29 agosto, 2010

Homilias dominicais (citando Saramago) - 4

Numa das minhas homilias anteriores (a 2ª editada em 15 de Agosto) um amigo que muito prezo, do blogue "Mar Arável", comentou assim "Conhecendo pessoalmente Saramago duvido que se visse como apóstolo mas tão só como cidadão impoluto português e do mundo". Não tendo tido tal honra, partilho dessa impressão. Contudo, acho que a sua memória não será traída por este nosso movimento de a fazer perdurar no gesto de quem se queira assumir como "embaixador" (significado etimológico da palavra apóstolo) das suas reflexões. Assim o façam respeitando-lhe o sentido. Pena que não possa corrigir-nos eventuais desvios...


O interrogatório do homem que saiu de casa
depois da hora de recolher
começou há quinze dias e ainda não acabou
Os inquiridores fazem uma pergunta em cada
sessenta minutos vinte quatro por dia
e exigem cinquenta e nove respostas diferentes para cada uma
É um método novo
Acreditam que é impossível não estar a resposta verdadeira entre as cinquenta e nove que foram dadas E contam com a perspicácia do ordenador para descobrir qual delas seja
e a sua ligação com as outras
Há quinze dias que o homem não dorme nem
dormirá enquanto o ordenador não disser não preciso de mais ou o médico não preciso de tanto
Caso em que terá o seu definitivo sono
O homem que saiu de casa depois da hora de recolher não dirá por que saiu
E os inquiridores não sabem que a verdade está na sexagésima resposta
Entretanto a tortura continua até que
o médico declare
Não vale a pena

(José Saramago, in O Ano 1993)

A HOMILIA DE HOJE

100 CIDADES PROTESTAM - 100 cidades protestam contra apedrejamento de Ashtiani no Irão. O movimento culmina muitos dias de divulgação dramática de tal desumanidade ocupando, com a imagem quase imaculada de um rosto de mártir, as primeiras páginas da imprensa do mundo tido por civilizado, bem como a abertura dos seus jornais televisivos e radiofónicos. A imagem passa igualmente pela blogosfera e redes sociais em tons hunãnimes de condenação. Não fora isso e Ashtiani teria aquela morte num silencio de pedras... Que nos fique o exemplo. Que o mundo se erga contra as desumanidades. Que a imprensa caia em cima de outros condenados de outros países, que a tortura até à morte sofra pesada perseguição e denúncia (como o fez Saramago tantas vezes e no poema acima). Que 1000 cidades se ergam contra a desumanidade e que a imprensa mobilize as consciências a partir do dia em que Ashtiani cumpra um destino qualquer ele seja. Caso não aconteça, fica-me o sabor do aproveitamento de uma vítima para fins inconfessáveis...

DEVERES HUMANOS - "Depois de milénios de civilizações e culturas, os deveres humanos encontram-se inscritos nas consciências, inclusivamente quando aparentamos ignorá-los ou desprezá-los. Não há que escrever uma Carta dos Deveres Humanos, há que apelar às consciências livres para que a manifestem e a assumam."

José Saramago, in “Soy un grito de dolor e indignación”,
ABC (Suplemento El Semanal), Madrid, 7-13 de Janeiro de 2001


UMA HIPÓTESE DE HUMANIDADE - "Talvez a história do homem seja um enorme movimento que nos leve à humanização. Talvez não sejamos mais que uma hipótese de humanidade e talvez se possa chegar a um dia, e esta é a utopia máxima, em que o ser humano respeite o ser humano. Para chegar a isso se escreveu o Ensaio sobre a Cegueira, para perguntar a mim mesmo e aos leitores se podemos continuar a viver como estamos vivendo e se não há uma forma mais humana de viver que não seja a da crueldade, da tortura e da humilhação, que são o pão desgraçado de cada dia."

José Saramago, in “Escribí para saber si hay una forma más humana de vivir que no sea la crueldad”,
La Voz de Lanzarote, Lanzarote, 25 de Junho de 1996

Outros apóstolos que editaram, na passada semana, textos lembrando José Saramago

"Palavras Daqui e Dali"; "Cirandando"; "Ematejoca Azul"; "Na Casa do Rau" e "Largo das Calhandreiras"