17 outubro, 2010

Homilias dominicais (citando Saramago) - 11

Antes desta homilia, ouvi um herético. Da sua heresia fica uma noticia que eu não sabia. Fica também a palavra de alguém (saiba aqui de quem) :

"Que Europa social é esta? Em Ano Europeu de Luta Contra a Pobreza, onde estão as garantias de rendimentos mínimos que enfrentem a pobreza? Onde pára a integração dos objectivos sociais e da sustentabilidade social nas políticas macroeconómicas? Onde está a defesa e promoção dos serviços públicos?"


Foto do brasileiro Sebastião Salgado, um dos fotógrafos mais famosos do mundo e amigo de José Saramago.

HOMILIA DE HOJE
Outras leituras para a crise - A mentalidade antiga formou-se numa grande superfície que se chamava catedral; agora forma-se noutra grande superfície que se chama centro comercial. O centro comercial não é apenas a nova igreja, a nova catedral, é também a nova universidade. O centro comercial ocupa um espaço importante na formação da mentalidade humana. Acabou-se a praça, o jardim ou a rua como espaço público e de intercâmbio. O centro comercial é o único espaço seguro e o que cria a nova mentalidade. Uma nova mentalidade temerosa de ser excluída, temerosa da expulsão do paraíso do consumo e por extensão da catedral das compras.
E agora, que temos? A crise.
Será que vamos voltar à praça ou à universidade? À filosofia?
-------------------------------------------in Outros Cadernos "Outra leitura para a crise" – Abril 7, 2009
Circunstâncias muito complexas - Falham os que mandam e falham os que se deixam mandar… São circunstâncias muito complexas as que marcam ou decidem o destino dos homens… Apenas sei que o mundo necessita de ser mais humano e essa é uma revolução pendente, uma revolução que, para além disso, deveria ser pacífica e sem traumas porque seria ditada pelo sentido comum.
--------------------------------------------In ABC (El Suplemento Semanal), Madrid, 28 de Maio de 1995
Uma palavra é quanto basta - Quantas vezes, para mudar a vida, precisamos da vida inteira, pensamos tanto, tomamos balanço e hesitamos, depois voltamos ao princípio, tornamos a pensar e a pensar, deslocamo-nos nas calhas do tempo com um movimento circular, como os espojinhos que atravessam o campo levantando poeira, folhas secas, insignificâncias, que para mais não lhes chegam as forças, bem melhor seria vivermos em terra de tufões. Outras vezes uma palavra é quanto basta.
----------------------------------------------------------------In A Jangada de Pedra, Ed. Caminho, 1986,