Não se Diz ao Triste que se Alegre
Pouco sabe da tristeza quem, sem remédio para ela, diz ao triste que
se alegre; pois não vê que alheios contentamentos a um coração
descontente, não lhe remediando o que sente, lhe dobram o que padece.
Vós, se vem à mão, esperáreis de mim palavrinhas joeiradas, enforcadas
de bons propósitos. Pois desenganai-vos, que, desde que professei
tristeza, nunca mais soube jogar a outro fito. E, porque não digais que
sou gente fora do meu bairro, vedes, vai uma volta feita a este mote,
que escolhi na manada dos enjeitados; e cuido que não é tão dedo
queimado que não seja dos que el-rei mandou chamar; o qual fala assim:
Não quero e não quero
jubão amarelo.
(...)
_______________________________
«Camões subversivo e revolucionário, em tudo um homem do nosso tempo»
24 comentários:
Um longo discurso que li pela primeira vez, e que me levou a compreender melhor o poeta, que (pecadora me confesso) não é o meu preferido.
Obrigada pelo link.
Abraço
Grandes ambos: Camões e Jorge de Sena! Muito grandes (e bons) os dois - cada um à sua maneira.
Gosto!
Grandes, grandes! Nenhum dos dois quereria "jubão amarelo"... e nem eu...
Abraço!
Maria João
Não te preocupes... tratando-se de poetas, não é fácil falar de preferências.
Tenho um defeito
não consigo separar
a escrita, da pessoa que a escreve
ao caso, dois Homens
muito grandes
É curiosa
a actualidade de Camões
e a (sua) negação
da cor do jubão
Bom dia, Rogerio.
Tão grande verdade, talvez fruto da ânsia de desabafo, feita poesia.
Pois que também a mim não agrada quem gosta de prescrever receitas de alegria, temperada com positivismo, a quem sofre, sem que tenha capacidade de lhe encontrar, isso sim, remédio para a causa do padecimento. Será fruto de incapacidade de algo melhor a dizer? Será alheamento da realidade?
Na falta de melhor, que se remeta ao silêncio, que esse soa como bálsamo aos ouvidos de quem sofre. ;)
Camões tem mais que "cantos épicos", tem faces lindas mostradas em poesia.
abç amg
... foi exactamente à cor do jubão que eu reagi de imediato...
Bjo!
Dois homens do nosso tempo, Luís de Camões e Jorge Sena.
Camões sim, Sena nem por isso.
Talvez não seja desabafo
Camões sabia,
que por estranho que pareça
que embora o povo sorria
carrega com ele uma profunda tristeza
Camões tem faces lindas
todas
...e porque julgas que seleccionei este seu texto?
...os nossos mortos não morrem!
Jorge de Sena escreveu cerca de 40 livros, quais leu?
https://pt.wikipedia.org/wiki/Jorge_de_Sena
Amigo Rogério, escolheu, aliás como é seu hábito, o texto de Camões mais indicado para este dia, que é nosso, do povo português.
Costumo dizer que só quem sofre, compreende a dor dos outros. Agora palmadinhas nas costas e palavras de consolo, não servem para nada.
Um beijinho e bom fim de semana
Umas vezes escolhemos, com gosto
outras é a escolha que vem ter connosco
Mas, tratando-se de Camões, todas as escolhas seriam acertadas em dia de mais um centenário da comemoração do seu nascimento.
Obrigado
Meu "pássaro"
Por acaso, é daquelas coisas que não percebo, o português comum é um homem triste por natureza. E não será das políticas ou das crises, que não ajudam, mas existem países bem mais miseráveis com povos bem mais alegres... ;)
No entanto, o Camões estava carregado de razão!
bem visto (apenas com um olho)
e bem observado (com os dois).
abraço, caro Rogério
Só a si próprio fiel, Camões!
Quanto ao jubão amarelo bem o quiseram enfiar e fazer-nos acreditar que lhe servia. Mas não!
Lídia
A pobreza
se é alegre
de certeza
que esconde a tristeza
Camões via com a alma!
Só a si
e ao povo
Não se coloca essa distinção. Se o poeta for povo, a palavra di-lo-á de um ou de outro modo.
Lídia
Refiro-me à fidelidade de Luís Vaz a uma classe da qual não era proveniente... embora a nobreza a que pertencia fosse (?) pindérica, terá estudado em Coimbra e era frequentador da Corte...
Enviar um comentário