15 março, 2015

Geração sentada, conversando na esplanada - 85 (José Gil, o pensamento doméstico e o seu inconfessado sebastianismo)

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«...Não tratei da identidade portuguesa, penso sobre mentalidades que são transitórias por natureza. Não sei qual é a identidade portuguesa.(...) Sim, [deixei o marxismo] na juventude (...) A saudade não passa de uma beleza literária.»
José Gil, extratos de uma longa entrevista ao jornal i

A manhã clamava por um bom soltar de língua, mas parecia que ninguém se atrevia a tal iniciativa. As professoras, silenciosas, gozavam o sol. O velho engenheiro ficara-se de mão estendida com o pedaço de bolo pronto para quando o seu rafeiro se resolvesse a aceitá-lo. O cão teimava em trocar aquele mimo, que tinha como certo, pelos raios de sol que sabia irem ser efémeros. Eu lia o jornal.
O velho pousou o bolo, olhou para o que eu estava a ler e não se pode conter: "Profundo, o Gil". Sorri-lhe sem lhe responder. Ele percebeu que eu queria continuar e esperou até que acabasse. Aí, insistiu: "Profundo, não acha?" Respondi-lhe então, que não. Como ser profundo?, se ele reduz as coisas do mundo ao pouco que do mundo se dá a conhecer. É como se o pensamento se confinasse aos temas das primeiras páginas do jornais, e li-lhe algumas passagens para depois ser eu a interrogar. "Que pensa de um pensador que caracteriza as elites políticas pelo que dizem Passos e António Costa? E ainda por cima se retrata como um (mais um) sebastianista! Sobre ele, disse um dia que não se atreve a dissertar sobre valores, desafio-o a encontrar em tão extenso texto uma só ideia que não seja vaga", e sem esperar resposta, pedi à Gabi o iPad emprestado e procurei o que há pouco alguém me dera a conhecer.
"Emana do que lhe vou mostrar, um outro Mundo e esse é o do verdadeiro conhecimento, do saber, daquele saber que os filósofos deviam conhecer e que deriva da dialéctica da natureza. Ora veja:"