21 junho, 2012

Cimpor, passa para as mãos dos brasileiros. António Borges, consultor do Governo para as privatizações, considera a operação como uma operação "do maior interesse para o país".

"Portugal perde oitava cimenteira do mundo"

Lembrei-me, a propósito da noticia de ontem, contar aqui um episódio da minha vida profissional. Foi num dia qualquer, de um qualquer mês do inicio de 1999, que fui convocado pelo partner (administrador) da firma onde então trabalhava, e que era responsável da "conta Cimpor", para uma sessão com os quadros daquela empresa, visando expor as oportunidades de melhoria do desempenho organizacional de uma área de gestão, da qual eu considerado como especialista qualificado e experiente. 
Fui. Eu e o partner. A  sala de reuniões, na sede da Rua Alexandre Herculano, estava quase repleta com os responsáveis das diferentes fábricas, outros directores operacionais, directores das áreas de gestão dos custos industrias, da informática, entre outros. Enquanto eu ultimava os preparativos para a apresentação, o "meu" partner ia, informalmente, trocando impressões com os presentes. Deu para cedo perceber que, nem a convocação da reunião era pacifica, nem a disposição de grande parte daquela gente estava conforme o descontraído ambiente.  Iniciei a sessão, com o power point aberto na agenda, começando por agradecer a presença dos circunstantes. Ia eu nisso, quando fui interrompido -"Posso contar uma anedota?" - o partner,  surpreendido, consentiu perante a gargalhada de uns quantos e os sorrisos contidos dos demais, que conheciam quer a situação quer a anedota que ia ser contada. Contou ele, genialmente:
Vinha por uma estrada do nosso Alentejo profundo, num carro de topo de gama, um senhor engravatado e, assim (e apontou-me), de fato escuro. Ao ver um pastor conduzindo o seu rebanho, pelo campo à beira da estrada, abrandou a marcha do "carrão" e, depois de acompanhar o pastor um bom bocado e em marcha lenta, dirigiu-se a este com uma pronuncia mal amanhada: "Bom dia, compadre!", "bom dia" respondeu o pastor, levando a mão ao chapéu, à laia de saudação. "Ó compadre, se eu lhe disser, assim de repente, quantas ovelhas tem esse seu rebanho, vossemecê oferece-me uma?", o homem coçou a cabeça, como quem pensa e, talvez por não acreditar em tal possibilidade, consentiu "Atão na dou?, vamos lá a ver s´adivinha!..." - O engravatado, já com o carro parado, avançou certeiro "são quarenta e duas". O pastor, visivelmente espantado: "Atão como é que c´adivinhou?" Orgulhoso do feito, decidiu levar mais longe o gozo: "Foi fácil, contei-lhes as patas e dividi por quatro". O pastor, resignado, disse ao engravatado que lá levasse a ovelha conforme o combinado. O homem desceu do carro, pegou num animal, e dirigia-se ao carro, quando o pastor o interrompeu "Pere lá, compadre. Agora proponho eu, sê cá adivinhar a sua profissão o compadre me devolve a ovelhita?" O engravatado presunçoso, assentiu e o pastor, avançou com tom convicto "O compadre é consultor!" Desta vez foi o engravatado o surpreendido "Mas como é que adivinhou?" disse, deixando para trás a falsa pronuncia com que sempre falara. Calmamente o pastor respondeu "É que no meio de tanto animal igual, só um consultor se poderia enganar. O que o compadre pegou é o cão que me guarda o gado!".  
Como a provocadora anedota não beliscava, minimamente, o meu querido pastor alentejano, não me senti atingido nem reagi mal. A reunião correu muito bem, com interesse, até, de que me fizera a provocação. 
Mas o que é que isto tem a ver com a notícia em título? Quase nada, mas eu gostava de saber o que pensam os quadros da Cimpor de um engravatado que depois de "ter entregue" a Cimpor, talvez se prepare para entregar o gado, o cão, o pastor e o seu cajado. É que esse engravatado é capaz de tudo... 

E já agora, que pensará o povo?