19 novembro, 2010

Caminhos do Meu Navegar (2)

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Cap I - Destino Angola

Navegar, navegar até alunar (continuação)
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4 – Senhora do Mar - A amurada do Vera Cruz era o meu lugar de eleição. Desde a saída da barra do Tejo, ficava ali. Perdia tempos incontrolados olhando o mar. Denso, forte, profundo, azul, feito de caminhos e horizontes. Por ser assim, só uma alma o poderia domar. Alma Lusa? Foi, em tempos. Não, não sabia quem mandava no mar, mas seria mulher com certeza. Sim, uma mulher. A Senhora do Mar, sua amante e mãe de todos os nossos destinos, mesmo dos inúteis e dos adiados (que ainda hoje espero que se cumpram).
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5. O pior dia da viagem - Saí da amurada e enquanto ia andado pensava que os dias tinham corrido depressa. Dirigi-me à minha ocupação voluntária e ao desejado reencontro com a Rita. Cheguei ao posto médico que estava cheio de soldados nesse quarto dia do meu navegar. Soube então que nas últimas horas tinham quintuplicado os enjoos e apareceram os desarranjos intestinais dos mais sensíveis. À aproximação do Golfo da Guiné, ventos e altas vagas pareciam enraivecidos, mais pela missão dos homens do que pela rota do navio, segundo me elucidou a Senhora do Mar, que sem saber como me acompanhara sem ser sentida nem vista. A comida a bordo tinha-se sofisticado de molhos e temperos, para esconder a já pouca frescura dos géneros ou o mau funcionamento de uma ou outra câmara frigorífica. Os cabos enfermeiros esforçavam-se para atender a todos e eram muitos os que seguravam a barriga como se, com esse gesto, pudessem suster fezes e gases nuns intestinos tão alterados quanto o mar. A cena até poderia ser cómica, com dezenas de militares parecendo “charlôs” em dança bamboleante ao ritmo das ondas de mar alto, se não fossem as feições de esgar e agonia, postadas naqueles rostos preocupados em procurar equilibrar corpos e almas. Quase tudo se esfumou quando a Rita apareceu, mesmo sem ter sido chamada. Olhares de espanto pelo aparecimento de uma mulher a bordo. Sorrisos apareceram, embora amarelos e mal esboçados, inundado todas as faces. Tentaram recompor-se o mais que podiam, mas não podiam muito. A Rita, percebera que seu aparecimento fazia parte da cura e para todos sorriu dizendo, em voz que não lhe esperava “Eh, pessoal força ai que isso já passa!” e passou. Não foi logo, logo, mas passou, quando o navio entrou então no Golfo. O resto da viagem seria de grande calmaria pois a Senhora dos Mares tinha desistido de por tino na cabeça dos homens. Talvez por perceber que aquele navegar era obrigado, por decisores que ficaram em terra firme…

6 – As frustrações de Rita (*) – A azáfama de tratamento a tão malcheirosa e contorcida clientela tinha envolvido todos, designadamente a Rita. Enquanto ela distribuía cuidados e sorrisos eu ia dizendo uma ou outra graçola amenizando o ambiente pintando com algum humor o ar empestado, o que até caia bem. Talvez por isso a Rita passou a dedicar-me mais atenção. A Minha Alma guiava todos os meus gestos e palavras mantendo a Rita em apertada vigilância, coisa que Eu e o Meu Contrário também fazíamos mais discretamente. Quando tudo ficou mais calmo, lisonjeei a Rita: “Você aparece e zás, vai-se embora a maleita, quase sem receita”. A Rita, deu uma gargalhada pela piada rimada “Pois é furriel, quase só sirvo para isso…”. Aquela resposta, intrigando-me, fez assunto para horas de conversa. A Rita contou como fora aliciada para os pára-quedistas, suas perspectivas de heroína e sacerdócio, sonhos de anjo salvador em teatro de guerra. Contou como depois tudo foi diferente: hierarquias militares de comportamento mulherengo e ordinário; soldados respeitosos mas de má educação contida; operações de faz de conta pois os comandos militares sempre recearam que a sua presença poder espevitar o inimigo. Como militar era uma mulher de movimentos limitados. Nas evacuações de feridos nem a deixavam sair do helicóptero, com tais receios. As mulheres na guerra colonial eram assim como que um “Movimento Nacional Feminino” fardado, integrado em unidades que ficavam pelas cidades e sedes de batalhão convivendo com as famílias dos oficiais mobilizados. Nunca a interrompi escutando atentamente. Enquanto a Rita falava, a Minha Alma acariciava-lhe o rosto delicado e firme e de pele muito morena, certamente de moura algarvia ou do meu Alentejo. A atenção dada às palavras não impedia que Minha Alma, despercebidamente, lhe percorresse o corpo enfarpelado nas vestes de pára-quedista adivinhando-lhe contornos femininos bem delicados. Num dado momento senti que a voz da Rita se comoveu por entrar em confissões até para si própria inesperadas. Pegou-me na mão e pediu que a acompanhasse. Hesitei e Minha Alma segredou-me “vai, ela precisa de ti. Está muito fragilizada”. O meu contrário pensava o mesmo e eu deixei-me conduzir. Percorremos a curta distância entre o posto médico e o camarote dela. “Entra” e eu entrei. “Fica à vontade”, disse. Eu limitei-me a tirar as mãos dos bolsos, sem depois saber o que lhes fazer. Minha Alma repetiu-me “cuidado Rogério, ela está fragilizada”. O Meu Contrário, sempre consciencioso, surpreendia-me com palavras ofensivas “és um tosco, um atado…”. Percebendo-me melhor a mim que eu a ela foi dizendo: “Estou recomposta, fica mais um pouco e depois sai e não voltes mais. Acabas de dar um contributo valioso para a minha má reputação”. Depois de uma breve pausa, explicou-se “quando apresentar a demissão aceitá-la-ão sem reservas e a má fama não importa nada… ”. Fiquei uns minutos, folheando o livro que ela tinha aberto sobre a cama e depois alguns discos, cujas capas reconheci. Cantares clandestinos reclamando outros destinos. Saí sem dizer palavra, fazendo-lhe com os lábios um gesto de beijar e em troca deu-me um sorriso. Cá fora, olhares maliciosos comentavam o que não tinha acontecido. Não desfiz o equívoco e apressei o passo. Minha Alma ia radiante pois eu tinha ajudado a Rita a fazer retorno de um caminho mal escolhido…

7 – O gado seria melhor instalado - Dividindo o tempo entre a amurada e o posto médico e com o mar muito calmo, o tempo passava rápido e o calor intenso e abafado adivinhava a proximidade do fim desta viagem. Fumava um cigarro quando o cabo Quintas se aproximou. Vinha sem a Sua Alma e totalmente tomado pelo Seu Contrário. “Pois é!” disse. “Pois é, o quê?”. “Vocês têm todas as regalias a bordo, circulam por onde querem, tem salas de jogos e eu, se estou aqui, até posso levar uma “porrada”. Quer ver as condições em que nos trazem?”. “Vamos lá” disse acompanhando-o atrás. Descemos três lances de escadaria. O ar ia escasseando à medida que um cheiro nauseabundo e indescritível se intensificava. Dei mais uns passos e entrei por uma porta baixa, meio inclinado atrás do Quintas. “Veja só”. Vi para não mais esquecer. Beliches construídos em paus de pinho, com pouco mais três palmos entre cada cama e a superior. A má iluminação de toda aquela área do porão não deixava ver a última fiada de camas. O cheiro de corpos mal lavados misturado com o que me parecia serem cheiros de restos de comida estavam ampliados pela falta de ventilação e pela avaria dos ozonizadores. Eu não disse nada, apenas se fez claro como é que um navio com capacidade para mil passageiros, transportava três mil militares. Meu Contrário comentou tão baixo que nem o Quintas ouviu: ”Com estas condições se tivesse que haver revolta, ela já teria acontecido”. Minha Alma não comentou, acho que nessa altura chorou…

8 – A alunagem – Dia 20 de Julho seria um dia histórico para a humanidade, mas também para a desumanidade. Eu e o Meu Contrário não conseguem lembrar todos os pormenores desse dia. Mas a Minha Alma tem memória selectiva e recorda todos os momentos sensíveis da aproximação a Luanda, capital da Província Ultramarina de Angola. A manhã estava particularmente agradável e ia aquecendo intensamente com o passar das horas. Fora convidado para jantar na messe dos oficiais tripulantes. Não referi antes, mas a partir do terceiro dia deixei de tomar as refeições principais no refeitório de sargentos e passeia-as a ter na companhia do oficial, que tinha a seu cargo a casa das máquinas do navio Vera Cruz. Era um bom amigo, vizinho e visita cerimoniosa de meus sogros insistiu para me dar do melhor quer em comida quer em conversas que se prolongavam sempre que a actividade de bordo o permitia. À hora da janta lá estava. O menu, fora escolhido por mim “Sopa do Fogo”(**) regada por bom vinho. O jantar foi animado e todos seguíamos as notícia do rádio que começou a reportar a alunagem seriam 8 horas da noite até que o feito era assinalado horas depois e já cerca das 3h da manhã com palavras de Neil Armstrong: “Este é um pequeno passo para o Homem. mas um grande salto para a Humanidade”. Irónica, a Minha Alma dizia-me ao ouvido. “Mais logo, com este desembarque, a humanidade dará mais um passo atrás!” Irónico eu também, pensava brincando com as palavras: “Se a Lua anda, se calhar Luanda não estará lá para este alunar…”. O Meu Contrário, se conhecesse Saramago teria feito um trocadilho com uma sua reflexão: “Chega-se mais facilmente a Marte do que ao nosso próprio semelhante”. Poucas horas depois pisava terras da Lua Anda. Chegara não ao fim mas ao inicio de outro caminhar, sem pensar que se teria ou não regresso…

Próximo subcapitulo: Zombando, rumo a Maquela do Zombo
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NOTAS DO AUTOR

(*) O texto "As frustrações de Rita" reproduz o testemunho de uma paraquedista que na realidade conheci a bordo. Procurei-a, pelo seu verdadeiro nome porque, por vezes, é fácil reencontros na web. Não vi qualquer mensão ou foto. Sobre a veracidade de algumas das suas declarações, encontrei neste documento e também neste, afirmações muito próximas e que, no essencial, comprovam as suas frustrações.
(**) "Sopa do Fogo" é uma espécie de sopa rica de couves, carnes e enchidos cozinhados no vapor das caldeiras do navio e que frequentemente serve de refeição ao pessoal de turno na "casa das máquinas" do navio.