14 janeiro, 2013

Poesia (uma por dia) - 29


Do vento que se diz imperfeito (reeditado) 
«O poema que nunca poderá ser escrito
Não está em lado nenhum mas à tua frente»
António Ramos Rosa

Pudesse explicar o sedimento, a forma do vento
e não seria num poema, não

não existem manuais para construção dos pássaros
que voam, mas existem
instruções para conservar a sombra do homem
como um sopro no coração, e por coração
a forma bem revestida
a carcaça ferrugenta na forma dum outro pássaro, talvez
o conciso novelo de arame farpado
que não arde pelo fogo, nem se espalha
na palavra que o vento ateia, mas existe

o sedimento e dobra e forma no vento que não é
engenho voador; é invento ténue, é todo
o claro silêncio que escuta, as quantas pedras da palavra
mas num poema, não

existe o absoluto, a dúvida, as ciência
que explica com a máxima precisão
as incertas dimensões do tempo,
o transbordo dos precários rios que trago na mão
o remendo dos cieiros alojados no vento norte, o ventre
que traz a asa, a raiz do corpo que aos poucos apodrece
no pouco embrulho, o pouco escrito na pele adentro
no mapa do mundo meu caminho que não soube migrar
nem sabe, mas existe

porque escrito no primeiro dos livros, a palavra, a explicação
o que se diz desta mão, o quanto do vento se fez imperfeito
existe
mas num poema, não.

Leonardo B / "A barca dos amantes"