
«INTERROGADOR INCESSANTE.
Eduardo
Lourenço é uma das grandes referências das culturas de língua portuguesa. O
ensaísmo que cultivou, na senda de Montaigne e em diálogo com António Sérgio e
Sílvio Lima, mas também com Unamuno e Ortega, é uma marca indelével que ficará
como um sinal marcante da democracia portuguesa.»
Começa assim a notícia, tal como aparece na página do Centro Nacional de Cultura. Desse elogio fúnebre, diz-se de Eduardo Lourenço «é um filómita e cultiva os mitos como modos de realizar a grande
psicanálise mítica do destino português.»
Não podia estar mais de acordo, olhando eu (a meu modo) sobre o que foi a sua evolução, a forma em como se relacionou com o movimento neo-realista português. Apenas como exemplo não posso deixar de sublinhar que escreveu, num texto seu, referindo-se à obra de Manuel da Fonseca como "folclorismo populista", considerando os poemas de Fernando Namora "prosaicamente agressivos" e quanto aos poemas
de Álvaro Feijó e de Políbio Gomes
dos Santos de uma autenticidade de "inegável adolescentismo". (in Como Uma Pedra No Silêncio, pág. 365)
Sobre a sua forma de olhar a realidade, vai além da psicanálise mítica entrando mesmo na visão metafisica dos factos históricos, como aqui se dá elucidativo exemplo.
Há, para a parte do mundo que aprecia a sua vasta obra, o reconhecimento da fluência e ligação do seu discurso e o mérito de o saber comunicar pela palavra e pela escrita. Assim, ousaria dizer que irá ser considerado o maior pensador actual, um "sinal marcante (desta) democracia portuguesa.
Regresso ao inicio, à notícia do CNC, onde se dá destaque aos diálogos entre Eduardo Lourenço e António Sérgio para publicar uma carta inédita que este lhe endereçou, em 2 de Fevereiro de 1950, e onde é notório um clima de quase ruptura, apesar do tom afável.
Meu caro Camarada,
Recebida a sua estimada de 30, apresso-me a declarar que me
não magoou o ferrete dado nos meus lombos, não havendo na dúvida que lhe
submeti a menor influencia da vaidade ou do egotismo: e a prova é que aceito a
designação de neo-kantista, que já me
foi aposta por nacionais e estrangeiros. Seria também a de neo-kantista (e não
neo-cartesiano) que eu aplicaria ao Brunchvicg, pelo menos segundo as obras
dele de que tenho algum conhecimento: e afigura-se-me que na medida em que
somos ambos discípulos do Kant é que os nossos pontos de vista se aproximam, como
bem diz. Quando o li pela primeira vez, no meu exilio de Paris, achei na verdade
que muito do que ele sustentava tinha consonância com o que eu propusera como plausível
nas Notas sobre Antero e nos primeiros volumes dos Ensaios, apesar de
acentuadas divergencie,4 nalguns temas, - como, por ex., na chamada
"evolução da razão" ou na atitude perante o bergsonismo: e nesses
campos de divergência me pareceu (com razão ou sem ela) que estava eu mais
próximo de um "kantismo ideal" do que o grande filósofo francês.
Porém, concordo em que para discutir este ponto seria necessário determinar
primeira o que se julga fundamental em Descartes e o que se entende por
"neo-cartesiano".
Quanto ao Nobre, explico, com efeito, no prefácio da segunda
edição do primeiro volume dos Ensaios que, fazendo eu ali história e crítica da
cultura na sociedade portuguesa, e não crítica literária, considerei apenas
nesse poeta o nacionalismo estético que os admiradores transformaram em nacionalismo
politico e social. Aliás, ainda que eu me tivesse revelado insensível aos valores
poéticos e propriamente literários do autor do Só (e não era disso, repito, que
eu tratava) suponho que seria abusiva a sua frase: incapaz de integrar a criação
artística: porque, nem o Nobre á toda a poesia, nem toda a poesia é toda a
arte. Nas adorar o Nobre não pode significar ser insensível a toda e qualquer
arte. Também não sei a que "analise" o meu caro Camarada se refere, porquanto
não fiz analise alguma dos poemas do Nobre.
Quanto ao que chama "sem-razão", tanto e certo que
lhe dou lugar na arte que escrevi o seguinte no mesmo volume dos Ensaios, logo
depois de falar no Nobre: "o sentimento e a lógica, a inspirará e o bom
senso, a sinceridade e a harmonia, a FÚRIA e a Ordenação as duas qualidades
que, reunidas, fazem a obra superior". Ora a FÚRIA (posta ali em primeiro
lugar) designa precisamente aquilo a que o meu caro Camarada chama na sua carta
certa sem-razão". O critico que afirmou que eu detesto o 'fermento romântico"
não percebeu absolutamente nada do meu pensar, por isso que creio que sem fermento
romântico não existe a menor arte, e que o fermento romântico é o PRIMEIRO
elemento de toda arte, a sua PRIMEIRA condição. logo acrescento, porém, que as
mais altas obras aliam ao fermento romântico uma forte dose de disciplina
critica, de modéstia, de organização mental, e que as obras supremas são as que
aliam o máximo fermento romântico à máxima dose de tal disciplina. Aliás, não disseram outra coisa um Goethe, um
Baudelaire, um André Gide. A maioria doa leitores, porém não é capaz de apreender
um pensamento sintético e complexo, de duas faces: só vê uma única face, e
assim fica, não com a doutrina do autor, mas só com uma caricatura do seu
pensamento. O que os críticos portugueses (salvo raríssimas excepções) têm dado
de mim são miseráveis caricaturas. Decerto o meu caro Camarada ouviu alguma
dessas caricaturas, e lhe deu credito.
Perdoe estas longas explicações (tenho a mania de explicar)
e creia-me, com muita estima,
Camarada atento e grato,
António Sérgio
E diz-se no "AS PALAVRAS SÃO ARMAS"
Eduardo
Lourenço “pensou Portugal”, não viveu Portugal, passeou-se por entre cérebros “ilustres”
que mutuamente se elogiavam e… pensavam. Tratavam-se por pensadores que ensaiavam
pensamentos.
A
burguesia escolhe e fabrica as suas estrelas que o tempo desvanece.