04 outubro, 2021

DIÁLOGO COM A MINHA PRÓSTATA - IV (Em que Meu Ânimo nos mandou calar)

Ela (a próstata) - Fico desesperada só de olhar o material... e aquela agulha a penetrar-me. E dizes tu que não vai doer. Dói só de ler e ver.

Eu (pensativo) - Não leias, não olhes. O urologista afiança que nos porá a dormir. Quando acordares, estarás bem. Eu... eu... eu é que não sei!

Ela (a próstata) - Não sabes? Como assim?

Eu (com ar desolado) - O médico falou-me em posterior desconforto, que não poderia conduzir e que não fizesse esforços. Já avisei os camaradas do secretariado, os do executivo, os da concelhia e os da organização da freguesia, que não contassem comigo. Alertei também a associação de idosos e aquela outra de que, durante uns tempos, não haverá nada de mim para ninguém. Tenho dito por aí, que se não me vissem... Ah, e os exames hoje de manhã... tiraram-me tanto sangue, tanto, que a imagem dos barbeiros sangradores não me saía da mente...

Ele (Meu Ânimo, interrompendo) - Atão o qu´é qu´é isso? Calem-se, c´um raio. Quem sofre antes de ser necessário, sofre mais que o necessário!...

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PS: o acto médico está já confirmado para daqui a 10 dias

03 outubro, 2021

EU, TAL COMO MIA COUTO, TAMBÉM ME RECLAMO DE "PENSANGEIRO FREQUENTE"

https://francis-janita.blogspot.com/2021/10/so-vivendo-se-aprende-viver.html

Estão vendo aquele aviãozito, no canto superior direito da capa do livro? Fui nele! 

Fui e vim, fui e vim, uma dúzia de vezes. Por isso a TAP deu-me, há cerca de 20 anos, o prémio de "passageiro frequente", cobrindo uma viagem gratuita para mim e para ela, à Madeira.  Tal recompensa, devida aos milhares de milhas acumuladas pelas frequentes viagens, entre outras, a Moçambique ( já falei delas) arrastou-me outra a de "pensageiro" e que se traduz num frequente Pensando a Traço Fino que por aqui vão lendo.

Sobre Mia Couto, de quem citei ou escrevi vezes sem conto, diria que também lhe devo a ele a minha atitude na vida e a minha identidade...

Mia Couto, numa dessas viagens, apresentara um seu livro (e soubera a bordo) em Maputo, mera escala, no meu destino a Cahora Bassa e eu, que queria tanto conhece-lo, fiquei a "chuchar no dedo". Voltei a "chuchar no dedo" quando ele falou de sua obra, em Setembro de 2018, na Festa (Aquela Que Não Há Outra Como Ela). 

Estas linhas foram inspiradas por aquele "Cantinho" nosso conhecido que trouxe ao seu espaço belas frases de Mia Couto. Como recompensa, publico um poema. Este:

Identidade

Preciso de ser outro
para ser eu mesmo

Sou grão de rocha
Sou o vento que a desgasta

Sou pólen sem insecto

Sou areia sustentando
o sexo das árvores

Existo onde me desconheço
aguardando pelo meu passado
ansiando a esperança do futuro

No mundo que combato
morro
no mundo por que luto
nasço.

Mia Couto

02 outubro, 2021

VOTAR PASSOU A SER UM ACTO REDUNDANTE?

 

Porque, e porque, e porque... por uma carrada de razões, resolvi partilhar:

«...quanto às histórias da substituição do território pelo mapa, nada consegue superar um conto de Jorge Luis Borges: os cartógrafos de um império, tentando satisfazer a ambição de representar o mundo com a máxima fidelidade, chegam ao absurdo de realizar um mapa do império na escala de 1:1. O mapa torna-se assim, progressivamente, o território.

Este modo de representação da realidade provoca uma desconexão. É o que acontece também com as sondagens que substituem, no cálculo dos eleitores, os resultados das eleições e tornam o acto eleitoral um acontecimento redundante porque se limita a cumprir uma destinação. E é, de maneira mais geral, o que se passa com a governação enquanto máquina de medir, calcular e reagir aos números. Os dirigentes políticos estão cada vez mais perante o mundo cifrado dos “indicadores” numéricos, dos scores. Afectados por esta ilusão hiperrealista, vão progressivamente perdendo de vista a realidade do território e deixam de saber o que se passa no país. Trata-se de um sinal eloquente da ascensão do biopoder — essa nova técnica do poder e forma de “governamentalidade”, analisadas por Foucault. Esta dissociação entre as representações quantificadas da situação política e a realidade é uma forma de entropia. Foi assim que a União Soviética implodiu, colapsou.

A entropia, esse fenómeno físico que afecta inevitavelmente a governação à imagem de um sistema termodinâmico, remete-nos para o imaginário cibernético que domina desde há bastante tempo as tecnologias de governo, do mesmo modo que cria nos eleitores a ilusão de que o resultado das eleições está decidido por um cálculo antecipado.»

António Guerreiro
Ler tudo no Público – Ípsilon 1 Oct 2021

01 outubro, 2021

DIA DO IDOSO, VIVIDO COM O MESMO IRÓNICO GOZO DE QUANDO EU ERA PUTO...

Vocês não sabem, nem sonham,
que o euro comanda a vida,
que sempre que um homem sonha
o mundo pula
estrebucha
e avança
como bola, descolorida,
nas mãos da alta finança

Rogerito,
Em estado septuagenário