21 novembro, 2010

Homilias dominicais (citando Saramago) - 16

A morte juntou dois homens na mesma data, 20 de Novembro. Não importa se teriam mais alguma coisa de comum para além de "pequenas coisas" que guardo deles como referenciais de vida e de valores. Trago para os lembrar, palavras deixadas por outros, não sabendo se esses outros lhes tinham mais ou menos afecto que aquele que eu lhes dedicava...

Sobre o primeiro, velho militante comunista, escreveu ontem Ana Paula Fitas: "Joaquim Gomes foi um combatente antifascista que protagonizou, com Álvaro Cunhal, a célebre fuga de Peniche, esse tétrico forte da tortura a que Cunhal chamou "estrela de seis pontas". Firme e determinado na dedicação coerente a uma vida dedicada à luta pela Liberdade, Joaquim Gomes faleceu hoje, aos 93 anos de idade (ler Aqui)... e, nos dias que correm, fazem falta os bons exemplos da lucidez e da dignidade. Para que não esqueça"
Sobre o segundo, Pedro Beça Múrias, de 47 anos,escreveu Luís Naves: "Não era alguém que fingisse a generosidade, mas que a exercia como quem ouve uma boa história. Noutro país qualquer, o Pedro teria sido um daqueles jornalistas imprescindíveis. Aqui, o seu talento foi desperdiçado, talvez por causa do espírito independente, que os poderosos em portugal consideram ser defeito, mas que me parece ser uma qualidade."

É sobre a morte a :


HOMILIA DE HOJE

"Não creio que venhamos a saber alguma coisa da morte que tenha alguma utilidade para os vivos. Porque, mesmo que soubéssemos tudo a respeito dela, o simples fato de estarmos vivos nos impede de aprender algo que tenha que ver com a morte. Seria necessário uma demonstração racional sobre o que nos acontece. Não o que nos acontece na morte, o que nos acontece depois da morte.
Tenho isso, enfim, bastante claro. Desapareceu a matéria e com ela desapareceu tudo aquilo que, durante um tempo e consensualmente, achamos que não é matéria --que chamamos de espírito, alma ou coisa que o valha.
Às vezes pessoas vivem como uma espécie de enamoramento da morte. Levam a vida toda como que namorando a morte. Eu não pertenço a esse grupo."

José Saramago, em entrevista ao jornal "Folha de S. Paulo"

11 comentários:

ematejoca disse...

Eu pertenço ao grupo de Saramago, também nunca levei a minha vida a namorar a morte.

Isa GT disse...

Depois das suas palavras e das de Saramago, não tenho muito mais a acrescentar...
Talvez... ter pena que muitos utilizem a vida sem nunca conseguirem fazer parte do Todo e que apenas tenham nascido para consumir desenfreadamente, numa produção intensiva de todo o tipo de "lixo" e sofrimento.
Quanto aos seres especiais e únicos que já partiram, vale a pena recordá-los, especialmente, para nos fazerem parar para pensar.

Bjos

São disse...

Que os dois homens que nos deixaram tenham paz.

Depois de Saramago, que posso dizer?

Serena noite para si, carissimo.

Carla Farinazzi disse...

Rogério,

Não conhecia esses dois homens, mas já os admiro tanto pelo primeiro como exemplo da lucidez e da dignidade (tão raro hoje em dia) e pelo segundo como espírito independente (mais raro ainda).

Saramago, que saudade. Exemplo de lucidez, dignidade e espírito independente.

Post perfeito, amigo.

Beijo

Carla

folha seca disse...

Caro Rogério
A lei da vida é incortonável. Mais tarde ou mais cedo acontece a todos. Apenas temos grande dificuldade em aceitar esta realidade, especialmente quando se trata de pessoas de quem gostamos, mesmo que os não conheçamos pessoalmente.
Abraço

Anónimo disse...

Uma pequena correcção:

Quando Alvaro Cunhal falava da "Estrela de 6 Pontas", referia-se à Penitenciária de Lisboa ao cimo do Parque Eduardo VII

flor de jasmim disse...

Caro Rogério
Recorda-los e parar para pensar que tanta coisa poderia ser muito melhor se não existisse tanto egoismo.
A vida é uma passagem da qual ninguém nos falou do transporte que devemos apanhar, eu pessoalmente não consigo lidar lá muito bem com a morte e quando se trata de alguém que eu goste! Ufa.

Beijinho

Rogério Pereira disse...

Já tinha percebido que, por vezes, os anónimos acrescentam valor. O anonimato assim é, porventura, um acto de humilde participação no esclarecimento de um acontecimento ou situação,
que se deve agradecer...

Wanderley Elian Lima disse...

Olá Rogério
A morte, mesmo sabendo ser inevitável, sempre nos surpreende. Cada um marca de alguma forma sua passagem pela terra, famosos ou não.
Abração

Fernanda disse...

Caro Rogério!

Obrigado por teres trazido aqui e desta forma homenagear estes dois vultos que passaram quase incógnitos.

Não conheci Joaquim Gomes, a anti fascista que com Álvaro Cunhal conseguiram evadir-se de Peniche.
Um duplo agradecimento pelo ensinamento.

Pedro Múrias sim, eu conheci, mas não o sabia falecido.
É mais importante noticiarem quantos pratos vão servidos no jantar com o Obama do que falarem da morte dum jornalista talentoso e de espírito aberto...

Também não sei nada sobre a morte, ninguém sabe!
Sabemos mal da vida e mal a vivemos e muitos nem a vivem de todo...

Sei que não interessa a ninguém, mas eu penso que deixamos um pouco de nós nos que geramos, nos que ficam e continuam a dar forma a outros seres com alguma parte da nossa genética.
O resto foi tudo inventado para deixar alguns menos angustiados...
Abraço

ariel disse...

Grande homem, Joaquim Gomes!.

Não conhecia o Pedro Beça Murias.

Abraço