26 agosto, 2013

Geração sentada, conversando na esplanada - 34 (assimilado)

(ler conversa anterior) 
"(...)Uma cidade é uma grande máquina, ou melhor: uma grande tecnologia. E o surpreendente é que funciona (...). Pessoas que querem exactamente o oposto do que querem as outras; jovens, adultos, velhos, crianças, pessoas com os mais diferentes hábitos e o facto é que, na maior parte das vezes, não estão a cortar a cabeça uns aos outros. Isto, sim, é surpreendente (...)" 
Gonçalo M. Tavares - DN Magazine

Detrás do balcão um sorriso e uma interrogação: "Está melhor?" Receando me virar (para não me desequilibrar), perguntei:  "É comigo?" Era. As noticias correm depressa. Sorri como resposta, peguei na chávena do café e recusei amavelmente a ajuda a que se prestara para mo levar. Dali até à esplanada era pouco mais que vinte passos, e pouca a probabilidade de me desequilibrar. Ninguém estava, quem eu esperava que estivesse e para minha surpresa a esplanada estava reduzida a uma única mesa. Hesitei. "Sente-se, a mesa não é propriedade nossa". Venci a relutância inicial e agradecendo a oferta, sentei-me. Quem me tinha oferecido o lugar explicou à mulher que o acompanhava "Sabe?, este senhor é um ilustre politico e candidato". 
Sorri, mas desta vez sem ter a certeza do meu sorriso ter aparecido. O que menos me apetecia era trocar argumentos com quem nem precisa de os ter certos para deter o poder. Abri o jornal sobre os joelhos e li atentamente a entrevista. Percebendo o que eu estava lendo, meteu conversa procurando em mim um aliado. Acedi a conversar. Discutimos, mas não nos batemos nem nos agredimos. Sem que isso fosse surpresa e partilhando a mesma mesa.

Quando abalei pensei "vai ser difícil sair disto... estamos assimilados e o povo tarda... não acorda..."