22 janeiro, 2026

É DESTA? SERÁ MESMO DESTA QUE UM POEMA MEU PASSARÁ A CANÇÃO?

O Júlio e eu

Creio que será mesmo desta. A porta abriu-se há exactamente dois anos, mas não se terá fechado. Sobe-o num reencontro inesperado em contexto triste (o velório de um comum amigo). Pediu-me que me sentasse com ele e, estendendo-me a aparelhagem, pediu-me que o escutasse. Assim fiz... e gostei. Gostei da sua voz. Gostei do ritmo hip-hop. Gostei do que ouvi. E depois de lho ter dito, foi a vez de ele me dizer que iria para a frente com o projecto...

Recordo então o texto que anunciava a abertura da porta:

"Lembram-se que todos vós me "empurraram" para que aceitasse o desafio? E que teríamos que iniciar um caminho, de "trabalho, a quatro mãos"?

O primeiro passo foi dado, enviando-lhe trabalho meu, um tal livrinho "O melhor de mim somos nós - e outros poemas" que o terá atingindo, em cheio, na alma. De pronto marcámos encontro, que decorreu esta manhã na "minha esplanada".  Trocámos ideias sobre os passos seguintes, depois do Júlio me dar conta da sua escolha. Disse-me ele "o poema que mexe comigo está na página 13!"

E o que antes era um poema, passou agora a ler letra. Esperemos a canção do Júlio.

PEDRA, DEPOIS PÓ

E FINALMENTE VIDA

Olhei a pedra
Fria, Estúpida, Parada

Calada

De tanto a olhar, julguei-a bela

Transformei-me nela

Frio, Estúpido, Parado

Calado

Sem destino sequer

de pedrada no charco

Sujeito à degradação do relento

e à erosão do vento

em breve serei pó

Não olhes para mim, assim
Mexe-te, ao menos
 

A pouco e pouco se mexeram
e num repente

o Mundo assistiu

ao despertar das pedras

Rogério Pereira

 

19 janeiro, 2026

PENSANDO A TRAÇO FINO - A VERDADEIRA COERÊNCIA - III (ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS)


Não há muito (Julho 2025), sobre o tema, escrevia eu que "A verdadeira coerência está caindo em desuso. E finalizava eu tal texto "Resumindo, é coerente aquele que faz (ou vai fazendo) em concordância com o discurso produzido e com os princípios que defende, doa a quem doer!"

Cabe agora acrescentar que a coerência, a verdadeira, exige e determina que actos que repetem sejam repetidos respeitando os mesmos princípios e os mesmos elementos. Estava confuso? E dei um exemplo para ajudar:

Forças políticas fecharam acordo em Lisboa: PS, BE, Livre e PAN avançam em coligação para defrontar PSD;
Forças políticas fecharam acordo em Loures: BE, Livre e PAN avançam em coligação para defrontar o PS.
Em resumo:

A quase-esquerda, em Lisboa, achava o PS muito querido
A quase-esquerda, em Loures, achava o PS muito horrendo

Ontem, pelos resultados, o caso muda de figura: é que em termos de coerência há que mobilizar contra o mal-maior.
 Daí o meu apelo a que se vote em Seguro
... e mais, que toda a verdadeira esquerda se entenda criando uma frente unitária que defenda os princípios e valores constitucionais! 

Aceita-se o contraditório 

16 janeiro, 2026

EM FINAIS DA CAMPANHA, AO RELER ESTE DOCUMENTO, SÓ PODIA VOTAR EM QUEM VOTO (ADIVINHEM... QUEM?) - III (continuação)

CONTINUAÇÃO DO TEXTO DA "DECLARAÇÃO DOS DEVERES HUMANOS" 

nove

1. Todas as pessoas têm o dever e a obrigação de, dentro das suas condições e possibilidades, participar responsavelmente nos assuntos públicos e na tomada de decisões colectivas.

2.Todas as pessoas, em particular as organizações económico-empresariais, os partidos políticos e demais organizações sociais, económicas e culturais, têm o dever e a obrigação de respeitar e exigir o respeito pelas regras de financiamento das campanhas eleitorais e dos partidos políticos.

3.Todos os partidos e organizações políticas têm o dever e a obrigação de contribuir para a articulação democrática da sociedade, a representatividade política, com especial atenção ao objetivo da igualdade de género.

dez

1. Todas as pessoas têm o dever e a obrigação de exigir o acesso à educação gratuita e a responsabilidade da sua instrução, aproveitando devidamente os recursos educativos.

2. Os pais, tutores e centros educativos têm o dever e a obrigação de educar sem discriminação de nenhum tipo.

3. As instituições académicas, educativas e os docentes têm o dever e a obrigação de promover e reforçar a consciência dos direitos humanos, da democracia, da paz, da pluralidade, da igualdade de género e o respeito pelo ambiente e pela biodiversidade.

onze

1. Todas as pessoas têm o dever e a obrigação de respeitar e exigir o respeito pela cultura e línguas próprias ou alheias, assim como pela memória colectiva dos povos e seu património cultural material e imaterial e de transmitir esse património comum às gerações futuras.

2. As organizações económico-empresariais têm o dever e a obrigação de respeitar os recursos naturais dos quais dependem as práticas culturais dos povos indígenas e outras comunidades autóctones.

3. Todas as pessoas têm o dever e a obrigação de proteger a biodiversidade e de respeitar e fomentar a multiculturalidade.

doze

1. Todas as pessoas têm o dever e a obrigação de respeitar a criação cultural e as produções científicas, literárias ou artísticas e de velar pelo respeito dos direitos morais e materiais de autoria e criação.

2. Os investigadores, cientistas, centros de investigação, as empresas e demais organizações sociais, económicas e culturais têm o dever e a obrigação de promover o conhecimento, o desenvolvimento e a inovação científica e tecnológica responsável em benefício da humanidade, e de proceder em conformidade com as melhores práticas éticas.

treze

1. Todas as pessoas têm o dever e a obrigação de prevenir doenças e contágios, assim como de fazer uma utilização racional e responsável dos serviços de saúde.

2. Todas as empresas e empregadores têm o dever e a obrigação de velar por condições de salubridade no trabalho.

3. Todas as pessoas têm o dever de exigir prestações de saúde de carácter gratuito e universal assim como a regulação adequada do preço dos medicamentos.

4. Todas as empresas farmacêuticas e mé- dicas têm o dever e a obrigação de partilhar o conhecimento científico e técnico e de fixar o preço dos medicamentos de forma a não im- pedir o acesso a condições básicas de saúde pela população.

5. Todas as pessoas, organizações económi- co-empresariais e organizações sociais e cul- turais, têm o dever e a obrigação de distribuir equitativamente os alimentos e de evitar o desperdício a fim de erradicar a fome.

catorze

1. Todas as pessoas e empresas, independentemente da localização da sede da sua activi- dade, têm o dever e a obrigação de promover e exigir condições dignas e seguras de trabalho, com uma remuneração justa, não discriminatória e com total respeito pela proibição do trabalho infantil.

2. Os empregadores têm o dever e a obrigação de garantir a igualdade de oportunidades e a não discriminação no trabalho, de respeitar o direito dos trabalhadores à organização colectiva e à liberdade de formar sindicatos, de promover o pleno emprego e o acesso dos jovens ao trabalho e de tomar as medidas necessárias para acomodar pessoas com necessidades especiais.

3. Os empregadores têm o dever e a obrigação de contribuir para o sistema de segurança social.

4. Os empresários têm o dever e a obrigação de respeitar e promover o cumprimento dos direitos humanos dentro das suas esferas de influência e, em especial, de abster-se de qual- quer forma de exploração humana.

5. Todas as pessoas têm o dever de desempenhar o seu trabalho e profissão no respeito pelos respectivos códigos deontológicos.

CONTINUA

15 janeiro, 2026

EM FINAIS DA CAMPANHA, AO RELER ESTE DOCUMENTO, SÓ PODIA VOTAR EM QUEM VOTO (ADIVINHEM... QUEM?) - II (continuação)

CONTINUAÇÃO DO TEXTO DA "DECLARAÇÃO DOS DEVERES HUMANOS"

 quatro

1. Todas as pessoas têm a obrigação e o dever de respeitar e exigir o respeito pela vida e a integridade física, psíquica e moral dos seres humanos.

2. Todas as pessoas, organizações económico-empresariais e organizações sociais e culturais, têm o dever, a obrigação e a responsabilidade de não participar nem aceitar sequestros, escravidão, tráfico de crianças e adultos, tortura, práticas desumanas, cruéis e degradantes, violência de género, exploração infantil e trabalho forçado.

cinco

1. Todas as pessoas, organizações económico-empresariais, organizações sociais e culturais, entidades religiosas e centros educativos, têm o dever e a obrigação de respeitar e exigir o respeito pela autonomia e identidade sexual das pessoas, menores ou adultos.

2. Todas as pessoas têm o dever e a obrigação de não participar nem aceitar práticas de abuso e violência sexual, escravidão sexual, tráfico de pessoas para fins de prostituição ou exploração pornográfica.

seis

1. Todas as pessoas têm o dever e a obrigação de respeitar e exigir o respeito pela autonomia corporal e a vida privada e familiar das pessoas.

2. Todas as pessoas e entidades religiosas têm o dever e a obrigação de respeitar as diferentes formas de relação que cada qual escolhe livremente.

sete

1. Todas as pessoas, organizações sociais, económicas e culturais e, em especial, as autoridades eclesiásticas e religiosas, os meios de comunicação, centros educativos, organizações económico-empresariais e patronais, têm o dever e a obrigação de respeitar e exigir o respeito pela liberdade ideológica e religiosa das pessoas e de não incitar ao ódio nem à discriminação.

2. Todos os praticantes, crentes e seguidores de qualquer ideologia ou religião, nas suas práticas ou manifestações, têm o dever e a obrigação de respeitar os direitos humanos e as liberdades fundamentais.

oito

1. Todas as pessoas e organizações, especialmente os meios de comunicação, têm o dever e a obrigação de respeitar e exigir o respeito pela liberdade de expressão e informação e de contribuir para o seu acesso com total respeito pela pluralidade.

2. Todas as pessoas têm, na medida das suas condições e possibilidades, o dever e a obrigação de se manterem informadas e de participarem responsavelmente nos assuntos públicos.

3. Todas as pessoas e os meios de comunicação, incluindo os usuários das redes sociais, têm o dever e a obrigação de velar pela veracidade da informação transmitida, pela salvaguarda da intimidade e respeitabilidade das pessoas, assim como pela utilização responsável do ciberespaço.

4. Todas as pessoas e os meios de comunicação, incluindo os usuários das redes sociais, têm o dever e a obrigação de não incitar à violência ou à discriminação.

CONTINUA

14 janeiro, 2026

EM FINAIS DA CAMPANHA, AO RELER ESTE DOCUMENTO, SÓ PODIA VOTAR EM QUEM VOTO (ADIVINHEM... QUEM?) - I

O discurso pronunciado por José Saramago na cerimónia de entrega dos Prémios Nobel, a 10 de dezembro de 1998, data em que se celebrava o 50.o aniversário da Declaração Universal de Direitos Humanos, teve consequências: a Universidade Autónoma do México e a Fundação José Saramago assumiram a proposta do escritor para elaborar, a partir da sociedade civil,

uma simetria da Declaração de Direitos. Assim nasceu a Declaração de Deveres Humanos, documento cívico que reivindica a importância dos cidadãos na construção da sociedade melhor defendida pela Declaração Universal de Direitos Humanos.

Juristas, activistas e políticos de vários países, reunidos na Cidade do México, deram vida
a um documento de responsabilidade cívica que posteriormente, em 2018, foi entregue à Comissão de Direitos Humanos da ONU e ao seu Secretário-Geral, António Guterres. Trata-se de um contributo mais porque, como escreveu José Saramago, «Somos a memória que temos e a responsabilidade que assumimos. Sem memória não existimos, sem responsabilidade talvez não mereçamos existir.»

... e é este o texto do documento: 

preâmbulo 

Atendendo às crescentes desigualdades e violações de direitos humanos e às dificuldades em realizar os objectivos desenhados para o desenvolvimento harmonioso da humanidade na sua globalidade;

Entendendo que a Declaração Universal
de Direitos Humanos afirma no seu artigo 29 que todas as pessoas devem assumir os seus deveres jurídicos com respeito às suas comunidades;

Aceitando que as possibilidades de alcançar o desenvolvimento pleno das pessoas não se esgotam no cumprimento dos deveres jurídicos, sendo as obrigações éticas igualmente indispensáveis para a sustentabilidade do Estado de Direito;

Reconhecendo que, pelo seu poder, capacidade ou função social, as pessoas e os diversos actores sociais possam ter graus diferentes de responsabilidade na sua contribuição para o desfrute de direitos por parte de todos.

declaramos:

um

Todas as pessoas têm o dever de cumprir e exigir o cumprimento dos direitos reconhecidos na Declaração Universal de Direitos Humanos e nos restantes instrumentos nacionais e internacionais assim como das obrigações necessárias à sua efectiva realização.

dois

Todas as pessoas têm o dever e a obrigação de um exercício solidário e não abusivo dos direitos e de desfrutar responsavelmente dos bens e serviços.

três

Todas as pessoas, e especialmente as organizações sociais, económicas e culturais, têm o dever e a obrigação de não discriminar e de exigir o combate à discriminação por motivo de raça, cor, sexo, idade, género, identidade, orientação sexual, língua, religião, opinião política, ideologia, origem nacional, étnica ou social, deficiência, propriedade, nascimento ou qualquer outro motivo.

CONTINUA

13 janeiro, 2026

CELEBRAM-SE ESTE ANO OS 50 ANOS DA PROMULGAÇÃO DA CONSTITUIÇÃO, MOMENTO PARA LEMBRAR OUTRO CINQUENTENÁRIO

É exactamente no ano em que se celebra a Constituição que esta corre enorme risco... se estas eleições derem para o torto, a Democracia, tarde ou nunca se endireita. Julgo que é este o momento de lembrar palavras de Saramago, em 10 de Dezembro de 1988, vá se lá saber porquê:

"Cumpriram-se hoje exactamente cinquenta anos sobre a assinatura da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Não têm faltado, felizmente, comemorações à efeméride. Sabendo-se, porém, com que rapidez a atenção se fatiga quando as circunstâncias                                lhe impõem que se aplique ao exame de questões sérias, não é arriscado prever que o interesse público por esta comece a diminuir a partir de amanhã. Claro que nada tenho contra actos comemorativos, eu próprio contribuí para eles, modestamente, com algumas palavras. E uma vez que a data o pede e a ocasião não o desaconselha, permita-se-me que pronuncie aqui umas quantas palavras mais.

Como declaração de princípios que é, a Declaração Universal de Direitos Humanos não cria obrigações legais aos Estados, salvo se as respectivas Constituições estabelecem que os direitos fundamentais e as liberdades nelas reconhecidos serão interpretados de acordo com a Declaração. Todos sabemos, porém, que esse reconhecimento formal pode acabar por ser desvirtuado ou mesmo denegado na acção política, na gestão económica e na realidade social.

A Declaração Universal é geralmente considerada pelos poderes económicos e pelos poderes políticos, mesmo quando presumem de democráticos, como um documento cuja importância não vai muito além do grau de boa consciência que lhes proporcione.

Nestes cinquenta anos não parece que os Governos tenham feito pelos direitos humanos tudo aquilo a que, moralmente  quando não por força da lei, estarem obrigados. As injustiças multiplicam-se no mundo, as desigualdades agravam-se, a ignorância cresce, a miséria alastra.

A mesma esquizofrénica  humanidade que é capaz de enviar instrumentos a um planeta para estudar a composição das rochas, assiste indiferente à morte de milhões de pessoas pela fome.

Chega-se mais facilmente a Marte neste tempo do que ao nosso próprio semelhante. Alguém não anda a cumprir o seu dever.

Não andam a cumpri-lo os Governos, seja porque não sabem, seja porque não podem, seja porque não querem. Ou porque não lho permitem os que efectivamente governam, as empresas multinacionais e pluricontinentais cujo poder, absolutamente não democrático, reduziu a uma cascasem conteúdo o que ainda restava de ideal de democracia. Mas também não estão a cumprir o seu dever os cidadãos que somos. Foi-nos proposta uma Declaração Universal de Direitos Humanos, e com isso julgámos ter tudo, sem repararmos que nenhuns direitos poderão subsistir sem a simetria dos deveres que lhes correspondem, o primeiro dos quais será exigir que esses direitos sejam não só reconhecidos, mas também respeitados e satisfeitos. Não é de esperar que os Governos façam nos próximos cinquenta anos o que não fizeram nestes que comemoramos.

Tomemos então, nós, cidadãos comuns, a palavra e a iniciativa. Com a mesma veemência e a mesma força com que reivindicarmos os nossos direitos, reivindiquemos também o dever dos nossos deveres. Talvez o mundo possa começar a tornar-se um pouco melhor."

01 janeiro, 2026

MENSAGEM DE ANO NOVO, ESPERANDO... (AINDA SEM DESESPERO)

Imagem StreetArt Child

 

 

 

Mensagem deste Ano Novo
Trago do Ano Velho
tudo o que tenho,
e é pouco, como mostro.
Não me tirem mais!, eu troco...
Troco este rádio
pelos esqueletos que guardas no armário.
Troco o meu brinquedo
pelo teu medo,
e o o meu colar pelos fantasmas
que não largas.
Dou-te o meu boné
se me deres as teias
em que te enleias.
Dou-te todas as minha miseras roupas
se me vestires com teu sorriso.
Dispenso-te minhas pobres botas
se jurares
percorrer caminhos que não ousaste.

Julgas que tudo o que te move e a que te agarras
valem mais que estas minhas vestes e tralhas?

Vá, pensa!, tudo o que te proponho
não tem de acontecer agora.
Vamos trocando pelo ano fora.
Vamos trocando?
Vamos?

Ah, e esta rua
é também tua.
Usa-a para a minha luta, já.
Vá!
Rogério Pereira (reeditado, com alterações)