24 outubro, 2010

Homilias dominicais (citando Saramago) - 12

Quando oiço o mar, ou dele falar, amolecesse-me as iras e o seu lugar é tomado por anseios de utopia, regressos a passados de namban-jins ou a jangadas de pedra. O mesmo acontece quando escrevo. Frequentemente, em qualquer parágrafo iniciado em palavra alterosa ou em vaga de tempestade, acontece uma palavra final de rala espuma ou um doce e calmo espraiar da onda que antes era assustadora. Não é o caso de hoje. Oiço falar do mar e fico surdo. Li palavras e fico cego. Não é verdade o que ouvi. Não pode ser verdade o que acabo de ler...


Saramago, ao fundo, parece querer dizer:
"Depois de afundarem o país, preparam-se para afundar o oceano"...

Cavaco Silva discursa por palavras que não são suas. Sua montagem é mais sofisticada que a minha, que o colocou sob olhar atento de quem lhe inspirou um discurso. Ao dizer "apostar numa nova centralidade para Portugal." está a dizer o quê? ... Nada que mereça ser ouvido. Nada que mereça ser lido, pois não tem nada no seu passado que lhe dê qualquer crédito. Mas temos que admitir que o Semanário Expresso prestou um excelente trabalho à sua candidatura. O povo cada vez mais compreende que a solução não passa por esta Europa. Este o tema da minha
HOMILIA DE HOJE
"Mãe Amorosa, a Europa afligiu-se com a sorte das suas terras extremas, a ocidente. Por toda a cordilheira pirenaica estalavam os granitos, multiplicavam-se as fendas, outras estradas apareceram cortadas, outros rios, regatos e torrentes mergulhavam a fundo, para o invisível (...) Não podia a força humana nada a favor duma cordilheira que se abria como uma romã, sem dor aparente, e apenas, quem somos nós para o saber, porque amadurecera e chegara o seu tempo."

José Saramago, in "A Jangada de Pedra" 

"Neste livro tentei demonstrar duas coisas; primeiro: a Península Ibérica tem pouco a ver com a Europa no plano cultural. Dir-me-ão que a língua vem do latim, que o Direito vem do Direito Romano, que as instituições são europeias. Mas o certo é que, com este material comum, fez-se nesta península uma cultura fortemente caracterizada e distinta. Segundo: há na América um número muito grande de povos cujas línguas são a espanhola e a portuguesa. Por outro lado, nascem em África novos países que são as nossas antigas colónias. Então imagino, ou antes, vejo, uma enorme área ibero-americana e ibero-africana, que terá certamente um papel a desempenhar no futuro. Esta não é uma afirmação rácica, que a própria diversidade das raças desmente. Não se trata de nenhum quinto nem sexto nem sétimo império. Trata-se apenas de sonhar – acho que esta palavra serve muito bem – com uma aproximação entre estes dois blocos, e com o modo de o demonstrar. Ponho a Península Ibérica a vogar para o seu lugar próprio, que seria no Atlântico, entre a América do Sul e a África Central. Imagine, portanto que eu sonharia com uma bacia cultural atlântica."
Entrevista concedida por Saramago a Inês Pedrosa, in Jornal de Letras 10-16/11/1986