20 março, 2015

Poesia (uma por dia) - 76

Amanhã todos os poemas serão secos e lúcidos

Jeff Larson 
«Há dias em que desaba uma chuva terrivelmente oblíqua  sobre o Imaginário.  

O excesso de água invade-lhe os aposentos. Então é um desassossego porque, de um momento para o outro, diante dos olhos de quem quer ver, aparecem estrelas fundidas, pirilampos afogados, chamas nuas ardendo de frio, fósforos com as cabeças "em água" e outras fontes de iluminação completamente reduzidas a breu. Isto para não falar da indecência que é a realidade, sempre mortinha por existir, aproveitar o caos para se infiltrar clandestinamente no espaço da mente onde se (des)abrigam o infeliz  Imaginário mais a  Imaginação, sua delicada esposa. É um rugir de circuitos avariados, uma fumaça no ar, um cheiro a chamusco que faz estremecer o mais sóbrio dos poetas.

Mas hoje, felizmente, o dia veio cheio de sol e trouxe até um pouco de vento. Mesmo a calhar! Era ver os estendais cheios de nuvens risonhas, luas verdes e azuis, labirintos de vários tamanhos e feitios, fábulas tecidas em linho antigo e outras imagens falantes cheias de claridade a desafiarem o vento numa verdadeira dança (do ventre). 

Amanhã todos os poemas serão  secos e lúcidos.»
Lídia Borges, in "Seara de Versos"