27 agosto, 2010

"Por terras do Caramulo" (Contando como foi...)

Tudo parecia conjugar-se para o retempero. O hotel, numa quinta que se dizia de Bispos, dava o necessário equilíbrio às imagens do vídeo de promoção. Seria, pensava eu, comer e beber que nem um abade, hibernar que nem um bispo e, assim, esquecer este mundo e o outro. Mal sabia eu...


Mal sabia eu que o meu almejado descanso iria sofrer revés significativo. No percurso até Campo de Besteiros, o nosso destino, tudo perfeito. Pequenos desvios, primeiro para um excelente leitão (Mealhada) e, depois de fartar a pança, fartar o olhar do alto de Penacova e procurar sem conseguir, um adjectivo adequado à paisagem. Seguimos pela IP3 e chegamos a Tondela. Daí ao hotel, foi um pulo. Ocupamos o tempo por aí e aí jantámos. Tudo normalmente bem e, como planeado, dormimos embalados em grilos e cigarras...
Pela manhã, após as coisas normais que se fazem em sítios destes, subimos a serra. Visitámos o museu. Aí aconteceu um primeiro percalço: cinco tapeçarias "À maneira de Portugal e da Índia" queriam à viva força obrigar-me à investigação sobre o nosso passado, sobre a nossa identidade... Passou-me essa crise e seguimos para o Caramulinho. Subidos os 274 degraus de acesso a esse ponto mais elevado, ficou tudo estragado. Diante os meus olhos, ao fundo e sob uma neblina de 12 séculos, os montes Hermínios (em vez da esperada Serra da Estrela) impunham-se com um perfil de lenda. O mapa tornou-se mais forte do que a paisagem e mais presente que o ar da serra. Via lusitanos por onde andavam beirões. Nas minhas costas, do longínquo Douro, chegavam-me vozes galegas que vindas de tão grande distancia, não dava para perceber o que diziam.

Ali, outra vez à minha frente, nas margens do Mondego acontecia mais uma emboscada a um fragmento da legião romana que procurava Viriato... (é fácil, de cima do Caramulinho, ver e pensar através de séculos). Num vai e vem de épocas, ocorreu-me reflectir no que pensariam os Lusitanos, que lutaram contra a ocupação romana, do alargamento do Condado Portucalense e da expansão galega produzida pelos exércitos de Guimarães empunhando novas bandeiras, após o tratado de Zamora. Teria sido pacífico dada a ameaça do progresso mouro? Nesses tempos haveria resistência ao alargamento de Portucale? Haveria mais Saramagos?
Com estas ideias na cabeça, disfarcei cantarolando, não fosse a minha Teresa (a minha, não confundir com a mãe do tal Afonso) perceber que estava a subverter os objectivos fixados para estes dias: "Indo eu, indo eu/ a caminho de Viseu/Encontrei o meu amor/Ai Jesus que lá vou eu"... Chegados a terras de Viriato, era grande o bulício dos lusitanos e poucos os lugares para estacionar o carro. Uma vez conseguido, demos umas voltas a pé e achámos "O Cortiço", o tal que 30 anos antes me deliciara com uma inesquecível morcela de arroz acompanhada de grelos... Entramos e as fartas e deliciosas entradas quase nos desviaram dum excelente entrecosto com couve e... morcela, servidos em louça de barro negro. Tudo regado com bom vinho servido em "jarro" de tanoeiro. Ficou-me cheia a tripa e os olhos no artesanato. Comprei estas peças. As de barro, em Molelos e lá descobri em Campo de Besteiros o tanoeiro que me vendeu o jarro de aduela.

Haveria mais que contar, mas fica este apontamento. Viriato tinha de facto razões para defender a sua Lusitânia e D. Afonso Henriques para a ocupar...