21 agosto, 2010

Homilias dominicais (citando Saramago) - 3

“Ich fühle mich in erster Linie als Portugiese, in zweiter Linie als Iberer und erst in dritter Linie als Europäer."
("Eu sinto-me principalmente como Português, em segundo lugar como ibérico e apenas em terceiro lugar como europeu".)

HOMILIA DE HOJE

PERGUNTAM-ME SE ME SINTO PORTUGUÊS - Tenho mantido silêncio feito de muitas palavras nos últimos posts com este titulo e que ocuparam este meu espaço nos últimos dias. Meias respostas à questão se me sinto, ou porque me sinto se é que me sinto, português. Primeiro, destaquei um ressurgimento, que penso existir, na música popular portuguesa com jovens a (re)voltarem às raízes do ser-se português. Reencontro com eles valores que me dão orgulho de um passado. Depois, seleccionei poetas que, pelas palavras em forma de lamento, me fazem sentir um bem-me-quer da Pátria para mim e de mim a este meu lugar. Mas, manteve-se a ausência de respostas, até chegarem as palavras de Saramago.

A MINHA IDENTIDADE COMO PORTUGUÊS - Diz-me José Saramago: “A busca do Outro talvez seja o caminho pelo qual cada um de nós consegue chegar a si próprio. Para aproximarmo-nos àquilo que somos temos de passar pelo Outro.” (1)
Ontem, o "Outro" foram todos os povos e civilizações que buscámos e com que nos cruzámos; hoje, é o confronto com a Europa onde sempre estivemos e com todo um mundo que vive uma globalização que muitos consideram irreversível. A grande questão se me sinto bem português encontrará resposta na minha satisfação em aceitar que o Outro seja a Europa. Se for, acho que perderemos todo o nosso passado e, com ele, a nossa identidade de povo.
Ao axioma Camoniano “Aqui onde a terra acaba e o mar começa” colocar-se-á a formulação desafiadora de Saramago “Aqui o mar acaba e a terra principia”(2). Cumpra-se o mar, como nosso verdadeiro chão e como nosso destino.

ANTIEUROPEÍSTA? - Não! Apenas e tal como Saramago, coloco a Europa em terceiro lugar e para dar finalmente resposta, sinto-me um português que espera ver esse seu sentir em primeiro lugar ou, se tal não for possível que a "Jangada de Pedra" nos aconteça...

(1) in "No Ano da Morte de Ricardo Reis"
(2) José Saramago citado por Blockeel, Francesca, Literatura Juvenil Portuguesa: Identidade e Alteridade

14 comentários:

Fernanda disse...

Rogério, amigo!

Ainda ando por aqui...
Tenho a cabeça cheia de boa música...
e o coração quente por te ter como amigo.

Não li ainda nada, volto mais logo...
Vim agradecer o teu carinho e dizer-te que sei que cumprirás a promessa.

Beijos

Luís Coelho disse...

Uma pergunta ainda sem resposta.
Somos europa, mas somos também portugueses e parece-me que fomos e somos primeiro portugueses e só depois europa.
Ou a europa é um todo igual para todos ou então não pode existir com tantas diferenças e só por interesse de alguns políticos.

Ana Brito disse...

Caro Rogério Pereira
Belo post...
A identificação é um processo pelo qual alguém se situa no lugar de um outro ou de uma "coisa" e deve ser entendido como uma espécie de (in)carnação psicológica. Nós desenvolvemo-nos a partir de uma unidade originária, porque a criança de tenra idade não pode tomar consciência da diferença que há entre si e o mundo exterior: vive a pessoa da mãe com se fosse parte do seu próprio corpo e a mamada constitui uma espécie de anexação. Embora pareça haver um fundamento comum da identidade, a convivência de cada "coisa" consigo mesma e penetrar no recinto do suposto "eu" equivale a encontrar-se sempre com alguma percepção particular e os chamados "eus" são apenas fases de diferentes impressões para aguentar a persistência das percepções em que se imagina uma alma ou outra qualquer substância subjacente, porque supomos que há um agregado de partes em relação mútua – “algo misterioso” que relaciona as partes independentemente de tal relação.
Pessoalmente, sou portuguesa com deveres, direitos e opções que se multiplicam indefinidamente, consciente da minha territorialidade privilegiada de interacções, numa dimensão de nova-velha localista, mas em que protagonizo relações sociais construídas sob uma dialéctica de expansão e de excepção que corresponde à personalidade base dos portugueses – um misto de sonhadora e mulher de acção – com capacidade de adaptação sem que tal implique falta de carácter e massa crítica. Sou, também, europeia, num cantinho qualquer de Portugal… e é quanto me basta para ser feliz :)
Um abraço amigo e bom domingo :)
Ana Brito

Fernanda disse...

Amigo Rogério!

Bom dia! Não há muito sol neste meu cantinho lindo, mas está-se bem!

Pois querido amigo, tens aí um belo texto que me leva a concluir que a tua forma de te sentires mais Português passa por te sentires menos Europeu.
Eu pessoalmente, concordo contigo e com Saramago.
Este nosso velho continente já deu o que tinha a dar...agora é só fachada e em ruínas, em todos os aspectos.
O Mundo está virado para o mar, sim, sem dúvida.
Por isso, uma vez te disse, que me sinto, primeiro Portuguesa, depois eventualmente Galega (porque para Ibérica teria que ter pata preta), depois porque há muitíssima identidade entre Portugal e a Galiza...até na pobreza, e finalmente, sem dúvida uma cidadã do Mundo, embora não aceite a Globalização nos seus totais e actuais preceitos.

Beijinhos

ematejoca disse...

Em primeiro lugar sinto-me PORTUGUESA, em segundo lugar alemã, em terceiro europeia, mas NUNCA ibéricca, devido à famigerada Espanha!!!
Já se esqueceram dos terríveis 60 anos com os Filipes?

A amiga de longe deseja um domingo muito feliz à Teresa e ao Rogério à maneira portuguesa, claro.

Manuela disse...

Rogério, nunca me senti Ibérica. Talvez por ouvir muitas vezes o famoso "De Espanha, nem bom vento, nem bom casamento". Depois não gosto da arrogância com que os Espanhois nos tratam , seja cá ou no país deles. Mas atenção que eu gosto da cultura espanhola. Portanto, sinto-me primeiro portuguesa e depois europeia.
Um abraço.

O Puma disse...

Boa reflexão ao correr da pena

Saramago sempre

Por mim cada vez mais
como sempre português sem fronteiras

Abraço

mdsol disse...

Que bom que a iniciativa "pegou"!


[Estou de volta, mas muito devagarinho]

:)))

folha seca disse...

Caro Rogério

Creio que Há muita coisa na vida que dávamos como certas e inquestionáveis, até que um dia, qualquer coisa que lemos ou ouvimos,faz com que um ponto de interrogação gigante nos caia na cabeça e fíquemos cheios de duvidas.
Quantas vezes ficamos surpreendidos e apenas conseguimos ficar a falar com os nossos botões, qualquer coisa como: "nunca tinha pensado nisto"

Não tenho respostas, aliás aumentei as duvidas, depois dos seus 3 ultimos posts. Mas a cabeça é para usar e parece-me que o meu caro para alem de nos pôr a usar os neurónios, aumenta (no bom sentido) a nossa inquietação. A propósito vou ouvir o Fausto na canção com esse titulo.
Abraço

folha seca disse...

Caro Rogério

Quando escrevi Fausto, devia escrever José Mário Branco, fui infuenciado pela excelente interpretação feita pelo dois mais o Sérgio Godinho nos 3 Cantos... mas o seu ao seu dono.
Abraço

ariel disse...

"....se tal não for possível que a "Jangada de Pedra" nos aconteça..."

Tal e qual, Rogério.
Beijinho

Lídia Borges disse...

Saramago sempre fiel aos seus princípios, às suas raízes, às suas convicções.
Muito interessante referência aos "Lusíadas" numa citação adulterada que revela flexibilidade e inteligência no "olhar".

L.B.

Saozita disse...

Olá Rogério, apesar da globalização, sinto-me bem portuguesa, esta é a minha terra, a minha pátria e pela nossa independência lutaram os nossos antepassados é por isso que não somos uma província espanhola. De entre todos os povos que habitavam a Península Ibérica, foram os Lusitanos os que lograram não ficar debaixo da tutela Catelhana!

Tem uma boa noite.
Bjs

Sãozita

Rogério Pereira disse...

Pois é deixei-vos a afirmar coisas...
Vou levar estas afirmações comigo. Comentá-las-ei na próxima homilia...
Desculpem o interregno. Será curto o suficiente para que, no dia a seguir ao meu regressar, dele já não me lembrar...

Até lá