07 junho, 2012

«Us Corpu dus Déus é us corpu dus padre que vem tocar nus sino para falar à gente cuns palavra cagente num intende.»

A caminho da igreja iam pequenos grupos de mulheres e crianças, um ou outro velho e raramente um homem mais novo. O sino voltou a tocar, repicado e a miudagem exultava e ria com a pequena melodia que o sino fazia. No local do costume, as prostitutas aglomeravam-se, recatadas e vestidas com panos de cores, achava eu, menos garridas. O furriel Alma Sacrista deu pelo meu ir e esboçou primeiro alguma admiração, depois um sorriso prazenteiro, como se tivesse ele arrebanhado mais um cordeiro para aquele rebanho de Deus. Já a mais de meio caminho, juntou-se o «Meia-Cuca» à minha passada que, por isso, ficou esta mais curta e propícia à retoma da respiração normal do menino e ao deixar de arfar pela corrida que tinha tido para me apanhar. 
«Olá», disse-lhe. «Também vens à missa? Sabes que missa é, e que dia é hoje?» «O dia e essa missa és dus corpu dus Déus!» Fiquei admirado por ele saber pois, mais do que suspeita, tinha a certeza de não ter frequentado escola ou catequese. «E tu sabes o que é o Corpo de Deus?» O «Meia-Cuca» levou quatro ou cinco passos a responder: «Us Corpu dus Déus é us corpu dus padre que vem tocar nus sino para falar à gente cuns palavra cagente num intende.» Ri e ele não se admirou pois eu ria sempre que ele falava. Entrámos e pouco tempo levou isso a fazer a todos os que se reuniram para ali estar. Mesmo fazendo um esforço de memória não me lembro da homilia, pois apenas estava atento a se falaria da guerra, ou da guerrilha, ou do povo raptado, ou do contratado. 
Como não falasse nada do que eu esperava ouvir, perdi a concentração tal como as prostitutas que passados os primeiros minutos de ouvir latim ensaiaram risinhos e gargalhadas, trocando olhares lascivos e concupiscentes com os seus esperados clientes. Estes, sérios e compenetrados na missa, pareceram incomodados com a acústica que ampliavam as risadas das suas prestadoras de serviços carnais. A dado passo, soaram cânticos correspondidos por um terço das vozes. Foi a parte de maior concentração e à qual reconheci beleza. A missa continuou até acabar, com o «Meia-Cuca» já desesperado por ter de estar todo o tempo sossegado. «Gostaste?» A resposta foi imediata como se estivesse esperando a pergunta: «Esta festa num presta. Us mulher que vai nu cantar num pode dançar, us miúdo num pode corer, us homi num bebe e nu há batucada. Porqui num toca o sino cando us mulher canta?»