28 novembro, 2010

Homilias dominicais (citando Saramago) - 17

Escrever foi sempre um desejo e um embaraço. Cedo gostei de brincar com as palavras. Por isso, esse desejo manifestava-se sob a forma de um prazer lúdico tão intenso como o era o do jogo do berlinde ou do pião. O embaraço, sentia-o por não saber exactamente sobre o que escrever. Valorizava tudo: um carreiro de formigas; a corrida entre um palito e um pau de fósforo, deslocando-se na corrente das águas das últimas chuvas, junto à berma do passeio da minha rua; as azinhagas e os pátios dos bairros pobres do Alto do Pina; o rosto do meu avô; o Tejo nos lugares que me foram pintados pelo Tapadinhas. Tudo. A tudo isso eu sempre dei muito valor e ficava embaraçado só de pensar que, quem me lesse, não lho reconheceria. Só nas aulas de português, por vezes, uma redacção de tema livre ou outro, servia como teste que o professor carimbava com um solitário "Bom". Só perdi essa timidez quando li "O Mundo dos Outros" e exactamente quando a voz se me embargou quando li, em voz alta à Teresa, aquele conto, "A Boca Enorme", sem outro assunto que não fosse um sentimento. Desde esse dia, marquei o José Gomes Ferreira, como minha referência. Escrevia-lhe as frases todas-assim-ligadas-como-uma-corrente-poética. Seguiu-se um período de cartas escritas 2 por semana mais de cem semanas a fio. Depois aconteceu um período longo, de quase 40 anos, de escrita cinzenta e pejada de palavras importadas e que eram, invariavelmente tituladas de relatórios. Relatórios disto e daquilo, destinados a aprovação de patrões ou "cavaleiros da industria" que não liam mais que uma página de um "Sumário Executivo"...
Há poucos meses, sem esquecer o meu poeta original, consenti que fosse Saramago a empurrar-me para novos textos. O tema escolhi-o eu: a natureza humana e os seus caminhos. A forma é a de um livro virtual de viagens. Para o escrever tomo recomendações sábias e que incluo na

HOMILIA DE HOJE
  • "Aqui, cada um com seu desgosto e todos com a mesma pena."
  • "...é o que as palavras simples têm de simpático, não sabem enganar."
  • "O código genético disso a que, sem pensar muito, nos temos contentado em chamar natureza humana, não se esgota na hélice orgânica do ácido desoxirribonucléico, ou DNA, tem muito mais que se lhe diga e muito mais para nos contar, mas essa, por dizê-lo de maneira figurada, é a espiral complementar que ainda não conseguimos fazer sair do jardim de infância, apesar de multidões de psicólogos e analistas das mais diversas escolas e calibres que têm partido as unhas a tentar abrir-lhe os ferrolhos."

José Saramago in “Ensaio sobre a lucidez”