09 junho, 2012

Contra a Alemanha, Portugal é um zero, fora do campo... Dentro do relvado foi taco-a-taco e jogar é perder e ganhar.

Eu, explicando aos netos o que aconteceu...
Não há razão para desilusão. A desilusão dá-nos quem joga noutras bancadas e com outras jogadas. Fora do campo, valemos zero. Ou pior, fazemos de bola. Dentro do relvado foi taco-a-taco e jogar é perder ou ganhar. Perdemos, apenas porque não ganhámos... 
Meus queridos, agora têm aqui tampões de ouvidos pois ninguém se vai calar, até voltarem a jogar

08 junho, 2012

Redacções do Rogérito - 10 (tema: carta a Portugal, porque a do Guilherme estava mal)


Tema da redacção: A carta a Portugal que foi escrita pelo Guilherme, despertou ao Rogérito um texto que ele reclama ser muito mais adequado, sério e bonito.
Senhores da selecção de Portugal que amanhã começam o campeonato europeu peço-vos que leiam esta minha carta e esqueçam a que o Guilherme escreveu porque aquelas coisas não se dizem ainda menos a quem joga tão bem e é profissional do jogar e porque jogar é só jogar e isso significa perder ou ganhar ou até mesmo empatar embora eu gostasse que os senhores jogassem melhor que os outros e ganhassem todos os jogos até mesmo o que merecerem perder porque por vezes essas coisas até acontecem aos outros que jogam muito mal e acabam por ganhar porque a sorte faz parte do jogo e vocês até podem vir a ter azar.

Quero ainda que saibam que se as coisas correrem melhor para os outros que vou continuar a sonhar com um Portugal mais justo e não ficar a pensar coisas como esse miúdo que diz que se acaba o mundo e que lá se vai o prestigio e a oportunidade de a bandeira e o hino serem honrados e que os licenciados em bioquímica e medicina terão má sina e terão de ir procurar trabalho noutro lado porque em Portugal já não dá porque vocês se não prestarem para nada os portugueses que cá estão também não prestarão e é por estas coisas não serem assim que vos escrevo esta carta que até nem sei se vai ser por vós lida mas que termino desejando que se portem no campo com alegria e não liguem aos senhores da galp energia.

Rogérito
 Alguém explica ao Guilherme que o futebol é só a coisa mais importante 
de entre as coisas que não têm importância nenhuma ?

07 junho, 2012

«Us Corpu dus Déus é us corpu dus padre que vem tocar nus sino para falar à gente cuns palavra cagente num intende.»

A caminho da igreja iam pequenos grupos de mulheres e crianças, um ou outro velho e raramente um homem mais novo. O sino voltou a tocar, repicado e a miudagem exultava e ria com a pequena melodia que o sino fazia. No local do costume, as prostitutas aglomeravam-se, recatadas e vestidas com panos de cores, achava eu, menos garridas. O furriel Alma Sacrista deu pelo meu ir e esboçou primeiro alguma admiração, depois um sorriso prazenteiro, como se tivesse ele arrebanhado mais um cordeiro para aquele rebanho de Deus. Já a mais de meio caminho, juntou-se o «Meia-Cuca» à minha passada que, por isso, ficou esta mais curta e propícia à retoma da respiração normal do menino e ao deixar de arfar pela corrida que tinha tido para me apanhar. 
«Olá», disse-lhe. «Também vens à missa? Sabes que missa é, e que dia é hoje?» «O dia e essa missa és dus corpu dus Déus!» Fiquei admirado por ele saber pois, mais do que suspeita, tinha a certeza de não ter frequentado escola ou catequese. «E tu sabes o que é o Corpo de Deus?» O «Meia-Cuca» levou quatro ou cinco passos a responder: «Us Corpu dus Déus é us corpu dus padre que vem tocar nus sino para falar à gente cuns palavra cagente num intende.» Ri e ele não se admirou pois eu ria sempre que ele falava. Entrámos e pouco tempo levou isso a fazer a todos os que se reuniram para ali estar. Mesmo fazendo um esforço de memória não me lembro da homilia, pois apenas estava atento a se falaria da guerra, ou da guerrilha, ou do povo raptado, ou do contratado. 
Como não falasse nada do que eu esperava ouvir, perdi a concentração tal como as prostitutas que passados os primeiros minutos de ouvir latim ensaiaram risinhos e gargalhadas, trocando olhares lascivos e concupiscentes com os seus esperados clientes. Estes, sérios e compenetrados na missa, pareceram incomodados com a acústica que ampliavam as risadas das suas prestadoras de serviços carnais. A dado passo, soaram cânticos correspondidos por um terço das vozes. Foi a parte de maior concentração e à qual reconheci beleza. A missa continuou até acabar, com o «Meia-Cuca» já desesperado por ter de estar todo o tempo sossegado. «Gostaste?» A resposta foi imediata como se estivesse esperando a pergunta: «Esta festa num presta. Us mulher que vai nu cantar num pode dançar, us miúdo num pode corer, us homi num bebe e nu há batucada. Porqui num toca o sino cando us mulher canta?»

06 junho, 2012

Bruce Springsteen: Death To My Hometown (lá como cá?)



Death To My Hometown
Nenhuma bala de canhão voou, ninguém de rifle nos ceifou
Nenhuma bomba caiu dos céus, nenhum sangue encharcou o chão
Nenhuma pólvora cegou olhares, nenhum trovão mortal soou
Mas tão certo quanto a mão de Deus,
Eles trouxeram a morte à minha terra-natal

Nenhuma nave atravessou o céu, nenhuma cidade ardeu
Nenhum exército tomou as praias pelas quais morreríamos
Nenhum ditador foi coroado
Acordei numa noite silenciosa, nunca ouvi um só som
Bandidos atacaram no escuro e
Trouxeram a morte à minha terra-natal
Eles trouxeram a morte à minha terra-natal

Eles destruíram as fábricas de nossas famílias
E eles ocuparam nossos lares
Largaram nossos corpos nas planícies,
Os urubus deixaram só os nossos ossos

Escuta bem, meu menino, prepara-te para quando chegarem
Pois voltarão, tão certo quanto o sol que há-de nascer
Arranje uma canção para cantar e cante-a até terminar
Sim, cante-a com força e cante bem
Mande todos os magnatas sem escrúpulos para o inferno
Os ladrões gananciosos que aparaceram
E comeram a carne de tudo que encontraram
Criminosos que continuam com impunidade
Que andam nas ruas como homens livres

Ah, eles trouxeram a morte à nossa terra-natal,
A morte à nossa terra-natal.
Bruce Springsteen
(tradução minha, a partir daqui)