26 novembro, 2010

Caminhos do Meu Navegar (3)

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Cap II - Por terras de Angola

Zombando, rumo a Maquela do Zombo



8 – A lua anda, em Luanda – 5 da manhã, 21 de Julho de 1969, hora de desembarcar do navio Vera Cruz. A lua tinha já fugido colocando-se, ela e os astronautas que por lá andaram, fora do meu pensamento. Eu, o Meu Contrário e a Minha Alma, olhávamos a luz do nascer do dia. Luz muito clara àquela hora e ainda morna. Os três, em conjunto, fixámos aquele céu antes de olhar para o que dali se avistava da cidade. Aquele céu não nos pareceu tão estranho quanto a terra. Antes de a pisar, fizemos um acordo. Zombar com tudo aquilo que viesse a acontecer. À medida que descia do portaló ia dizendo: “Nada do que irá acontecer, será levado a sério nesta vã tentativa de se adiar o futuro”. O Meu Contrário, que para os que só agora tomaram contacto com estas narrativas, não é mais que a outra parte de mim e a quem alguns chamam consciência, reforçou-me a decisão com um tom sentencioso: “Rogério, estou de acordo desde que isso não te leve a coisas disparatadas e que tanto dizes condenar”. A Minha Alma, foi mais reticente, mas lá se convenceu em pactuar. Chegou a alvitrar que talvez fosse mais aconselhável assumir um comportamento de zumbi, um morto vivo, em vez da opção escolhida de passar a ser um ser vivo confrontado com uma realidade que se propunha ridicularizar. Ficámos assim, num acordo forçado, de troçar com a tentativa do regime em impedir a queda do império colonial…
9 – O comboio malandro – Não sei se o poeta se referia ao comboio que liga o porto de Luanda ao Campo Militar do Grafanil, num percurso de cerca de 15 quilómetros, quando escreveu aquele poema que eu fui buscar antes mesmo de ele o pensar fazer. Este não é o do poeta, mas é um comboio malandro também. Minha Alma segredava-me com a ironia que tínhamos contratualizado: “Este comboio é um malandro cansado”. Tinha razão o comboio. Desde 1961, aquele máquina tinha já transportado mais de 300 000 praças e sargentos, seus contrários e outras tantas almas. Mas o comboio, todo inteiro, talvez soubesse que sua reforma não equivaleria à reforma daquele teimoso trajecto que muitos queriam apelidar de heróico. Cansado, arrastava-se nos carris e chiava ao peso da sua elevada carga, cerca de 3000 pessoas de verde fardadas. Cansado era também o fumo intenso e negro que, em excesso de malandrice, ia envolvendo tudo e todos e se ia desfazendo pela paisagem composta por um imenso casario abarracado, pois toda a periferia da cidade eram muceques. A marcha do comboio malandro era tão vagarosa, que permitia que centenas de crianças pretas a acompanhasse, uns dizendo adeus sorridentes, outros apenas mostrando os dentes (pois os sorrisos tinham-se esgotado nos últimos comboios que por ali tinham passado), outros ainda pedindo um moeda. Por parar um ou outro fazendo gesto de agachar, fiquei com a ideia que eram bastantes os soldados que mandavam seus trocos. Seria naquele dia um reforço àquela economia, pois que se tinham organizado para o peditório. Chegados ao campo de concentração militar (a expressão é cruelmente ambígua e irónica), houve tempo de desfile, parada e discurso de boas vindas. Tínhamos assim chegado à guerra colonial de forma mais oficial, embora a distribuição do armamento só viesse a ocorrer dias depois…
10 - A primeira carta – Aos sargentos e oficiais era facultada a pernoita nas respectivas messes, no centro de Luanda. Ainda havia sol quando cheguei ao quarto, depus o saco e saí. Procurei um café e de pronto escrevi a minha primeira carta à Teresa. Confirmava que ia ser deslocado para a Fazenda Costa, perto de Maquela do Zombo e que iria ficar em Luanda mais oito dias sendo a data de partida prevista para 30 de Julho. No fim da carta desenhei um navio e um comboio malandro para a minha filha João, com uma pequena descrição terminando enviando-lhe beijos e mil outros para a minha outra filha, a Sandra. Entre as notícias e este findar desenhado, era um desfilar de coisas ridículas, pois uma carta de amor, como todas as cartas de amor, tem de ser ridículas… Mais à noite, no serviço telefónico agendado, teria a oportunidade de falar com todas elas, um bom bocado. Pensei, se à época houvesse as actuais comunicações o Império Colonial teria caído naquele dia, logo a seguir à chegada do homem à Lua…
11 Uma montra – Só no dia seguinte vagueei pela cidade. Apenas iria ter relação com a cidade, muitos meses depois e, destes dias, guardo apenas difusas recordações. Lembro-me de ter parado frente a uma montra de roupa de criança. Roupa europeia. Olhei atentamente à procura de peças que imaginei poderem-se ajustar ao corpo pequenino das minhas filhas. Estendi a mão abrindo-lhe um palmo e coloquei-a quase sobre o vidro. Fechei um dos olhos, como se estivesse a fazer pontaria, mas apenas tirava medidas, sobre uma saiazinha cor de rosa. Estava eu neste estar, passaram duas catorzinhas cafecos que gargalharam, comentando “Os furrié tens os maluco nos cabeça dére”. O Meu Contrário, aproveitou para troçar e repetiu "Furriel, essa pose indica que tens já uma cabeça que amalucou". Minha Alma, silenciada, só nas minhas filhas pensava. Tirando aquela loja, tenho a vaga ideia de que Luanda não me pareceu uma cidade militarmente ocupada, mas certamente que estava...
12 - Rumo a Maquela do Zombo - Dia 30 de Setembro. 6 horas da manhã, hora da partida da coluna militar incorporando camionetas civis, com a nossa carga e o abastecimento regular. Partimos e eu, com uma arma na mão, zombava: "Minha Alma, sabes tu onde apontar para melhor falhar?". Minha Alma não respondeu, tinha adormecido. Provavelmente terá respondido antes de adormecer, mas já a não ouvi. Ambos acordaríamos horas depois, quase a chegarmos a Maquela... Só Meu Contrário fez todo o itinerário em estado de alerta e, ele primeiro que os adormecidos, ficou com uma primeira impressão do que era a África profunda num cenário pintado de falsa paz, pois todo o percurso foi feito sem sinais de guerra...

CONTINUA NA PRÓXIMA 2ª FEIRA
NOTA: O texto a cor diferente, corresponde a um acréscimo motivado por um comentário oportuno