Quanto li o
post colocado há dias no “
vox nostra” com o sugestivo título
“Geração Wikipedia” pensei que talvez se as escolas falassem um pouco mais de Bento Jesus Caraça nos ternos, com a terna admiração e com o respeito com que dele falava José Gomes Ferreira, as coisas fossem diferentes. Se isso acontecesse, as notas de Matemática iriam certamente traduzir amor pelos números e contas… Sei que pedir aos professores do meu país, que imitem o meu poeta, é pedir muito. Mas pelo menos dêem a conhecer aos vossos alunos o texto que vos dou deixo:
Bento de Jesus Caraça (matemático) / José Gomes Ferreira (poeta)
“O verdadeiro poeta era ele”
"O adjectivo fascinante, embora já com o brilho muito gasto de tanto uso desatento, ainda me parece ser o mais próprio para definir a personalidade de Bento Caraça.
Camponês mal escondido no quotidiano da cidade, lábios estreitos para tornar as palavras voluntárias, sempre que encontrava alguém de quem gostava, lançava para o mundo a ponte do seu sorriso inteligente - e saudava-me:
- Olá, poeta!
Entre nós havia esse pacto de convívio. Ambos representávamos - actores provisórios do Eterno Diálogo das duas linguagens, tão desiguais por fora, mas afinal tão misteriosamente enlaçadas: a matemática e a poesia.
Eu simulava o poeta anarquista, refilão, desordeiro, imprecador. Ele, o homem que se fingia pasmado com a minha fantasia à solta.
Para isso bastava-me repetir as brincadeiras do costume, algumas - vamos lá - bem pouco originais. Descrevia-lhe, com pormenores de ocasião, as minhas invenções mais recentes: a máquina de fabricar angústia, as bigornas de prata irreal onde se forjavam estrelas para substituir as que iam secando no céu, os Altos Fornos de fundir coisa nenhuma…
- Oh! este poeta! Este poeta!
E ria, feliz por haver imaginação no mundo, arte, música, poetas desordenadores da vida parva…
Mas quando nos separávamos - coisa curiosa - eu sentia que o verdadeiro poeta era ele. Aquele homem superior onde sempre encontrei apenas um único desejo de missão: o de viver como se cumprisse um acto poético.
E cumpriu."
(Artigo de JGF, publicado na Seara Nova, nº 1472, Junho de 1968)
PS- No caminho entre "Duas Culturas" esqueci estes nomes... Imperdoável!