03 fevereiro, 2013

Geração sentada, conversando na esplanada - 25 (a importância do colectivo)

- «É sempre mau o caldo que muita gente tempera.»
- É verdade. É verdade. Frase muito sábia.
- Há, aliás, uma história do senhor Lewis Carroll que diz mais ou menos o mesmo: imagine sete mil homens a pintarem, ao mesmo tempo, um muro de dez metros.
- Sete mil homens...ao mesmo tempo ... a pintar... um muro de dez metros... Não vai resultar bem.
- Exactamente. Ninguém conseguirá pintar.
- Não acabarão uma pintura, começarão uma luta. O que é diferente.

Gonçalo M. Tavares, hoje no "Notícias Magazine"
O senhor engenheiro ia dizendo ao seu cão rafeiro: "hein?, que belo dia soalheiro..."

Elas estavam entretidas a discutir pormenores das vestes para o desfile... as preocupações não vinham à baila, estavam contidas. Coisas que o sol sabe tão bem fazer, aquecer e fazer esquecer. Isso mesmo ia dizendo o senhor engenheiro ao seu cão rafeiro: "hein?, que belo dia soalheiro..." e o rafeiro respondia-lhe o agitar do rabo, prazenteiro. 
Entusiasmado, com a leitura, propus-me ler um pedaço daquela crónica àquele velho companheiro de esplanada. Quer ouvir? E sem esperar li, tendo o cuidado de teatralizar o diálogo, que é a forma mais indicada para respeitar, com precisão, a pontuação. No fim, inquiri: Então?
- Então o quê?
- Gostou?
- Gostar, gostei. Mas nos tempos que vão correndo os escritores deveriam ser mais directos... mais directos e menos ambíguos... até parece que o escritor está a fazer a apologia do rasgo individual...

Fiquei sem resposta. O que o velho engenheiro tinha dito fazia todo o sentido. Mas não me querendo dar por vencido, voltei ao texto.
- Há coisas, como o temperar um caldo ou pintar um muro, devem ser competir a alguém sem atropelo, o que não retira a importância ao trabalho de um colectivo...
- Isso até pode ser verdade, mas não foi isso que o tal Gonçalo quis dizer.
- Nunca se sabe ao certo o que um escritor quer dizer quando está a escrever. Por exemplo, olhe a frase "imagine sete mil homens a pintarem, ao mesmo tempo, um muro de dez metros." Repare que o autor refere "ao mesmo tempo". Pode-se inferir, que se houvesse descontinuidade no acto, o muro podia envolver toda aquela gente... 
- Como, então?
- Um muro de dez metros, pintado de um e outro lado, com dois metros de altura, é muito muro... e se o muro é um muro querido, que se quer colorido, depois de bem desenhado... se forem usadas todas as cores e de todos os tons intermédios, seriam necessários centenas de pincéis e pigmentos, outros muitos instrumentos e utensílios de lavagem, escadotes para os que os pintores das partes altas pintassem a preceito...e se quem pintasse não desenhasse e quem desenhasse não pintasse... a logística seria complicada... mas com uma boa e disciplinada organização...
- Alto, alto, aí!, percebo que queira valorizar o trabalho colectivo, mas não é isso que foi escrito no artigo... está a especular...
- A vantagem de uma metáfora é a especulação e o espaço que é dado à imaginação! Se o autor quisesse ser directo faria uma mera reportagem do acontecido, ou algo parecido...

Desta vez vez foi o engenheiro a ficar pensativo e a voltar, interessado:
- E aquela parte inicial, em que se fala do caldo?
«É sempre mau o caldo que muita gente tempera.»?
- Sim essa, como especular em torno dessa?
- Não tem especulação possível. Conhecido o caldo, tem de haver quem o tempere... 
- Ou sairá salgado...
- Ou entornado!