18 junho, 2012

Geração sentada, conversando na esplanada - 4 ( lições de vida, olhando a natureza )

(ler conversa anterior)
(...)
"Meus filhos, a existência é boa
Só quando é livre. A liberdade é a lei,
Prende-se a asa mas a alma voa
Ó filhos, voemos pelo azul!Comei!"

E mais sublime do que Cristo, quando
Morreu na Cruz, maior do que Catão,
Matou os quatro filhos, trespassando
Quatro vezes o próprio coração!"
(...)
"O Melro", Guerra Junqueiro

O negro melro, divertido, não esquecia a missão que tinha...

Parecia fácil a brincadeira proposta pelo menino, não fosse o ficar fatigado e ofegante pouco depois de a ter iniciado. O menino, o cão e eu, por esta ordem, corremos atrás dos pássaros. O menino ria, o rafeiro ladrava e eu arfava. O primeiro a desistir foi o pombo, que depois de andar por ali a esvoaçar rumou para o beiral do telhado e por lá ficou, sem regressar. O esquivo melro, ia e vinha chegando a ter, de nós, uma proximidade surpreendente. Parecia ter o propósito de nos distrair e entreter. A seguir ao pombo, desisti eu. Sentei-me na relva. O menino não ficou contrariado por eu ter parado e sentou-se ao meu lado, imitando-me a posição. O cão olhava-nos desafiante, talvez o mais frustrado pela brincadeira se ter ficado por ali. A mãe do menino, continuava, na esplanada, na conversa e esquecida de que o filho também a ignorava trocando a sua companhia pela minha, um desconhecido. "Eu corro muito" disse o miúdo orgulhoso do prazer  lúdico do seu correr. - "Também corres atrás dos pássaros com o teu filho?"- "Já tenho filhas muito crescidas... corro e brinco é com os filhos delas, com os meus netos..." - "Então porque não estás a brincar com eles agora?" E lá expliquei que aquela era a semana, intervalada, em que o meu neto ficava com a outra avó e que os outros moravam longe." - "O meu pai também brinca muito comigo", disse o menino sem me olhar. Pressentindo que estava mentindo, desviei a conversa e apontei o melro - "Olha, já reparaste que o negro melro não se tira daqui?" E, para continuar, fiz um esforço para me lembrar do pouco que sabia sobre estas pequenas aves, "sabes que o passarito, que sempre andou por aqui e nem fugiu, deve ter definido este espaço como um espaço seu?..." O miúdo interessou-se e mais se interessou quando de seguida me levantei e olhei a árvore  próxima - "Se calhar há ninho e crias por aqui...". Havia. Numa pernada da pequena árvore, sob uma densa folhagem, lá estava um ninho. Dentro, quatro crias e perto a mãe. À nossa aproximação o melro cantou um cantar enrolado, belo mas agitado, como que a dar o alarme. "Vês?" -  O miúdo abanou a cabeça afirmativamente "Sim!... pega neles e leva para minha casa. Minha mãe tem lá uma gaiola, de outro pássaro que morreu..." - "Nem todos os pássaros aguentam o cativeiro, nem todos os pássaros suportam perder os filhos. Sabes? Os pais dos melros nunca abandonam os filhos, são estes que quando são mais crescidos, decidem quando vão embora?" - O menino olhou-me atentamente e, de seguida, longamente olhou a cena da mãe a dar de comer aos pequenos melros que se agitam dentro do reduzido espaço do ninho. Depois, iniciou uma corrida, direitinho à esplanada onde estava a mãe. Pensei que tinha feito um disparate e que o menino iria convencer a mãe a levar o ninho. Enganei-me. Quando ele chegou, limitou-se a abraçar a mulher e ela, surpreendida pela chegada, lhe correspondeu ao abraço, distraidamente. Ainda bem que a nossa conversa acabara desta maneira. Não saberia como contar-lhe tudo o que sei sobre melros e a natureza humana e que um dia uma boa amiga (a Janita) me contara...

Continua na próxima segunda-feira
NOTA: reeditado em 20 de Junho, por alteração do texto e dos links

13 comentários:

Maria João Brito de Sousa disse...

Fico à espera do desenrolar da história, na próxima segunda feira. Tudo o que sei sobre melros foi o que eles próprios me ensinaram... não muito mais do que o que aqui é dito. Sei entender o sentido do seu canto, sei perceber quando uma cria, aflita por se sentir perdida, chama os progenitores... consigo localizá-la e sei diferenciar se caiu do ninho ou se está a iniciar os seus primeiros voos... e pouco mais :)

O Puma disse...

Os melros aqui são belíssimos

os meus cães só não apreciam
que lhes comam o granulado
eu também
lhes seria agradecido se não me limpassem as cerejas
Já convoquei várias reuniões
com os melros
mas há sempre falta de quorum
Para já eu e os cães
limitamo-nos a verificar a roubalheira

quem és, que fazes aqui? disse...

Gosto, sinceramente! Do encanto da conversa tida e da que ficou nas entrelinhas.

Cá estarei na próxima segunda.

Beijo

Laura

jrd disse...

Um dia destes vou sentar-me ao pé de ti e hei-de escutar a explicação dos melros e outros pássaros.

Graça Sampaio disse...

Bela lição deu ao menino!

Gostei especialmente do verso de Junqueiro «prende-se a asa, mas a alma voa» - muito bonito!

São disse...

Concordo totalmente com Junqueiro: a liberdade é a pedra de toque da vida.

Beijos

Rosa dos Ventos disse...

Cá fico à espera...enquanto os malandros dos melros acabam com as minhas cerejas! :-))
Deixá-los acabar!

Abraço

JP disse...

A liberdade conquista-se. É da natureza humana. Da História da humanidade.
Andam uns melros por aí, não sei a fazer o quê, mas debicam tudo que encontram. O Zé paga.
Segunda cá estarei!

Abraço

Rui Pascoal disse...

Gosto de os ver e sobretudo de os ouvir a cantar. Os morangos do quintal ainda chegam para todos.
:)

Guma Kimbanda disse...

A liberdade não precisa de asas, nem de espaços amplos, esgueira-se por qualquer fresta e chega tão longe, quanto não fazemos ideia.
Mas não prendam as asas que impulsionando-a, permitem admirá-la e trabalhá-la de vários ângulos. Que não se tolha a graciosidade de planar contra o vento e que seja onde se chegar ou o cansaço vença, o lugar que se quer por opção e não os balizamentos impostos contra natura.

Kandandos e leveza na "pena" para te continuar a ler... sempre

Graza disse...

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Janita disse...

Amigo Rogério.
Desta vez cheguei tarde à esplanada, mas fiquei muito agradada com tudo o que li.
Só lamento não tenha tido tempo para explicar ao menino toda a beleza e lição que os melros dão aos pais de hoje.
Este seu melro já foi meu no ano passado, não está recordado?
O Poeta que lhe contou essa bela história a si, foi o mesmo que me a contou a mim. Ora veja aqui:

http://francis-janita.blogspot.pt/2011/05/justos-e-pecadores.html

Beijinhos.

Janita disse...

Rogério, sem que tivesse sido essa a minha intenção vejo que fez link ao poema de Guerra Junqueiro que publiquei em dois posts, sendo este a parte final.
Escusado será dizer o quanto me sinto honrada e grata pela sua generosidade.
Beijinhos.