09 novembro, 2010

Chico Buarque premiado, dando-me conselhos, lendo-me um bocado...

Dos quatro livros que Chico Buarque escreveu, dois recomendo eu. O último, o agora premiado, deu para ele conceder uma entrevista onde tenho coisas a aprender, como aprendiz de escritor com ambição. Acho até que nesta passagem ele me estaria a dar conselhos. Passo essa parte:

Escreveu este romance sequencialmente? Quando se sentou para escrever o livro começou do princípio ao fim?

Sim. Já tinha algumas coisas esboçadas aqui e ali. Pouca coisa. Quando eu julguei que tinha o livro, que tinha história boa, a história que me interessava à mão, comecei a escrever do princípio e fui até ao fim. Evidentemente, uma outra vez, mas pouco, retornei a trechos anteriores por causa de acontecimentos que sucediam ali adiante. Fui obrigado a retocar algumas coisas mas isso foi muito pouco. Na verdade, ele foi acontecendo de cabo a rabo. Geralmente o que acontecia antes é que provocava [risos], é que tinha consequências ali adiante. Uma ou outra vez confesso que não. Alguma coisa que me interessava que acontecesse ali adiante, precisava que eu alterasse uma coisinha ou outra que já estava escrita. Mas de modo geral foi escrito do começo ao fim, na ordem que está no livro.

Sempre que recomeçava a escrita deste romance, lia o que já tinha escrito para trás. Lia alto, lia só para si?

Não cheguei a ler alto, não. Mas era como se lesse alto. Eu só me satisfazia com a escrita quando ela soava bem. Mas para soar bem, não preciso falar alto. Me soa bem um pouco como uma música dentro da cabeça. Quando digo música, digo música de propósito porque tem a ver. Acho que é evidente. Quem sabe que sou músico, que trabalho com música, ou mesmo talvez para quem não soubesse, daria para se perceber que esse autor mexe com música. É um autor que tem um ouvido musical. Agora eu, para pensar numa música, não preciso necessariamente de cantá-la. Dentro da minha cabeça tenho a melodia. E a melodia de cada frase do livro tinha que soar bem dentro da minha cabeça. Não me aconteceu de falar alto para ver se soava bem, não foi necessário. Há uma cadência, um ritmo dentro de cada frase que obedece a um critério musical. Isso já disse em relação a outros livros meus e é facto.
Isabel Coutinho entrevista Chico Buarque sobre "Leite Derramado"

O próprio autor lendo "Leite Derramado", depois de publicado