04 maio, 2018

A João poemou-me


Como comentário a um poema seu, escrevi assim, eu
Não sei que ave sou
Mas no meu voo
divido
o que multiplico
______________
Podes fazer um soneto sobre isso?
E ela satisfez o meu pedido
NÃO HÁ FIM PARA O SONHO. NÃO HÁ FIM...

Não há, neste planeta, mar nem céu,
Estrada longa demais, alta montanha,
Ponte suspensa sobre um medo teu
Que te trave esse sonho e, coisa estranha,

Um pouco desse sonho é também meu,
Um nada dessa chama em mim se entranha
E aonde chegar, chegarei eu,
Pois nisto ninguém perde. Só se ganha.

Não há fim para um sonho construído,
Nem haverá lugar para o vencido
Num sonho desta forma partilhado

Se, quando te pareça estar no fim,
Vês que mal começou dentro de mim
E que outros vão nascendo a nosso lado.

Maria João Brito de Sousa – 02.05.2018 – 12.54h

03 maio, 2018

Bento de Jesus Caraça e o respeito à sua memória


O Bento, assim dele fala sua irmã carinhosamente, era um menino amoroso. Assim começa o vídeo. Lá mais à frente, começam os testemunhos. Registo-os. O vídeo, todo ele e quem nele dá a cara, tem em comum a admiração pelo Homem e por diferença afirmações de sim e de não. 
Era Bento militante comunista? 

Agora isso só importa pelo respeito à sua memória.

Se nos anos sessenta me perguntassem a mim se era comunista, muito provavelmente ou não responderia ou responderia com a ironia que nesse tempo já tinha "Olhe, tenho que consultar Minha Alma e neste momento ela anda ocupada"...

Voltando ao respeito pela memória de Bento de Jesus Caraça, ocorrem-me testemunhos, este, escolhido entre muitos outros:
«(...) nas condições de clandestinidade a organização e os contactos no Partido eram compartimentados e nenhum membro do Partido se afirmava como tal, a não ser na sua ligação orgânica. De mim para mim, tinha por certo que B. Caraça era membro do Partido, mas não o poderia afirmar. O relacionamento partidário directo deu-se em 1943. Em 1941-42, época da reorganização do PCP, eu tinha de novo passado à clandestinidade e sido enviado como funcionário do Partido para o Norte do País. Em Outubro de 1942, tendo sido presos vários dirigentes do Partido, fui chamado de novo para Lisboa, a fim de integrar o Secretariado desfalcado com a prisão de Júlio Fogaça. Ora era precisamente Júlio Fogaça que assegurava na época a ligação partidária com B. Caraça. Fui eu encarregado de restabelece-la, o que sucedeu em 1943.
No mundo então envolvido na 2.ª Guerra Mundial, 1943 foi um ano marcado em Portugal pelo impetuoso ascenso do movimento operário, a afirmação do PCP como um grande partido nacional e o empreendimento pelo Partido da unidade antifascista na luta pela liberdade e a democracia. B. Caraça deu nessa conjuntura uma contribuição em alguns aspectos determinante para alcançarmos com êxito tal objectivo.

Lembro que o III Congresso do PCP (primeiro realizado na clandestinidade), noticiado no Avante! de Novembro de 1943, anunciava a criação do Movimento de Unidade Nacional Antifascista, e o Avante! de Janeiro de 1944 noticiava a formação do Conselho Nacional, orgão supremo do MUNAF.
O êxito deveu-se em grande parte à acção de B. Caraça, como militante do Partido, graças à sua influência nos meios intelectuais e entre os antifascistas. Acompanhei muito de perto toda essa acção. (...) O Avante! de Janeiro de 1944 confirmando a criação do MUNAF anunciava a formação do Conselho Nacional em que inicialmente entrámos, como representantes do PCP, B. Caraça e eu próprio.»
Álvaro Cunhal, in “Testemunho sobre Bento do Jesus Caraça”
E também este:
«O poder revolucionário duma ideia mede-se […] pelo grau em que ela interpreta as aspirações gerais, dadas as circunstâncias do momento em que actua. Assim, uma ideia ou teoria que, em dada época, é revolucionária, pode, noutra em que as circunstâncias sejam diferentes, ter perdido por completo esse carácter.» O que Bento Caraça está a dizer aqui, se não interpreto mal as suas palavras, lembra singularmente a parábola do vinho e dos odres que se pode ler em S. Marcos: «Ninguém deita vinho novo em odres velhos; se o fizer, o vinho acabará por romper os odres e perder-se-á o vinho juntamente com os odres. Mas o vinho novo deita-se em odres novos.» Tenho a certeza de que Bento Caraça, apesar de comunista, laico e republicano, não se importaria de subscrever estas palavras do evangelista.»
José Saramago, aqui

Se, depois destes testemunhos, sobrarem dúvidas, siga-se o ditado do nosso povo ajustado ao passado: diz-me com quem mais andaste, dir-te-ei quem foste!


02 maio, 2018

Afinal, o Professor João Caraça soube gerir o tempo


Contrariamente ao meu receio, o Professor João Caraça, soube gerir o tempo. Não é fácil, mesmo atendendo à experiência, há o fator emoção. É que falar de um pai, como Bento de Jesus Caraça, seria de esperar que não se contivesse e fosse por aí fora...


... ouvi-o entre a assistência atenta. Atenta e diversa, entre autarcas, "capitães de Abril", responsáveis de associações e da imprensa local, alunos do ensino de adultos do Centro Qualifica... todos, todos, ali, ouvindo falar sobre um "Desenhador Sonhos"...


No fim aplaudimo-nos. Foi memorável. 
E sabem que mais? Nem um espirro, nem um acesso de tosse, nem uma só assoadela. 

Ontem fiquei em casa, perdi um 1º de Maio, mas ganhei este conforto em ter proporcionado o conhecimento sobre um Homem notável, sobre um meu camarada.

À despedida, comovida, prometi ao nosso convidado fotos e textos. Mas isso farei noutro lugar. Naquele espaço dos "Desenhadores de Sonhos"!


01 maio, 2018

Forçado pelo diabo, perdi este 1º de Maio


Pela manhã fingi estar melhor, como fosse possível esconder olhos lacrimejantes, tosse persistente e espirros denunciantes de um estado que teimava em não melhorar. "Não, não vais!, assim... nem penses!" Dizia-me ela entre o autoritário e o tom de quem implora. Fez com ela coro a Minha Alma e até o Meu Juízo me dissuadiu chamando-me à razão sobre coisas inadiáveis, dizendo-me "Vê lá, é melhor ficares em casa. É amanhã que fazes falta!"

Vencido e convencido, entreguei-me à tarefa de preparar o enquadramento a dar à apresentação, reli o que escrevera sobre o que José Gomes Ferreira dissera dele e passei os olhos sobre outros textos.

Amanhã estarei melhor, certamente. Agora a dúvida é saber se ao Professor João Caraça irão chegar os 60 minutos que tem para falar de um Homem tão grande, seu pai.