23 maio, 2018

O último discurso de Júlio, não sei se antes se depois da partida

De certo modo parto, de certo modo fico. 
Parto, porque é essa a lei da morte. Fico, porque determinei ser essa a lei que imprimi para a minha vida. Podem-me continuar a ver em qualquer nesga de espaço, em espaço público, em espaço privado, em espaço lúdico, em espaço partilhado, em espaço do Estado onde também consto, até com a ironia devida. Podem-me ver enquanto lerem. Foram centenas de livros os que ilustrei com meus meus traços, postos em capas, postos nas suas páginas. Pedras? Quando olharem para elas, se não tiverem lá um meu risco, verão lá o um meu sorriso. De toda essa minha obra, peço-lhes que a dignifiquem toda, mas sobretudo a primeira. Não sinto que tenha envelhecido, mas não se pode ser jovem a vida toda. Ah, e não esqueçam a poesia, pois não há Homem, sem poema!
Não procurem este texto em algum lado, ele foi por mim inventado. Ou talvez não. Talvez ele tenha dito tudo, de forma dispersa. Neste caso, ter-me-ei limitado a juntar as palavras...

10 comentários:

Larissa Santos disse...

Maravilhoso texto...


Hoje:- Amor eterno: O meu alimento.

Bjos
Votos de uma óptima Quarta-Feira

Elvira Carvalho disse...

Não se morre quando exalamos o último suspiro. Morremos quando o esquecimento nos engole, e não resta em ninguém uma memória de quem fomos.
Ninguém o esquecerá, porque a obra dele vai permanecer através dos séculos.
(se nenhum maluco acabar com o planeta)
Abraço

Maria João Brito de Sousa disse...

Também diante de Júlio Pomar me curvo respeitosamente.

Para ti, Rogério, o meu abraço.

Mar Arável disse...

Não deixemos morrer os nossos mortos
Abraço

ematejoca disse...

Com 92 anos, morreu Júlio Pomar, um dos mais importantes artistas plásticos portugueses de sempre, mas a sua actividade de artista plástico, os ensaios sobre pintura e dois livros de poesia ficam para sempre à nossa disposição.

Rogerio G. V. Pereira disse...

Sabia
que gostaria

Rogerio G. V. Pereira disse...

Que os museus façam a parte que lhes cabe!

Rogerio G. V. Pereira disse...

Olhando as pedras, descobrimos
irónicos sorrisos

ou riscos

Rogerio G. V. Pereira disse...

Eles vão ao nosso lado

Vozes ao alto

Rogerio G. V. Pereira disse...

Que texto tão distante e vago,
Que coisa tão fria
Parece um anúncio pago
Na página da necrofilia