21 janeiro, 2013

"Boa malha", alguém gritava. Era o chinquilho, e eu ficava tempos sem fim a olhar aquilo...


Era do outro lado da estrada, à porta da tasca, num terreiro onde parava a rara camioneta de carreira que ligava o Montijo ao Barreiro. Da quintinha até lá eram cem passos apressados e mal contados. Era ali que aos domingos se juntavam os homens. Miúdos não havia, era só eu. Minha avó deixava-me ir, contrafeita "não te quero ali,  aquela gente não tem tino na língua e só sabem dizer destarelos". Mas eu insistia e ia. Ia e ficava por lá até que a última rodada fosse paga por quem não tivesse ouvido uma única vez o grito de "boa malha". Tino na língua, não tinham. Quanto a dizerem "destarelos", não sabia se os diziam, mas não parecia que os dissessem. Falavam das duras condições de trabalho lá na fábrica dos adubos do Barreiro, em confronto com as condições que havia na Mundet, a corticeira ali perto. Falavam do salário magro.  Falavam do pão que fazia parte da semanada. Falavam de coisas do Estado e da volta que se esperava que este levasse. Falavam de Nehru e da muito provável invasão de Goa. E entre um assunto e outro, se ia ouvindo "boa malha". Acho que aqueles homens não reuniam ali para jogar. Nem para beber. Acho que eles ficavam por ali para se sentirem irmanados naquilo que os irmanava. 

O jogo era mero pretexto e de cada vez que lhes ouvia coisa acertada, gritava para dentro de mim mesmo, sem que ouvissem nada: "boa malha!"