07 junho, 2015

Geração sentada, conversando na esplanada - 90 ("...nós somos aquilo que lemos")

«O homem passou a mão ao de leve sobre o lago. Num jeito de carícia a um animal adormecido. E a água começou a escorrer-lhe de manso nos braços, inundou-lhe a garganta, coou-se-lhe nas espáduas, ressumou no torço, doeu-lhe no ventre em turbilhão. Foi punhais e remoinho. A espaço trespassava-o em cachão e galgava-lhe as veias, depois de novo um movimento quase estagnado, um arfar de bicho esfalfado insaciável.»
Fiama Hasse Pais Brandão, in Em cada pedra um voo imóvel. 
«Ontem, ao passar por uma livraria, reparei que Prometo Falhar, de Pedro Chagas Freitas, saído em  2014, atingiu já cem mil exemplares de tiragem. Vou ali à estante, e retiro, Em cada pedra um voo imóvel, de Fiama Hasse Pais Brandão, que lançado em 2008, com uma tiragem de mil e duzentos exemplares, da última vez que verifiquei (há segundos) ainda é fácil encontrar na edição original. Ou seja, sete anos não chegaram para esgotar mil e duzentos exemplares de um livro maior de Fiama, mas Pedro Chagas Freitas vende, num ano (ou menos), cem mil exemplares.»
Era tal a atenção que um dava ao outro, era tal a conversa de um com o outro, que resolvi não interromper. Abri o livro na página onde ia e preparei-me para ler. Mas a primeira frase ao cimo da página a atrapalhou-me a concentração. E fiquei a olhar, o engenheiro e o cão e a lembrar que "nós somos aquilo que lemos" (e, se não soubermos escolher, seremos aquilo que nos derem a ler...)