10 junho, 2012

Homilias dominicais (citando Saramago) - 87


Lisboa, foi a cidade escolhida para mais um dia não...

É sempre possível fazer das palavras o que se quiser, neste dia. Com palavras leves se falou de temas pesados. Com palavras pesadas se falou levianamente sobre a actualidade, sobre a história, sobre os portugueses espalhados pelo mundo, sobre Camões e sobre o futuro.  Falou disso quem mal conhece do que realmente fala, porque não sente a nossa gente, porque não sente o poeta que lhe canta os feitos, desvelos e erros e nem lhe conhece a obra. Falou de um futuro sitiado por opções que reduzem o mundo a um só espaço que nos empobrece o corpo e nos reduz a alma. Falou "de paisagens mentirosas", para de seguida amedalhar quem se prestou a ser amedalhado. Será um dia não, havendo razões de sobra para poder ser um dia sim, e alguém isso ousou lembrar. O dia ficará na história do calendário, pois aí nenhum dia é eliminado...

HOMILIA DE HOJE 
De paisagens mentirosas
de luar e alvoradas
de perfumes e de rosas
de vertigens disfarçadas.

Que o poema se desnude
de tais roupas emprestadas
seja seco, seja rude
como pedras calcinadas

Que não fale em coração
nem de coisas delicadas
que diga não quando não
que não finja mascaradas

De vergonha se recolha
se as faces tiver molhadas
para seus gritos escolha
as orelhas mais tapadas

E quando falar de mim
em palavras amargadas
que o poema seja assim
portas e ruas fechadas

Ah! que saudades do sim
nestas quadras desoladas.

"Dia não", poema de José Saramago