10 junho, 2016

Não se Diz ao Triste que se Alegre

 

Não se Diz ao Triste que se Alegre

Pouco sabe da tristeza quem, sem remédio para ela, diz ao triste que se alegre; pois não vê que alheios contentamentos a um coração descontente, não lhe remediando o que sente, lhe dobram o que padece. Vós, se vem à mão, esperáreis de mim palavrinhas joeiradas, enforcadas de bons propósitos. Pois desenganai-vos, que, desde que professei tristeza, nunca mais soube jogar a outro fito. E, porque não digais que sou gente fora do meu bairro, vedes, vai uma volta feita a este mote, que escolhi na manada dos enjeitados; e cuido que não é tão dedo queimado que não seja dos que el-rei mandou chamar; o qual fala assim:

Não quero e não quero
jubão amarelo.
(...)
Luís Vaz de Camões, in "Cartas"
_______________________________
«Camões subversivo e revolucionário, em tudo um homem do nosso tempo»
Jorge de Sena, aqui  

24 comentários:

Elvira Carvalho disse...

Um longo discurso que li pela primeira vez, e que me levou a compreender melhor o poeta, que (pecadora me confesso) não é o meu preferido.
Obrigada pelo link.
Abraço

Graça Sampaio disse...

Grandes ambos: Camões e Jorge de Sena! Muito grandes (e bons) os dois - cada um à sua maneira.

Gosto!

Anónimo disse...

Grandes, grandes! Nenhum dos dois quereria "jubão amarelo"... e nem eu...

Abraço!

Maria João

Rogerio G. V. Pereira disse...

Não te preocupes... tratando-se de poetas, não é fácil falar de preferências.

Rogerio G. V. Pereira disse...

Tenho um defeito
não consigo separar
a escrita, da pessoa que a escreve

ao caso, dois Homens
muito grandes

Rogerio G. V. Pereira disse...

É curiosa
a actualidade de Camões

e a (sua) negação
da cor do jubão

Carmem Grinheiro disse...

Bom dia, Rogerio.
Tão grande verdade, talvez fruto da ânsia de desabafo, feita poesia.
Pois que também a mim não agrada quem gosta de prescrever receitas de alegria, temperada com positivismo, a quem sofre, sem que tenha capacidade de lhe encontrar, isso sim, remédio para a causa do padecimento. Será fruto de incapacidade de algo melhor a dizer? Será alheamento da realidade?
Na falta de melhor, que se remeta ao silêncio, que esse soa como bálsamo aos ouvidos de quem sofre. ;)
Camões tem mais que "cantos épicos", tem faces lindas mostradas em poesia.

abç amg

Anónimo disse...

... foi exactamente à cor do jubão que eu reagi de imediato...

Bjo!

ematejoca disse...

Dois homens do nosso tempo, Luís de Camões e Jorge Sena.

Anónimo disse...

Camões sim, Sena nem por isso.

Rogerio G. V. Pereira disse...

Talvez não seja desabafo

Camões sabia,
que por estranho que pareça
que embora o povo sorria
carrega com ele uma profunda tristeza

Camões tem faces lindas
todas

Rogerio G. V. Pereira disse...

...e porque julgas que seleccionei este seu texto?

Rogerio G. V. Pereira disse...

...os nossos mortos não morrem!

Rogerio G. V. Pereira disse...

Jorge de Sena escreveu cerca de 40 livros, quais leu?

https://pt.wikipedia.org/wiki/Jorge_de_Sena

Fê blue bird disse...

Amigo Rogério, escolheu, aliás como é seu hábito, o texto de Camões mais indicado para este dia, que é nosso, do povo português.
Costumo dizer que só quem sofre, compreende a dor dos outros. Agora palmadinhas nas costas e palavras de consolo, não servem para nada.

Um beijinho e bom fim de semana

Rogerio G. V. Pereira disse...

Umas vezes escolhemos, com gosto
outras é a escolha que vem ter connosco

Mas, tratando-se de Camões, todas as escolhas seriam acertadas em dia de mais um centenário da comemoração do seu nascimento.

Obrigado
Meu "pássaro"

Teté disse...

Por acaso, é daquelas coisas que não percebo, o português comum é um homem triste por natureza. E não será das políticas ou das crises, que não ajudam, mas existem países bem mais miseráveis com povos bem mais alegres... ;)

No entanto, o Camões estava carregado de razão!

heretico disse...

bem visto (apenas com um olho)

e bem observado (com os dois).

abraço, caro Rogério

Olívia disse...

Só a si próprio fiel, Camões!

Quanto ao jubão amarelo bem o quiseram enfiar e fazer-nos acreditar que lhe servia. Mas não!

Lídia

Rogerio G. V. Pereira disse...

A pobreza
se é alegre
de certeza
que esconde a tristeza

Rogerio G. V. Pereira disse...

Camões via com a alma!

Rogerio G. V. Pereira disse...

Só a si
e ao povo

Olívia disse...

Não se coloca essa distinção. Se o poeta for povo, a palavra di-lo-á de um ou de outro modo.

Lídia

Rogerio G. V. Pereira disse...

Refiro-me à fidelidade de Luís Vaz a uma classe da qual não era proveniente... embora a nobreza a que pertencia fosse (?) pindérica, terá estudado em Coimbra e era frequentador da Corte...