18 junho, 2017

Já antes deste luto eu me enlutara com a situação que só espanta pela dimensão do drama.


Não é preciso saber detalhes para entender as principais causas. Conhecer os pormenores só desviará a atenção dos "porquês" do drama. É tão certo isso como é acertada a minha relutância em dar protagonismo às chamas. Espaço meu, não alimentará a febre aos pirómanos, embora tudo leve a crer que desta vez mais se deva à incúria que à loucura. Dirão que não, que se conjugaram factores de baixa humidade,  vento, temperaturas do diabo e trovoadas... 

Entre a profusão de imagens, declarações, testemunhos, entrevistas e comentários, procuro a sentenciosa análise de Filipe Soares dos Santos da qual recordo algumas palavras, frases soltas: "falta de ordenamento"; "grande parte da floresta ou é privada ou fracionada e sem cadastro"; "é preciso passar a dar valor ao mato, à biomassa". Procuro e não encontro.

Veio a explicação por outra via, assim:
 (...)
«6 – O PCP considera que uma das questões centrais para evitar tragédias como a de hoje é a inversão da tendência da desresponsabilização do Estado na gestão da floresta, na prevenção e combate a incêndios e no ordenamento do território e combate à desertificação.
É necessário inverter o esvaziamento humano de estruturas da Administração Central e a rarefacção de meios financeiros para a floresta e para o apoio à actividade agrícola. Nesse sentido a DORLEI do PCP reitera a sua condenação do encerramento de vários serviços da Direcção Regional de Agricultura no Distrito de Leiria.
É necessário valorizar a importância e o papel dos pequenos produtores e compartes dos Baldios, dar mais meios e poder de decisão às suas associações, dar resposta ao problema central do baixo preço do material lenhoso e assegurar o ordenamento da floresta, designadamente através da elaboração do Cadastro Florestal com os meios financeiros adequados.
7 - Os problemas da floresta portuguesa e as catástrofes como a de hoje não resultam apenas das condições climatéricas extremamente adversas que se verificaram no dia de ontem.
Decorrem também da destruição da pequena e média agricultura, do desaparecimento de muitos milhares de explorações familiares e da desertificação do mundo rural e do interior do País. Catástrofes como esta são ainda indissociáveis da aplicação da PAC e das suas desastrosas reformas, bem como do resultado de políticas agro-florestais, orçamentais e de serviços públicos contrarias aos interesses dos agricultores e do mundo rural.»
18 de Junho de 2017
O Gabinete de Imprensa da
Direcção da Organização Regional de Leiria do PCP

 Já antes deste luto eu me enlutara com a situação que só espanta pela dimensão do drama.

11 comentários:

Graça Sampaio disse...

A tragédia foi grande por de mais pelo que nos devemos conter de dar receitas e conselhos ...

Lamento.

Rogerio G. V. Pereira disse...

Graça,

Não é nem receita, nem conselho
é uma acusação por nada ter sido feito

Faço-a, como sócio 331 dos BV de Oeiras
(e com as cotas em dia)

E quanto a lamentos, quem não lamenta?

Anónimo disse...

Por muito doridos que todos estejamos, esta acusação é perfeitamente pertinente.

Maria João

ematejoca disse...

Concordo que está acusação é absolutamente pertinente.

O teu partido (e quase o meu) faz parte do governo actual, portanto, mãos à obra para evitar tragédias terríveis como está. Menos palavreado e mais coragem para enfrentar é resolver os problemas do mundo rural.

Octopus disse...

Meu amigo,

"A quente" é difícil ter uma opinião clara.

Mas lamentar não chega:

http://octopedia.blogspot.pt/2012/09/o-negocio-dos-incendios-em-portugal.html

Um grande abraço

samnio disse...

Caro Rogério, tem toda a razão, esta tragédia só espanta pelos números, mas, mais tarde ou mais cedo uma tragédia iria acontecer, porque chegados ao Verão, a lengalenga é sempre a mesma, porém, nada foi feito até hoje, relativamente ao cerne de tudo, que é o ordenamento florestal entre outras políticas. Espanta, mesmo apenas pelos números. Se não fossem estes números era mais um incêndio. Todos lamentávamos, mas rapidamente esquecíamos. Nada mais.

Rogerio G. V. Pereira disse...

...e é uma acusação antiga
tão antiga
minha amiga

Rogerio G. V. Pereira disse...

apenas um senão
uma correção
se fizesse o meu partido parte do Governo
a Reforma Agrária faria parte da agenda

Boa?

Rogerio G. V. Pereira disse...

lerei
atentamente
como sempre faço
ao que escreve

Abraço retribuído, meu amigo

Rogerio G. V. Pereira disse...

A melhor forma de chorar esses mortos
é fazer o que ainda não foi feito

(bem-vindo samnio)

Elvira Carvalho disse...

E o pior é que todos nós ficamos com a certeza, de que no próximo ano, vamos estar de novo, a lamentar outros fogos, talvez outras vitimas.
Abraço