22 julho, 2018

Um conto ao Domingo - XVIII ("A Pipoca-2")

Passou o outro domingo como tinha passado o sábado. Não comeu, nem bebeu, nem miou. Não se ouviu um único ron-ron. De quando em quando, roçava as pernas da Teresa, como que a dizer-lhe que não era por culpa dela tal comportamento.
"Deixa, ela acaba por se habituar", disse, pouco convicto disso.

Na segunda-feira seguinte repetiu-se  tudo como nos dois dias anteriores com uma diferença, lançava-me a mim um olhar recriminatório, como a dizer que não podia morar dentro do meu olhar.

Tomámos então a decisão de devolver a Pipoca ao seu espaço. Aí voltou ao normal.

Passada a semana, hoje a Teresa confirmou que, se é verdade que ela não pode morar no meu olhar, não é menos verdade "Que não se pode morar nos olhos de um gato":
Desmama-te desanca-te desbunda-te
Não se pode morar nos olhos de um gato

Beija embainha grunhe geme
Não se pode morar nos olhos de um gato

Serve-te serve sorve lambe trinca
Não se pode morar nos olhos de um gato

Queixa-te coxa-te desnalga-te desalma-te
Não se pode morar nos olhos de um gato

Arfa arqueja moleja aleija
Não se pode morar nos olhos de um gato

Ferra marca dispara enodoa
Não se pode morar nos olhos de um gato

Faz festa protesta desembesta
Não se pode morar nos olhos de um gato

Arranha arrepanha apanha espanca
Não se pode morar nos olhos de um gato

Alexande O'Neill
EPÍLOGO
A Teresa liga aliviada à minha-mais-nova a dar notícia: "Já ontem tomou os dois comprimidos, só o da noite é que deixou um bocado, mas hoje foi tudo. Talvez o comprimido da noite tenha um sabor muito activo... Ela gosta mais de frango do que de atum. E nem queiras saber a festa que me fez à chegada. Não me largava..."

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