02 outubro, 2011

Homilias dominicais (citando Saramago) - 51

A foto dos três: Ele, ela e a junção de dois (segundo Pilar del Rio)

Para a minha homilia de hoje não faltaram temas e a escolha foi dificil, tanto mais que produzida num interregno do retiro para escrever memórias de guerra e tendo-as, vivas, a povoar-me a mente. Tinha três temas: um (o primeiro que considerei), sobre a criatividade da escrita de jovens do 7º ano, em torno de recriações do conto de Saramago "A Maior Flor do Mundo"; o segundo tema, despertado pelo discurso de Manuel Carvalho da Silva (a finalizar a manifestação convocada pela CGTP-IN) seria sobre a necessária unidade das forças de esquerda ("Fazemos aqui um apelo a todos os trabalhadores, à população em geral e às forças políticas porque se todos se unirem ainda é possível evitar a concretização dos desastres que estão a preparar", dirigindo-se em concreto ao Partido Socialista defendeu a necessidade de este não assumir mais compromissos com políticas neo-liberais).; O terceiro tema, um texto sobre o amor entre dois seres, a sua relação e a bela e enorme participação de Pilar del Rio, ontem no programa do Herman José, onde afirma que eles os dois conseguiram serem três (que expressão mais bela pode definir o amor?).

Não foi fácil a selecção. Optei por critérios, sempre discutíveis, de utilidade mais imediata, ou seja o que de Saramago me fez lembrar o sólido e apelante discurso de Carvalho da Silva na manifestação de ontem:

HOMILIA DOMINICAL
"(...) Quase um mês decorrido sobre as eleições legislativas, tornou-se evidente para a direita que os resultados delas não abalaram o PCP. Em vez dessa esperança enganada, há motivos para crer que a prova de fogo, representada pela diminuição de votos e de lugares de deputados, fortaleceu a consciência política de militantes e simpatizantes, curando-os, Prouvera que definitivamente, de ilusões fáceis. Não tem que espantar-nos, portanto, que a AD acompanhe tão fervorosamente a crise do PS, adulando-a até, se é permitida a expressão. Espanta, sim, ver que o PS, apesar da tão apregoada experiência dos seus dirigentes, não foi capaz de entender a derrota e fazê-la compreender dentro e fora do partido. Espanta ainda mais verificar como Mário Soares conduz friamente o seu partido à ruptura interna. Saberemos um dia por que o faz. Hoje basta-nos ver que para Mário Soares é indiferente que o general Soares Carneiro, tão dotado para suceder ao almirante Tomás, possa vir a ser presidente da República Portuguesa depois do 25 de Abril. Aí fica um tema de meditação para um milhão e seiscentos mil cidadãos que votaram na FRS.
Concluamos. Que os comentadores da AD procurem alcançar resultados acrescidos da vitória, bem está: é o seu papel, é nisso que acreditam ou é para isso que lhes pagam. Mas que outros, afirmando-se de esquerda, levem água ao moinho da direita por arrastamento ou oportunismo, por malícia particular ou ingenuidade, por gosto do paradoxo ou cepticismo elegante - eis o que não pode passar sem reprovação. É possível que a crise do PS tenha já feito recuar os mais atentos. Sobrestejam nessa atitude. A direita não consegue segurar as máscaras. O rosto que está por baixo delas é conhecido. Não querer vê-lo seria sinal de cegueira, mas a esses outros cegos ninguém os levará pela mão para votarem na esquerda que nada fizeram para unir. Quando é essa, e só essa, a esperança da democracia."
José Saramago, "Unir a esquerda, defender a Democracia" (1 de Novembro de 1980), in "Folhas Políticas", pág. 96
Unir a Esquerda, Defender a Democracia
(1 de Novembro de 1980)

Unir a Esquerda, Defender a Democracia
(1 de Novembro de 1980)