02 fevereiro, 2013

O tal poema de Sophia sobre o quadro de Helena...

Imagem, montagem sobre caricatura de Vasco

MARIA HELENA VIEIRA DA SILVA

Minúcia é o labirinto muro por muro
Pedra contra pedra livro sobre livro
Rua após rua escada após escada
Se faz e se desfaz o labirinto
Palácio é o labirinto e nele
Se multiplicam as salas e cintilam
Os quartos de Babel roucos e vermelhos
Passado é o labirinto: seus jardins afloram
E do fundo da memória sobem as escadas
Encruzilhada é o labirinto e antro e gruta
Biblioteca rede inventário colmeia –
Itinerário é o labirinto
Como o subir dum astro inelutável –
Mas aquele que o percorre não encontra
Toiro nenhum solar nem sol nem lua
Mas só o vidro sucessivo do vazio
E um brilho de azulejos íman frio
Onde os espelhos devoram as imagens

Exauridos pelo labirinto caminhamos
Na minúcia da busca na atenção da busca
Na luz mutável: de quadrado em quadrado
Encontramos desvios redes e castelos
Torres de vidro corredores de espanto

Mas um dia emergiremos e as cidades
Da equidade mostrarão seu branco
Sua cal sua aurora seu prodígio.

Sophia de Mello Breyner Andresen

8 comentários:

quem és, que fazes aqui? disse...


Rendida e em silêncio, porque é nele que se criam e projetam as coisas belas...

"um dia emergiremos" deste labiríntico interregno!

Beijinho

Laura

Janita disse...

É no sentir, pensar e agir,
que poderemos um dia emergir,
nadar até colocar os pés
em terra firme,
e definitivamente,
conseguir atingir o sonho
sonhado!

Beijo

Graça Sampaio disse...

Maravilha! O poeta é um vate!

Que linda escolha. Obrigada.

Beijinho e bom fim de semana.

Lídia Borges disse...


Um labirinto - encruzilhada, antro gruta, jogo de sucessiva imagens sobrepostas, refletidas em espelhos, vidro frio, vazio. Tudo sugere o caos mas, como sempre em Sophia e nem sempre na vida, a desordem desagua na ordem branca e luminosa, cosmos de um olhar puramente andresiano.

Um poema que dá "pano para mangas"

Um beijo

ana disse...

Rogério,
Primeiro, o poema é belíssimo, não me lembro de o ter lido. Gosto bastante desta poetisa.
A imagem ainda não me tocou.

Segundo quanto ao Django:
Não gosto de violência gratuita, como à partida pode parecer. O filme tem diálogos que nos fazem pensar. A escravatura foi uma das maiores desumanidades (para além do holocausto).
O realizador critica de forma peculiar a sociedade esclavagista americana.
Há quem diga que este filme é racista, pois não o avalio como tal.
Boa noite, obrigada pela visita.:)

Maria João Brito de Sousa disse...

Tudo é espantoso nestas duas mulheres, Helena e Sophia...

Com a primeira, perco-me nos "corredores de espanto" de todas as infâncias, com a segunda descubro "seu branco, sua cal, sua aurora, seu prodígio"...

Abraço!

Fê Blue bird disse...

Um poema muito belo e intenso.
Gosto da pintura de Helena Vieira da Silva, porque os seus quadros mostram-nos tudo o que ela nos quer dizer.

Espero ansiosamente por esse dia.

beijo

jrd disse...

A eterna sabedoria de Sophia.