03 maio, 2018

Bento de Jesus Caraça e o respeito à sua memória


O Bento, assim dele fala sua irmã carinhosamente, era um menino amoroso. Assim começa o vídeo. Lá mais à frente, começam os testemunhos. Registo-os. O vídeo, todo ele e quem nele dá a cara, tem em comum a admiração pelo Homem e por diferença afirmações de sim e de não. 
Era Bento militante comunista? 

Agora isso só importa pelo respeito à sua memória.

Se nos anos sessenta me perguntassem a mim se era comunista, muito provavelmente ou não responderia ou responderia com a ironia que nesse tempo já tinha "Olhe, tenho que consultar Minha Alma e neste momento ela anda ocupada"...

Voltando ao respeito pela memória de Bento de Jesus Caraça, ocorrem-me testemunhos, este, escolhido entre muitos outros:
«(...) nas condições de clandestinidade a organização e os contactos no Partido eram compartimentados e nenhum membro do Partido se afirmava como tal, a não ser na sua ligação orgânica. De mim para mim, tinha por certo que B. Caraça era membro do Partido, mas não o poderia afirmar. O relacionamento partidário directo deu-se em 1943. Em 1941-42, época da reorganização do PCP, eu tinha de novo passado à clandestinidade e sido enviado como funcionário do Partido para o Norte do País. Em Outubro de 1942, tendo sido presos vários dirigentes do Partido, fui chamado de novo para Lisboa, a fim de integrar o Secretariado desfalcado com a prisão de Júlio Fogaça. Ora era precisamente Júlio Fogaça que assegurava na época a ligação partidária com B. Caraça. Fui eu encarregado de restabelece-la, o que sucedeu em 1943.
No mundo então envolvido na 2.ª Guerra Mundial, 1943 foi um ano marcado em Portugal pelo impetuoso ascenso do movimento operário, a afirmação do PCP como um grande partido nacional e o empreendimento pelo Partido da unidade antifascista na luta pela liberdade e a democracia. B. Caraça deu nessa conjuntura uma contribuição em alguns aspectos determinante para alcançarmos com êxito tal objectivo.

Lembro que o III Congresso do PCP (primeiro realizado na clandestinidade), noticiado no Avante! de Novembro de 1943, anunciava a criação do Movimento de Unidade Nacional Antifascista, e o Avante! de Janeiro de 1944 noticiava a formação do Conselho Nacional, orgão supremo do MUNAF.
O êxito deveu-se em grande parte à acção de B. Caraça, como militante do Partido, graças à sua influência nos meios intelectuais e entre os antifascistas. Acompanhei muito de perto toda essa acção. (...) O Avante! de Janeiro de 1944 confirmando a criação do MUNAF anunciava a formação do Conselho Nacional em que inicialmente entrámos, como representantes do PCP, B. Caraça e eu próprio.»
Álvaro Cunhal, in “Testemunho sobre Bento do Jesus Caraça”
E também este:
«O poder revolucionário duma ideia mede-se […] pelo grau em que ela interpreta as aspirações gerais, dadas as circunstâncias do momento em que actua. Assim, uma ideia ou teoria que, em dada época, é revolucionária, pode, noutra em que as circunstâncias sejam diferentes, ter perdido por completo esse carácter.» O que Bento Caraça está a dizer aqui, se não interpreto mal as suas palavras, lembra singularmente a parábola do vinho e dos odres que se pode ler em S. Marcos: «Ninguém deita vinho novo em odres velhos; se o fizer, o vinho acabará por romper os odres e perder-se-á o vinho juntamente com os odres. Mas o vinho novo deita-se em odres novos.» Tenho a certeza de que Bento Caraça, apesar de comunista, laico e republicano, não se importaria de subscrever estas palavras do evangelista.»
José Saramago, aqui

Se, depois destes testemunhos, sobrarem dúvidas, siga-se o ditado do nosso povo ajustado ao passado: diz-me com quem mais andaste, dir-te-ei quem foste!


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