração e degradação causada pelo transporte de tropas. Foi num desses passeios que fui dar, sem querer, ao posto médico. À entrada, bem visível figurava a escala. Li e estremeci. Meu número e nome figurava em segundo lugar, significando que tinha estado de serviço no segundo dia de viagem e estava já no terceiro. Tinha-me passado completamente a obrigação de comparecer logo nas primeiras horas de viagem para ser informado dos meus turnos de enfermagem. Entrei no posto e procurei o alferes médico a quem lamentei a minha falta. O alferes não tugiu nem mugiu, limitando-se a dizer: “Faltaram todos até tu chegares. Mas ainda bem que apareceste. Veste a bata e ajuda aí a arrumar esta tralha”. Vesti a bata branca sem transferir a divisas para essa nova indumentaria, pois era sempre pouco cuidadoso nesses pormenores de atavio. Arrumei caixas de medicamentos durante um tempo e enquanto o fazia tomei a resolução de me deixar ficar por ali, independentemente de estar ou não na escala. Desse modo não só ocuparia o tempo como aprenderia a lidar com situações de emergência médica e a ganhar alguma prática e a necessária confiança. Dei uma olhadela ao registo de atendimento. Apenas sete nomes, registando: Feridas contusas e pensos, enjoos, alguns antiansioliticos e um único caso com diagnóstico mais reservado, embora o ponto de interrogação quisesse significar não definitivo. Ao lado, anotado, lia-se “volta amanhã”, o que deveria acontecer hoje. Preparava-me para fazer, não me lembro exactamente o quê, quando a porta, de batente, se abriu. "Olá doutor". Quem assim falou, olhou para mim e sorriu. Julgo que o médico respondeu. Mas eu fiquei sem ouvir mais nada. Minha Alma ficou com aquele olá a balancear-lhe nos meus ouvidos, com intensidade maior que o balancear do navio. "Olá" repetiu a voz na minha direcção e lançando-me um sorriso. O sorriso tinha luz e calor de enternecer. Ouvi-a então dizer, antes de desaparecer: "doutor se precisar de mim já sabe, mande um cabo chamar-me". "Está bem Rita, se for necessário chamo..." e virando-se para mim esclareceu "a Rita é uma enfermeira paraquedista que vai cumprir a sua 3ª comissão. No barco vão umas poucas. Não sei como mulheres bonitas aceitam esta vida de voluntárias na guerra...". Eu não comentei e a Minha Alma lá foi dizendo: "que lindo olhar...". O Meu Contrário, avisou: "Rogério, vê se tens juízo..."
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Nota: Em breve darei indicações sobre a forma de participar no meu texto.
Até lá, recorram à imaginação usando o espaço dos comentários