31 outubro, 2010

Homilias dominicais (citando Saramago) - 13



Ambas as imagens representam a "passarola voadora".
A primeira, aquela que passei a usar, a outra, a verdadeira que Saramago conta à sua maneira...

No passado domingo, a citação de Saramago referida ao seu livro "A Jangada de Pedra" reportava-se a uma entrevista da qual transcrevo uma das partes, onde ele dizia: "Neste livro tentei demonstrar duas coisas; primeiro: a Península Ibérica tem pouco a ver com a Europa no plano cultural(...)Segundo: há na América um número muito grande de povos cujas línguas são a espanhola e a portuguesa.(...) Trata-se apenas de sonhar – acho que esta palavra serve muito bem – com uma aproximação entre estes dois blocos, e com o modo de o demonstrar. Ponho a Península Ibérica a vogar para o seu lugar próprio, que seria no Atlântico, entre a América do Sul e a África Central. Imagine, portanto que eu sonharia com uma bacia cultural atlântica."
Entre os comentadores apareceu quem me comentou assim: "Bonito o sonho dele.(...) Ou antes devemos nós da América do Sul formarmos uma ponte real entre nós mesmos ou que venham as caravelas a fazer-nos compreender isto. Nunca foi tão urgente - para todos." Achei que tinha que conhecer melhor quem assim me comentava e fui conhecer a Barbara. Dei com esta profunda reflexão sobre a sua Ancestralidade. Percebi a ligação entre esse texto, as palavras de Saramago e a urgência de encetar-mos novos caminhos. Sonho que radica numa consciência muito aprendida. Foi isso que fui lá dizer-lhe. É esse o tema da minha

HOMILIA DE HOJE

Barbara,
Não vim de caravela, nau ou barcarola mas nessa estranha passarola que Saramago de pronto me emprestou, com todas as garantias de aqui poder chegar.
Aqui estou. Trago a emoção de um reencontro com quem reencontrou suas raízes e delas fala. Quando decidi vir pensei em coisas simples de dizer. Não mudei de ideia durante a viagem. Venho lhe dizer que, quando li seu post, a emoção se repetiu pela enésima vez desde a primeira. A primeira, essa foi há cerca de 40 anos em Angola na cidade de Nova Lisboa (agora Huambo), que lhe vou contar:
Era já noite e ninguém nas ruas. Caminhava batendo os passos para sentir-me em companhia de mim próprio. Ia de não sei onde para lado nenhum, fardado com a farda do exército português, com a boina de cavalaria a ocupar-me as mãos. Passeava apenas, adiando o sono. Atravessei um denso jardim e, ao longe, oiço o dedilhar de uma guitarra em acordes indecisos. Fui andando nesse sentido à medida que a melodia se ia construindo e o som ganhava nitidez. Mesmo antes de a voz aparecer, reconheci a de Chico Buarque. Depois a voz deu-me a canção que quase sempre trazia no coração. Aproximei-me sem qualquer cuidado em reservar sinais da minha presença e fiquei surpreso à paragem brusca do cantar. Reagi retomando o verso “caiu na contra mão atrapalhando o tráfego” e sorri para o grupo. O que cantava, mulato claro estendeu-me a mão sorridente e julgo que aliviado. Os outros dois, um negro outro branco, acolheram-me assim também dessa maneira. Desafiei-os com a Elis e Jair Rodrigues: “O morro não tem vez e o que ele fez já foi de mais…” . O resto foram mais canções e prolongada cavaqueira sobre a cultura brasileira, a negritude, a miscigenação, a guerra colonial, a alma deles e a minha alma lusa de coração celta e sangue mouro. Foi essa noite que hoje lembro e que tem como pretexto a força das nossas raízes a relançarem o sonho de que uma “jangada de pedra” nos junte, numa "bacia cultural atlântica".
Peço desculpa por minha passarola lhe ter invadido, assim, o seu espaço… "