09 agosto, 2010

Chamaram-lhes namban-jin - III (conclusão)

Não foi por acaso que retardei um pouco a publicação do meu post final sobre o Japão e as duas culturas. Esperei por hoje, dia em que se recorda que passaram 65 anos sobre um holocausto, o de Nagasaki. Poderia procurar as palavras certas para que ninguém esqueça, mas deixo-vos aqui as palavras exatas de Alexandre Mauj Imamura Gonzalez, um brasileiro que afirma ser uma mistura originada de japones + (mistureba européia) e, tal como eu, com um distante sangue árabe no passado.

Esta imagem, dramática, retirei-a do seu post e nela se percebe a existência de caracteres. É um poema que conta parte do sofrimento dos que sobreviveram ao ataque.

O Alexandre afirma que é o mais simples e menos chocante que encontrou. Mesmo assim preferiu não traduzir para não chocar os leitores.

OS POSTS ANTERIORES

Nos textos que publiquei(1), dei conta da nossa passagem por Terras do Sol Nascente, da impressão que cada um dos povos tinha do outro. Comovi-me e comovi. Como diz o nosso bom povo "torci a orelha e não deitou sangue" ao saber que os "japões" nos deram todas as oportunidades... Guardei para hoje as palavras de Akira Miwa(2). Fala-nos com uma duplicidade que nos engrandece: como embaixador e como amigo. Daqueles amigos que nos falam olhos nos olhos, sabendo que dizendo-nos a verdade ela nos poderá magoar....
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EIS O QUE SELECCIONEI DA LONGA ENTREVISTA CONCEDIDA POR AKIRA MIWA

"O português que chegou ao Japão no século XVI conhecia muito bem o funcionamento da sociedade japonesa. Basta dar como exemplo que ainda hoje usamos um livro escrito por Luís Fróis sobre história do Japão para aprendermos a nossa própria história."

A religião católica só admite um deus, mas no Japão cremos na existência de muitas variedades de deuses, como acontecia na Grécia Antiga. Nós tendo tantos deuses estávamos abertos a acolher mais um, porque não? No entanto o catolicismo era demasiado exclusivo. Criou um problema social grave que acabou por dar origem a divergências políticas. (…) Cortámos então relações durante mais de 200 anos, só as retomando em 1860, com a assinatura deste tratado.(3)”

“A Holanda, a Inglaterra ou a França demoraram muito tempo a chegar até nós (…) Todos os contactos que queríamos manter com a Europa eram feitos através de Portugal”

“O interesse do (vosso) Governo está muito voltado para o centro da Europa, o que acho natural. Mas isso traz efeitos secundários.Com esse sucesso europeu, o país tende a esquecer a importância que poderia ter no resto do Mundo, fora da Europa. Sobretudo agora, num momento em que assistimos às dificuldades económico-financeiras em toda a Europa. Penso que o Governo português e o sector privado deveriam repensar sobre a sua dependência um pouco exagerada do mercado europeu.”

“Angola é um país no qual o Japão tem muito, muito interesse. O Brasil tem o mesmo interesse. Portugal idem aspas. Porque é que não colaboramos?”

“... como ministro Finanças e como primeiro-ministro (Cavaco Silva) visitou várias escolas japonesas e tinha ficado agradavelmente surpreendido com o conhecimento histórico das crianças sobre Portugal. Vocês deviam fazer o mesmo nas escolas, ensinar a cultura e a história dos países por onde passaram. É uma pena não o fazerem. Faz parte da memória. Não a manter é quase esquecer o passado. Falo também da índia, da China. Estão a perder a vossa memória.”

“Há muitas semelhanças entre portugueses e japoneses (…) A maneira de ser, o modo de reagir é muito igual. À parte o nosso relacionamento histórico, temos muito em comum. O japonês é mais português que espanhol. Para nós a Espanha é um país muito interessante, sim, mas por causa da diferença. Portugal é como se fosse o Japão europeu".

“Apesar do nível económico fraco, o nível de compreensão cultural e artístico (dos portugueses) é muito superior”

(1) Textos anteriores, ver aqui e aqui (2) Entrevista concedida a um suplemento do Semanário Expresso de 31.Julh.2010 (3) Tratado de Paz, Amizade e Comércio, cuja assinatura se comemora este ano o 150º aniversário