01 agosto, 2010

70 anos entre dois acontecimentos. (Ou será que este último não chega a ser um acontecimento?)

ALGARVE - "Guerra da Alfarroba"?
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Quando hoje li no DN as palavras de Jerónimo de Sousa, dizendo que no Algarve o desemprego teria aumentado 38,4% o qual seria o maior do país, fez-se uma luzinha quanto à causa provável do roubo da alfarroba. Há dias, quando soube que tais roubos assumiam proporções alarmantes nunca associei à luz que agora se me apareceu, iluminando-me a mente e dizendo-me: “É a fominha, pá!”.
Inicialmente, quando soube do roubo brinquei, mentalmente, com o facto: “Eh, pá! Um homem não é de pau! Se elas, marotas, dizem: ó alfa, rouba!, porque eu não posso? No que é que o alfa é mais do que eu?”. A ideia de ser a fome a explicar tudo, levou-me a reler a notícia. Aí tive a oportunidade de perceber que se insinua ser coisa de ciganos e que os produtores das mal-chamadas alfarrobas se preparam se organizarem em milícias para se substituírem às autoridades. Ciganos ou Algarvios esfomeados? O Conde de Lippe não fazia distinção, escrevendo no Regulamento Geral do Exército: "algarvios, alentejanos, ciganos e outras gentes de mau porte devem ir para corneteiros"...

ALENTEJO - "GUERRA DO TACO"
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Estas hipóteses de fome e roubos e da má impressão que o tal conde teria dos ciganos e das gentes do sul, também das gentes alentejanas, veio-me á memória acontecimentos que minha mãe me contou, sobre o seu Alentejo. À “guerra da alfarrobas” dos dias de hoje, ligo essa descrição de uma outra guerra, a “guerra do taco” (ou “Tumulto do Taco”, como é chamado num texto que descobri aqui, com as datas de 1940 e 41).
Contava-me a minha mãe, que na altura era conhecida como uma das “meninas da loja nova”, loja que meus avós abriram, nos anos 40, na aldeia de Ermidas Sado:

“Dantes era assim... Sabes filho, a fome era muita e o povo pouco tinha para comer. Na nossa loja, passavam-se dias e dias sem qualquer venda e o que se vendia era fiado. O avozinho, sabes como ele é, incapaz de recusar o quer que fosse àquela boa gente, lá ia aguentando conforme podia. Para agravar, a faina da cortiça nesse ano foi fraca. Os proprietários, ou para fugir à despesa ou para não se darem ao trabalho, não extraíram a cortiça. O povo, pela calada da noite, ia aos montes e apanhava o que podia. Chegaram a estragar sobreiros bons, arrancando-lhe os “tacos”. Olha, foi uma guerra. A GNR de Alvalade (Sado) veio aqui a Ermidas, fazer uma espera e desancou desalmadamente em muitos trabalhadores que eram conhecidos. A revolta generalizou-se com a prisão de mais de 20. Tiveram de vir reforços e até agentes da polícia política, que nesse tempo não se chamava PIDE. Houve muitas, muitas mais prisões e a calma só regressou quanto os agrários deixaram que a cortiça fosse extraída e pagas algumas jornas. Foram tempos terríveis…”

Lembro estas palavras da minha mãe, na sequência de uma carga da GNR a cavalo dispersando uma manifestação popular que aclamava Humberto Delgado, junto ao cemítério do Alto de S. João, teria eu cerca de 14 anos. Como poderia esquecer?

Imagem que consegui na net, num texto histórico, e que documenta o que eu e minha mãe vimos da nossa janela, fazendo-a lembrar a "Guerra do Taco". Esperemos que cenas semelhantes não retornem...

14 comentários:

Isa GT disse...

Também espero que mais nada disto aconteça, mas isto está a ficar complicado e se calhar, quem está agora a roubar não são os que estão a ficar com fome...
E aí, é que eu gostava de saber o que, realmente, se passa.

Rogério Pereira disse...

Cara Isa,
Quem alfa rouba não compra Alfaromeu. Nem será qualquer Romeu, roubando alfarromas para ofertar à sua Julieta... Se não é por fome... será pela vontade de comer. Serão ciganos? Provávelmente! Habituados que estão á venda de roupas e bujigangas, se nada disso lhes compram, terão que sobreviver de outro modo. Se não são ciganos, aposto que o Conde Lippe saberá que será "outra gente de mau porte"... sem ter lugar para corneteiro!

Beijo

PS- Gente de bom porte não rouba, faz desvios...

O Puma disse...

Até o grande merceeiro Belmiro

entende que o povo com fome

tem direito a "roubar"

nas mercearias do lado

Abraço

folha seca disse...

Caro Rogério

Só me ocorre aquela do Aleixo

"Sei que pareço um ladrão..."
Abraço

Rogério Pereira disse...

Caro Puma, que comentário mais oportuno. Todos, e até o merceeiro do Belmiro, estão preocupados com uma situação que "toca" a todos. Esta notícia é recente:

O Barómetro Europeu de Roubo no Retalho indica que em 2009 os custos de roubo no sector atingiram os 286 milhões de euros em Portugal (clientes e empregados são os principais suspeitos). Três anos antes, os prejuízos causados pelos furtos haviam sido de 150 milhões, quase metade da cifra...
(último Expresso)

Abraço

Rogério Pereira disse...

Folha Seca,

posso dar~lhe o todo:

Sei que pareço um ladrão...
mas há muitos que eu conheço
que, sem parecer o que são,
são aquilo que eu pareço.

(António Aleixo, Algarvio, portanto pertence ao grupo da gente de mau-porte que anda a sacar alfarroba...)

Abraço

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Confesso a minha ignorância: desconhecia o episódio da Guerra do Taco.
Quanto ao grande merceeiro Belmiro está bem acompanhado pelos parceiros da distribuição, nomeadamente Jerónimo Martins e o príncipe da cortiça.

Fernanda disse...

Olá amigo Rogério!

Olha estava completamente alheada desta situação!
Honesta e francamente não sabia de nada, mas faz todo o sentido...
Sabes que tinha a ideia de que ninguém mais ligava puto à alfarroba e às alfarrobeiras???
Eu própria acho, tenho a certeza que nem sei se isso é comestível, e???
Desculpa a minha ignorância, mas diz-me, isso é o que chama aqui para o Norte de fava rica???
Não!!! não creio... mas se for eu disso já comi, em mocinha e gostei, sabia a baunilha!!!
Então agora andam a roubá-la lá pelo Algarve aos produtores???

Sabes? toda esta história fez-me lembrar o outro que diz "Quando não há pão até bolotas vão"....
Beijinhos

Ana Martins disse...

Boa noite Rogério,
também desconhecia esta notícia, mas quem rouba alfarroba não deverá ter muita fartura não, apesar disso não passam de ladrões, porque como o Rogério diz e muito bem, "gente de bom porte não rouba, faz desvios..."
E o que não nos falta por cá actualmente, é gente de bom porte a fazer desvios!

Beijinhos,
Ana Martins
Ave Sem Asas

Rogério Pereira disse...

Caro Carlos, a Guerra/Tumulto do Taco foi-me contada pela minha mãe, como escrevo no texto. Aliás todo este texto retrata o que se passou comigo. Foi a partir da notícia do desemprego que dei importancia à notícia do roubo da alfarroba e à memória chegou-me então o passado na aldeia alentejana onde minha mãe vivia. Procurei informação mas o único registo encontrado foi o que indiquei no link. Também não há informação sobre o que é na realidade subericola o chamado "taco". Contento-me com a explicação que a minha falecida mãe me deu na altura...

Abraço

Rogério Pereira disse...

Fernanda,

A alfarroba é um fruto, cujo aspecto se parece com um feijão-verde, de maior dimensão. De cor castonho, bem escuro. Foi em tempos uma matéria-prima para a industria alimentar e das rações para animais. Como fruto, tem um sabor agradável mas não é de fácil mastigação. Como tudo nesta terra, o interesse económico só agora está a ser apreciado. O ministro da agricultura lançou a primeira pedra para a construção de uma nova fábrica que não sei se vai ser rentável, dado que a alfarroba saiu dos nossos hábitos alimentares...

Se te interessa, podes saber um pouco mais através do google...

Beijos

Rogério Pereira disse...

È isso Ana

Pobre é ladrão
Rico, não é isso não!

Beijos

mdsol disse...

O que eu aqui aprendi hoje. E que bem contado!
Muito bem!

:)))

Rogério Pereira disse...

MdSol

Atendendo à qualidade do seu blogue aos posts que assina, considero as sua palavras um forte incentivo.

Obrigado!