06 fevereiro, 2013

Sorrisos? Estou à beira de me especializar...


"O Sorriso (este, com maiúsculas) vem sempre de longe", dizia-me um especialista em sorrisos que, com este seu dizer, me empurrou para a tarefa de aprender a descodificar sorrisos. Estou quase a saber... Por exemplo: já sei que por detrás deste sorriso exibido, está um já longo caminho, está uma prole que entre si se dá e, também, um homem diligente. Quando o sorriso dela dá a mão ao homem diligente, o sorriso vem de mais longe...  quando um seu ar muito sério, olha para dento dos olhos do homem diligente para a alma lhe reprimir, acaba sempre por sorrir...(uma mulher nunca resiste a um bom espelho)... 
E pronto, isto é o pouco que sei sobre o sorriso. Hoje é um dia de treino e vou ter sorrisos imensos.
Estou à beira de me especializar... 

05 fevereiro, 2013

A Escola Industrial Afonso Domingues, a escola da minha vida... em ruína... toda partida...


Fiz em tempos um texto que me encheu o peito, memórias do orgulho de lá ter estado...

Temo que meu país tenha o destino daquela escola que me acolheu em menino. Lembro-me bem o dia em que subi aqueles degraus, não a medo mas com o reservado respeito de quem entra numa etapa nova ao entrar no largo átrio da escola. Um amigo, atento (também) a este tempo deu-me a noticia e escreveu com o azedume de contribuinte ofendido: 
"É mais uma história pouco edificante de como, por inépcia e falta de planeamento, os governantes deitam o nosso dinheiro à rua. Em 2008 e 2009, durante o consulado de Sócrates, teve o seu momento de glória e foram lá enterrados muitos milhões de euros em avançadíssimas tecnologias. Um ano mais tarde, a pretexto da nova ponte sobre o Tejo, o mesmo governo decretou o seu encerramento. A ponte não se fez e, desde então, o edifício tem vindo a ser esvaziado do seu conteúdo e caminha, aceleradamente, para a ruína. Vale a pena ler." - escreveu ele.
E o texto lá está, inteiro. Não li. Não consegui. Mais que solidário, na qualidade de contribuinte que se sente, fico sentido por outro mais forte motivo: fui aluno. E aluno de peito cheio, pelo orgulho de o ter sido. Transcrevo do que disse me orgulhar:
"... não se consegue, sem treino, interromper a mente a quem tem 14, 15 ou 16 anos. Mais do que aprender a limar, a aprendizagem era a da concentração. A do domínio da mão sobre a alma, colocando esta quieta e calma. As vestes de operário, "fato-de-macaco", cumpriam, mais que o papel de proteger a roupa contra as manchas de óleo ou da limalha, a função da aprendizagem do significado do trabalho. Parece demagogia. Seria, se esse tempo passado tivesse ocorrido num só dia. Foi a maior lição de humildade por que passei. Como se sentiria Saramago (*) a andar por ali e passar por tal? Teria certamente um sentir igual..." - escrevi eu

04 fevereiro, 2013

''A arte é uma inutilidade indispensável'' ?


Se quer ficar com a alma plena, veja em modo "tela cheia"
Podemos perdoar a um homem por haver feito uma coisa útil, contando que não a admire. A única desculpa de haver feito uma coisa inútil é admirá-la intensamente. Toda arte é inútil” - Óscar Wilde 
"o ponto alto do ser humano é a arte, nela o homem concentra o empírico de sua existência -- a subjectividade -- e a realidade quotidiana que o cerca -- a objectividade" - George Lukács

03 fevereiro, 2013

Geração sentada, conversando na esplanada - 25 (a importância do colectivo)

- «É sempre mau o caldo que muita gente tempera.»
- É verdade. É verdade. Frase muito sábia.
- Há, aliás, uma história do senhor Lewis Carroll que diz mais ou menos o mesmo: imagine sete mil homens a pintarem, ao mesmo tempo, um muro de dez metros.
- Sete mil homens...ao mesmo tempo ... a pintar... um muro de dez metros... Não vai resultar bem.
- Exactamente. Ninguém conseguirá pintar.
- Não acabarão uma pintura, começarão uma luta. O que é diferente.

Gonçalo M. Tavares, hoje no "Notícias Magazine"
O senhor engenheiro ia dizendo ao seu cão rafeiro: "hein?, que belo dia soalheiro..."

Elas estavam entretidas a discutir pormenores das vestes para o desfile... as preocupações não vinham à baila, estavam contidas. Coisas que o sol sabe tão bem fazer, aquecer e fazer esquecer. Isso mesmo ia dizendo o senhor engenheiro ao seu cão rafeiro: "hein?, que belo dia soalheiro..." e o rafeiro respondia-lhe o agitar do rabo, prazenteiro. 
Entusiasmado, com a leitura, propus-me ler um pedaço daquela crónica àquele velho companheiro de esplanada. Quer ouvir? E sem esperar li, tendo o cuidado de teatralizar o diálogo, que é a forma mais indicada para respeitar, com precisão, a pontuação. No fim, inquiri: Então?
- Então o quê?
- Gostou?
- Gostar, gostei. Mas nos tempos que vão correndo os escritores deveriam ser mais directos... mais directos e menos ambíguos... até parece que o escritor está a fazer a apologia do rasgo individual...

Fiquei sem resposta. O que o velho engenheiro tinha dito fazia todo o sentido. Mas não me querendo dar por vencido, voltei ao texto.
- Há coisas, como o temperar um caldo ou pintar um muro, devem ser competir a alguém sem atropelo, o que não retira a importância ao trabalho de um colectivo...
- Isso até pode ser verdade, mas não foi isso que o tal Gonçalo quis dizer.
- Nunca se sabe ao certo o que um escritor quer dizer quando está a escrever. Por exemplo, olhe a frase "imagine sete mil homens a pintarem, ao mesmo tempo, um muro de dez metros." Repare que o autor refere "ao mesmo tempo". Pode-se inferir, que se houvesse descontinuidade no acto, o muro podia envolver toda aquela gente... 
- Como, então?
- Um muro de dez metros, pintado de um e outro lado, com dois metros de altura, é muito muro... e se o muro é um muro querido, que se quer colorido, depois de bem desenhado... se forem usadas todas as cores e de todos os tons intermédios, seriam necessários centenas de pincéis e pigmentos, outros muitos instrumentos e utensílios de lavagem, escadotes para os que os pintores das partes altas pintassem a preceito...e se quem pintasse não desenhasse e quem desenhasse não pintasse... a logística seria complicada... mas com uma boa e disciplinada organização...
- Alto, alto, aí!, percebo que queira valorizar o trabalho colectivo, mas não é isso que foi escrito no artigo... está a especular...
- A vantagem de uma metáfora é a especulação e o espaço que é dado à imaginação! Se o autor quisesse ser directo faria uma mera reportagem do acontecido, ou algo parecido...

Desta vez vez foi o engenheiro a ficar pensativo e a voltar, interessado:
- E aquela parte inicial, em que se fala do caldo?
«É sempre mau o caldo que muita gente tempera.»?
- Sim essa, como especular em torno dessa?
- Não tem especulação possível. Conhecido o caldo, tem de haver quem o tempere... 
- Ou sairá salgado...
- Ou entornado!