16 outubro, 2011

Homilias dominicais (citando Saramago) - 53

Hoje trago à homilia uma inesperada companhia.
Temos uma única coisa em comum: ambos fumamos compulsivamente

Nunca escrevi  (ou não me lembro de o ter feito) sobre o que me aproxima de José Saramago. Ocorreu-me, ao ver na sexta-feira passada a entrevista do António Lobo Antunes, escrever sobre o que dele me separa. Desisto de tal impulso, pois poderão pensar que os génios, até por o serem, são incomparáveis ao mais comum dos mortais. Mas não posso deixar de fazer alguns registos. Registo, da entrevista, o esforço da câmara que não larga o grande plano do seu rosto, vendendo dele a sinceridade do olhar e das rugas. Não tenho dúvidas, à força de tanto encenar, o rosto tornou-se um personagem sincero da encenação. A arrogância não é ostensiva e é servida adocicada, perante a câmara, rendida. "No mundo, há apenas cinco grandes escritores" afirma e tem a humildade de apenas insinuar, deixar no ar, que seu nome poderá muito bem ser um deles. Os prémios literários? Desdenha-os - tendo-os quase todos - mas salienta que o "dinheiro é agradável". O Nobel, só é diferente dos outros, porque é maior. Sobre o que de mais importante existe no mundo, escolhe o amor e a amizade. Ele sabe, garantidamente, de ir acertar na quase unânime aceitação de serem tais sentimentos os mais queridos e apreciados, esquecendo toda a série de valores humanos cuja ausência tanto distorcem a verdade daqueles. Lobo Antunes perdeu uma excelente oportunidade de falar disso  e, talvez, considerar ser a distorção egoísta do amor e da amizade uma das principais razões da desumanidade. Sobre a crise e a situação social fala neles nos mesmos termos de vulgaridade com que, nessa mesma manhã, ouvi o senhor Barata,  ao servir-me o café e o jornal. Afirmava o escritor, o mesmo que o sr. Barata: estar  horrorizado... Esta a passagem mais frustrante, pois esperava outra palavra, mais dura e segura, de um homem que todos julgam elevado. Falou da escrita, no escrever por dentro da alma, mas nem uma palavra a quem o tenta também fazer no país e na língua que também é a sua. O génio não tem pares, nem dá - como outros fizeram - palavras de consolação ou incentivo a quem está a caminho de o ser. Fátima Campos Ferreira fez-lhe o favor de o não interrogar sobre os valores da jovem literatura portuguesa. Ou sobre o papel e deveres de um homem que, além de génio, é cidadão. Sabe-se lá se o escritor não se irritaria e se não lhe ia cair a máscara do sorriso sobre a mesa, naquela onde a câmara escondeu o apagar de mais um cigarro fumado, num gesto tão semelhante ao meu. Depois desta entrevista muitos irão comprar livros seus. Eu, por meu lado, irei pôr na prateleira um que tinha entre mãos. O homem não só me tirou a vontade de o ler, como me abriu (pela omissão) o apetite de ler gente nova, cuja existência (prudentemente) ele ignora.

HOMILIA DE HOJE
"O cidadão que o escritor é não pode ocultar-se por trás da obra. Ela, mesmo importante, não pode servir de esconderijo para dar ao autor uma espécie de boa consciência graças à qual ele poderia dizer que está ocupado e não tem tempo para intervir na vida do país."
"Todos somos escritores, uns escrevem outros não"
José Saramago, retirado daqui
"...não será exagero dizer, sem qualquer desprimor para os excelentes romancistas jovens de cujo talento desfrutamos actualmente, que na produção novelesca nacional há um antes e um depois de Gonçalo M. Tavares. Creio que é o melhor elogio que posso fazer-lhe. Vaticinei-lhe o prémio Nobel para daqui a trinta anos, ou mesmo antes, e penso que vou acertar. Só lamento não poder dar-lhe um abraço de felicitações quando isso suceder."
NOTA (em 19.Out) - Depois de várias tentativas para trazer aqui o video da entrevista, o mais que consegui foi este link aqui