09 julho, 2016

DESFADO - Esta maneira de ser, este estado depressivo e este acreditar no destino


Quando há dias completava o conto iniciado pela Fê não deixei de passar em revista o muito que tenho escrito sobre um certo estado de espírito dominante no nosso povo e em particular na mulher portuguesa. Se bem se recordam, a personagem, porque mal amada no limite de se tolerar a si própria, num momento sóbrio decidira-se pelo suicídio. O que a Fê considerava sobriedade mais não será do aquela depressão que nos anima (e aqui lembrei-me da canção) e porque a autora afirmava ser destino, tal completa o quadro do que poderei considerar o retrato da nossa maneira de ser.
Ana Moura, vem reforçar tal tese, no seu "Desfado"

Quer o destino que eu não creia no destino
E o meu fado é nem ter fado nenhum
Cantá-lo bem sem sequer o ter sentido
Senti-lo como ninguém, mas não ter sentido algum

Ai que tristeza, esta minha alegria
Ai que alegria, esta tão grande tristeza
Esperar que um dia eu não espere mais um dia
Por aquele que nunca vem e que aqui esteve presente

Ai que saudade
Que eu tenho de ter saudade
Saudades de ter alguém
Que aqui está e não existe
Sentir-me triste
Só por me sentir tão bem
E alegre sentir-me bem
Só por eu andar tão triste

Ai se eu pudesse não cantar ai se eu pudesse
E lamentasse não ter mais nenhum lamento
Talvez ouvisse no silêncio que fizesse
Uma voz que fosse minha cantar alguém cá dentro

Ai que desgraça esta sorte que me assiste
Ai mas que sorte eu viver tão desgraçada
Na incerteza que nada mais certo existe
Além da grande certeza de não estar certa de nada

Ai que saudade
Que eu tenho de ter saudade
Saudades de ter alguém
Que aqui está e não existe
Sentir-me triste
Só por me sentir tão bem
E alegre sentir-me bem
Só por eu andar tão triste

4 comentários:

Maria Eu disse...

Já era tempo de levantarmos a cabeça e lutar contra o fado triste e determinista!

Beijinhos, Rogério :)

Majo Dutra disse...

Não conhecia e gostei muito. Mais do poema.
Na maior parte dos casos, a depressão não é um caso patológico,
mas uma reação saudável à adversidade.
A ultima estrofe fala de alguém que cultiva a tristeza, o que já
entra no domínio do insólito e doentio...
Tem um dia alegre e divertido junto dos teus.
Beijinhos para todos.
~~~~~~~~~~~~~

Fê blue bird disse...

Este sentir tão português será o nosso fado,o nosso destino ?
Acho no entanto que é melhor viajar com esperança do que chegar ao destino.

Um beijinho

Anónimo disse...

Eu, que nem sequer acredito no destino, mas me entendo muito bem com a teoria das probabilidades e ainda guardo alguma memória das leis de Mendel, até gosto deste "Desfado" da Ana Moura... e o poema é lindíssimo!

Abraço grande!

Maria João